Terra à Vista http://terraavista.blogosfera.uol.com.br Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando. Tue, 09 Jul 2019 11:30:57 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Como o Instagram está arruinando a ponte de “Big Little Lies” http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/07/08/como-o-instagram-esta-arruinando-a-ponte-de-big-little-lies/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/07/08/como-o-instagram-esta-arruinando-a-ponte-de-big-little-lies/#respond Mon, 08 Jul 2019 17:40:31 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=405

Bixby Bridge (foto: iStock)

36º22’N, 121º54’O
Ponte de Bixby Creek
Monterey, Califórnia, Estados Unidos

Uma estrada imaculada feito grama de Wimbledon no primeiro dia. Mulheres ricas ao volante. Os problemas escondidos atrás dos óculos escuros, os dilemas distribuídos entre o cotovelo na janela e a mão nos cabelos. A cara de uma ressaca de segredos acumulados. As ondas explodindo nas pedras lá embaixo. O céu nublado de um jeito que só quem gosta de frio no litoral entende. Aquela ponte e seu arco, entre as enjuntas, rumo ao abismo. Tudo embalado pela música de Michael Kiwanuka. Uma abertura que faz jus à série que introduz.

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É difícil para quem assiste a Big Little Lies, da HBO, imaginar que o que vem se passando em seu cenário mais famoso seja isto:

“Um trailer de comida estacionado, com uma fila de clientes. Motoristas de ônibus que bloqueiam saídas. Turistas apoiados em pedras, inclinando-se para fazer selfies. Carros tentando fazer retornos na rodovia. Outros estacionados um ao lado do outro, pisca-alerta ligado. Pessoas pulando entre os veículos, quase provocando acidentes potencialmente mortais.”

O relato é de uma reportagem do Santa Cruz Sentinel, jornal publicado no condado de Santa Cruz, vizinho do condado de Monterey, onde fica o objeto que vem atraindo toda essa gente, mas que, dada a sua natureza (é uma ponte em uma rodovia, entre o oceano e as montanhas), não tem estrutura própria para receber multidões a passeio. A ponte de Bixby Creek virou uma lâmpada de selfies para os mosquitos das redes sociais.

“Nos fins de semana e feriados é como estacionamento de supermercado”, segue a reportagem. Tudo tende a ficar caótico nesses dias porque não há sinal de celular, então não tem Waze, Google Maps ou coisa do tipo para avisar que o trânsito está travado, dê meia-volta, é melhor nem tentar, vai parar tudo.

Então, as pessoas chegam, e chegam, e chegam. O telefone de emergência na pista é usado para pedir pizza. Na falta de um banheiro nas redondezas, o acostamento vira depósito de fraldas usadas.

(Foto: iStock)

MAIS QUE O CENÁRIO DE UMA SÉRIE DE SUCESSO

Mas tudo isso só para ver a ponte que aparece em uma série? Não só. Big Little Lies era para ser uma minissérie de temporada única, baseada em um livro homônimo. Só que o sucesso foi grande, os prêmios se acumularam, a crítica e o público adoraram (95% no Rotten Tomatoes, nota 8,6 no IMDb) e aí o elenco já estrelado (Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Laura Dern…) ganhou não só uma segunda temporada, mas uma segunda temporada com Meryl Streep.

Ainda assim, isso não explica a popularidade da ponte (que, em termos práticos, é apenas um cenário, sem nenhuma importância maior na trama, pelo menos até este momento). É que a Bixby Creek Bridge não é só a ponte de Big Little Lies. Ela é uma das pontes mais famosas da Califórnia, é a ponte de comerciais da Ferrari, da BMW e da cerveja Corona. É a ponte de GTA V e a música do Death Cab for Cutie. Está em um filme de Clint Eastwood (Perversa Paixão, de 1971) e em uma série de 1969, Then Came Bronson (que tinha no elenco Bruce Dern, pai de Laura Dern).

A ponte de Bixby Creek é um dos enquadramentos mais famosos de uma das paisagens rodoviárias mais bonitas do mundo, a Big Sur, um pedaço da costa central da Califórnia em que a cordilheira e o Pacífico se encontram dramaticamente. Tanto que os 116 km da Highway 1 que separam a vila litorânea de Cambria da comunidade de Carmel Highlands, em Monterey, foram os primeiros a receberem o selo de estrada cênica, uma designação do estado da Califórnia, em 1966.

Convenhamos, não é dos lugares mais práticos para receber excursões de turistas (foto: iStock)

São mais de 50 anos de fama na cultura popular, e as coisas escalaram muito rápido nessa década. O departamento de turismo tem vendido com mais intensidade a ponte em mercados d’álem-mar, especialmente a China. Juntemos no caldo a explosão do Instagram, das câmeras de celular e das selfies, e a situação é essa. Em 29 de dezembro de 2018, moradores e empresários da região fizeram uma manifestação na ponte chamada “O apelo do Big Sur”, pedindo aos visitantes mais respeito à região. Dois dia antes, o site de viagem americano TravelPulse colocou a Bixby Creek no primeiro lugar de uma lista dos lugares mais “instagramáveis” de 2019.

Mesmo quem ache que todas essas críticas sejam atitude de mimimilionário elitista precisa entender que se trata de um lugar delicado. Essa ponte de 85 m de altura fica em uma área de natureza preservada. Além do mais, integra uma malha rodoviária, logo precisaria de uma estrutura turística com segurança e vigilância, que por ora não tem. 

Fora que é uma ponte construída em 1932, faz parte da história local. Por muito tempo, ela tinha uma relação meio torta com o Brasil. Na serra ao sul da construção, ficava o rancho Brazil, que tinha esse nome por pertencer ao açoriano Antonio Brazil. A propriedade de cerca de 500 hectares funcionou por quase um século, até ser vendida em 1977 a Allen Funt, mago da televisão e criador do Candid Camera, um dos pioneiros das pegadinhas na TV.

Pegadinha mesmo deve ser chegar lá e imaginar a Zoë Kravitz gritando por dentro enquanto corre naquela estrada linda, mas o que você vê mesmo é papel higiênico sujo no acostamento.

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A vila norueguesa que quer abolir o tempo foi só uma bela ação de marketing http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/06/27/a-vila-norueguesa-que-quer-abolir-o-tempo-foi-so-uma-bela-acao-de-marketing/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/06/27/a-vila-norueguesa-que-quer-abolir-o-tempo-foi-so-uma-bela-acao-de-marketing/#respond Thu, 27 Jun 2019 15:29:36 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=392

Porto de Tromsø, principal cidade da região (foto: iStock)

69º37′ N, 18º01’L
Sommarøy
Troms, Noruega

Foi notícia no mundo todo, em todos os fusos horários. Sommarøy, uma vila na Noruega, quer se livrar das amarras do tempo e das obrigações do relógio. Afinal, ele não faz tanto sentido assim em um lugar com meses de sol a pino e outros de noite eterna.

Mas, como revelou a imprensa do país escandinavo, a campanha, que contou com apoio real de habitantes e de políticos (na esteira das discussões sobre acabar ou não com o horário de verão), foi uma belíssima jogada de marketing para promover o local.

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O mistério dos parques abandonados no meio da Disney
A vila espanhola onde diabos de máscara pulam sobre bebês em festa
Frustrados do mundo, existe um lugar para vocês: as Ilhas da Decepção

A tal petição dos moradores da ilha, em que eles fizeram um apelo para se tornarem uma sociedade sem tempo, era uma brincadeira. Na verdade, a reunião em que alguns habitantes locais debateram o assunto foi, na verdade, a apresentação do plano da empresa estatal Inovasjon Norge, que queria mostrar como o norte da Noruega é um lugar tentador no verão.

Ou seja, não foi uma manifestação contra a mediçã do tempo, uma das mais bem-sucedidas criações humanas para conectar o planeta. Foi uma campanha de marketing para mostrar uma ilha onde o sol não se põe por 69 dias, as pessoas dispensam relógios e os horários não se aplicam. Um local idílico, ora pois.

Aurora boreal no condado de Tromps, onde fica a “ilha sem tempo” (foto: iStock)

“Por que precisamos de tempo e relógio quando não anoitece?” pergunta a página do movimento Time Free Zone no Facebook. De fato, os cerca de 300 habitantes encaram a questão de maneira própria. Afinal, são eles que vivem no Círculo Polar Ártico, não os turistas que querem atrair. E eles sabem que seu cotidiano tem um potencial turístico. Não é qualquer um que corta a grama de madrugada ou que não precisa dizer para os filhos não voltarem tarde, simplesmente porque nã existe “tarde” nem madrugada no verão. São exemplos corriqueiros que os tornam uma curiosidade global.

Daí a grande sacada da Inovasjon Norge para a ilha, cuja ponte de acesso não está empanturrada de cadeados (como em tantas outras cidades europeias), mas de relógios. Foi um sucesso. A história repercutiu em mais de mil veículos de imprensa e foi acompanhada por mais de 1 bilhão de pessoas. Convenhamos, funcionou.

Sommarøy é uma antiga vila de pescadores que há séculos tem uma conexão com o bem-estar. Seu nome quer dizer “ilha do verão”, e, no século 17, as pessoas que a procuravam para descansar pagavam uma espécie de imposto detox.

Hoje, noruegueses buscam Sommarøy pelas suas praias de areia. A temperatura esta semana deve chegar a 12ºC. Nada mal para um lugar no norte da Noruega.

Depois dessa semana, provavelmente gente de muitos outros países desejarão visitar a ilha e seu sol da meia-noite. Mas provavelmente de relógio, até porque é preciso saber a que horas parte o ônibus de Tromsø para chegar lá.

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A vila espanhola onde diabos de máscara pulam sobre bebês no Corpus Christi http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/06/20/a-vila-espanhola-onde-diabos-de-mascara-pulam-sobre-bebes-no-corpus-christi/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/06/20/a-vila-espanhola-onde-diabos-de-mascara-pulam-sobre-bebes-no-corpus-christi/#respond Thu, 20 Jun 2019 08:00:46 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=380

Ruína medieval arco de San Miguel de Mazarreros, em Olmillos de Sasamon. Que tal passar o feriadão em um lugar de 1000 habitantes? (foto: iStock)

 

42º21’N, 4º03’O
Castrillo de Murcia
Sasamón, Castela e Leão, Espanha

Corpus Christi é talvez o feriado católico mais difícil de se explicar. Não é sobre o menino Jesus. Não é exatamente sobre sua morte (embora celebre a ressurreição). Não envolve Maria nem nenhum santo. Trata-se de uma festa sobre a transubstanciação, ou seja, a presença real de Cristo na eucaristia, algo central na fé católica.

Localizá-lo no calendário também não é fácil. É a quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece uma semana depois do domingo de Pentecostes. Pentecostes, por sua vez, é celebrado 50 dias depois da Páscoa, a grande data que define as outras festas móveis do catolicismo. A Páscoa ocorre no primeiro domingo após a primeira Lua Cheia do outono (no Hemisfério Sul). A partir daí você sabe quando será o Carnaval, Corpus Christi etc.

Pois é, uma complicação. Mas, para os desapegados de simbolismos religiosos, seguidores de outras fés e cidadãos pragmáticos em geral, a explicação que basta está no começo: “É a quinta-feira”. Logo, feriadão. Pelo menos para os mais afortunados.

Junte um fim de semana prolongado, os belos dias de outono-quase-inverno e as ruas enfeitadas de cascalho, flores, serragem, borra de café, farinha, areia e tantos outros materiais, tradição que herdamos dos portugueses, e temos um dos feriados mais bonitos do ano. Cidades paulistas, mineiras, goianas, capixabas, fluminenses colorem as ruas em procissão.

E não só no Brasil. A festa de Corpus Christi, que surgiu na Bélgica, no século 13, ganha características locais e atrai turistas no Panamá, Peru, Espanha, Portugal, Itália e outros países de maioria católica.

Igreja de Santa Maria la Real, em Sasamón, município ao qual Castrillo de Murcia pertence (foto: iStock)

CORPUS CHRISTI DIFERENTE

Antigamente, só bebês locais participavam. Mas, com a popularização da festa, gente de outras cidades traz seus filhos para o Colacho (foto: Wikimedia Commons)

Algumas dessas tradições fogem totalmente do padrão. É o caso do Colacho, em Castrillo de Murcia, um vilarejo em Sasamón, na província de Burgos, Espanha. Tem cerca de 200 habitantes, e a soma dos povoados que compõem Sasamón mal passa de mil pessoas. Uma região linda e vazia, com ruínas romanas e construções medievais.

El Colacho também é antigo. Os registros mais velhos indicam que ele acontece desde pelo menos a década de 1620, todo domingo após Corpus Christi. O evento começa com diabos com máscaras vermelhas e amarelas, que percorrem as ruas gritando, xingando e empunhando chicotes de rabo de cavalo.

Então chegam os atabaleros, homens de preto determinados a expulsar o mal. Os diabos correm e então começa o Salto do Colacho, em que eles pulam sobre bebês que nasceram no último ano e que estão deitados em colchões bem no meio da rua.

El Colacho: quase 400 anos de tradição (foto: Flickr)

Segundo a tradição, os diabos absorvem os pecados originais dos bebês. Se o batismo católico fosse um esporte olímpico, essa seria a versão X games.

Espectadores na calçada aproveitam para pedir proteção e saúde. Ao final, sob pétalas, depois daqueles instantes de respiração presa com adultos mascarados pairando no ar sobre bebês indefesos, eles voltam a seus pais. Ufa.

 

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O mistério dos parques abandonados no meio da Disney http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/06/16/o-misterio-dos-parques-abandonados-no-meio-da-disney/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/06/16/o-misterio-dos-parques-abandonados-no-meio-da-disney/#respond Sun, 16 Jun 2019 08:00:51 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=372

Nos primórdios de Walt Disney World, havia um parque em uma ilha (foto: divulgação)

28º24’N, 81º33’O
Discovery Island
Bay Lake, Flórida, Estados Unidos

A trívia do Mickey pergunta: quantos parques integram o Walt Disney World, na Flórida? A resposta apontada como correta diz que são seis: quatro temáticos (Magic Kingdom, Epcot, Hollywood Studios e Animal Kingdom) e dois aquáticos (Blizzard Beach e Typhoon Lagoon).

Só que ainda há outros dois parques largados lá no meio, abandonados à natureza e lacrados para o público. Um é o River Country, o primeiro parque aquático do conglomerado, fechado em 2001 e engolido pelo pântano. O outro é Discovery Island, que funcionou por mais de 20 anos em uma ilhota no Bay Lake, lago que dá nome ao município onde fica a maior parte do complexo.

Inaugurado em 1974 como Treasure Island, o parque funcionava como um zoológico que exibia lêmures, jacarés, tartarugas-das-galápagos, macacos-pregos e uma série de aves, como flamingos, pelicanos, águias e até os últimos indivíduos de uma subespécie de andorinha, declarada extinta em 1990. Com praia e outras atividades de espírito aventureiro, Discovery Island fez sucesso nos anos 70 e 80.

Mapa da Discovery Island quando ainda se chamava Treasure Island

Na década seguinte, a Disney entrou em uma nova fase. Com a inauguração do Animal Kingdom, em 1998, muitos animais foram transferidos para esse novo parque, muito maior, mais moderno e seguro. Outros tiveram refúgio em zoológicos espalhados pelo país. No ano seguinte, Discovery Island fechou as portas, sem maiores explicações. Em 2001, foi a vez do River Country, também ultrapassado pelos novos parques aquáticos da empresa.

Acontece que, como os parques nunca foram completamente desmontados e a Disney sempre evitou falar muito a respeito, uma previsível e irresistível nuvem de mistério pairou sobre os lugares. Não é todo dia que fãs da Casa do Mickey e caçadores de lugares abandonados se encontram nos mesmos fóruns online, esses férteis criadouros de teorias conspiratórias. Afinal, por que a Disney os fechou e por que não construiu nada no terreno onde essas atrações funcionavam?

O acesso às ruínas é proibido e a empresa desencoraja a aventura. Mas, como Bay Lake margeia dois resorts e um camping e fica próximo ao Magic Kingdom, o mistério do lago pode ser tentador para quem passa ali perto.

Recentemente, eu cheguei à entrada de ambos os parques em um passeio guiado pelo lago. O piloto do barco contou a história deles e reforçou que a entrada não é permitida. Sem nenhum rodeio, sem ares de mistério nem narrativas fantasiosas, justamente para não alimentar especulações.

Ao se aproximar, você não vê muito mais que isso (foto: Wikimedia Commons)

Era uma vez um parque, que fechou. Ele ficava aí. Fim.

Uma anti-história da Disney, praticamente. Nada de piratas, exploradores, heróis. Como se, uma vez mortos, os parques tivessem se tornado uma terra infértil de magia, dois enclaves de não-fantasia em um mundo especialista em vender fantasia.

Alguns fotógrafos conseguiram furar o bloqueio, divulgando imagens de tobogãs apodrecidos, casinhas dominadas por plantas trepadeiras, musgo e folhas mortas onde antes havia cores, diversão e cuidado minimalista com detalhes. Discovery Island virou um mito, e seus últimos dias são lembrados com carinho por quem esteve lá.

O fato de os restos dos dois parques continuarem na área vai sempre excitar fãs de lugares abandonados e adoradores do lado obscuro de grandes corporações, especialmente as que mexem com memórias afetuosas de infância, como a Disney. Normal, mas um tanto irônico nesses tempos.

Pegue Chernobyl, por exemplo. Para alguns críticos, foi reduzido a um grande parque de diversões de caçadores de ruínas contemporâneas, com tours sensacionalistas que deturpam a história e atraem cada vez mais influenciadores digitais especializados, apenas, em selfies constrangedoras.

Enquanto isso, a Disney, a Meca e a Roma do turismo de entretenimento, mantém as suas próprias “zonas de exclusão”, bem menos acessíveis do que a antiga usina ucraniana. Mas, ao mesmo tempo, próximas como um pacote de férias em 10 vezes sem juros.

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Frustrados do mundo, existe um lugar para vocês: as Ilhas da Decepção http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/06/01/frustrados-do-mundo-existe-um-lugar-para-voces-as-ilhas-da-decepcao/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/06/01/frustrados-do-mundo-existe-um-lugar-para-voces-as-ilhas-da-decepcao/#respond Sat, 01 Jun 2019 12:00:56 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=352

Tuamotu já frustrou exploradores, mas hoje tem seus encantos (foto: iStock)

14º10′ S, 141º13’O
Napuka
Tuamotu, Polinésia Francesa

Atóis — essas ilhas distantes da costa formadas por um anel de corais e uma laguna no meio — podem ser uma beleza da natureza, mas são um desafio para navegantes, especialmente para aqueles de alguns séculos atrás.

O problema é a visualização. Ilhas montanhosas podem ser avistadas de longe em dias de mar calmo e tempo aberto. O Taiti é visível a mais de 160km. A Ilha do Havaí, a maior do arquipélago de mesmo nome, pode ser vista a mais de 330km, graças a seu ponto culminante, Mauna Kea e seus exuberantes 4.200m.

(Detalhe é que o topo da montanha é sempre a primeira parte que você vê. À medida que se aproxima, a ilha vai se descortinando de cima para baixo, uma prova cabal da curvatura terrestre. Se você topar com um terraplanista, sugira a ele pegar um barco e remar para tirar a prova.)

Já os atóis não têm montanha para avisar a um marinheiro de sua proximidade. Na falta de uma, procurava-se uma árvore alta. Um observador no cesto da gávea de um navio conseguiria avistar um coqueiro de 30m a cerca de 30km de distância, isso em condições bem favoráveis. À noite, muitos só descobriam o atol quando já arrebentavam o casco nos corais.

Alguns desses lugares fizeram fama tão ruim que acabaram gravados na cartografia. Caso de um grupo de ilhas do Pacífico que ganhou uma série de nomes pouco inspiradores dos navegadores europeus que por ali passaram.

Em 1520, durante a viagem de circunavegação do globo, o viajante veneziano Antonio Pigafetta, assistente do próprio Fernão de Magalhães, registrou em seu diário as Ilhas Desafortunadas. No século 17 os holandeses nomearam elas de Águas Más, entre outros apelidos. No século 18 era Arquipélago Perigoso. No 19, Arquipélago do Mar Mau. Haja fama ruim.

Antes disso, em 1765, um britânico foi igualmente mal-sucedido. John Byron (avô do poeta que seria conhecido como Lorde Byron) estava em missão para conquistar alguma ilha no Pacífico Sul para servir de posto de abastecimento aos navios ingleses.

Byron deu a volta no mundo em menos de dois anos, um recorde, e tomou as Malvinas para serem chamadas de Falkland (ou não). Mas nada de tomar aquelas ilhotas.

Ele sequer conseguiu descer lá. Não havia ponto seguro para ancorar, por causa do escudo coralíneo em volta da ilha. Para completar, os nativos os aguardavam ostentando lanças de 5m e fazendo sinais agressivos em meio a gritarias e danças.

O comandante recuou e tentou ancorar na ilha vizinha, mas de novo falhou. E, de novo, surgiram ameaças em forma de lanças e porretes. Os ingleses responderam e apelaram com uma bala de canhão.

Após 20 horas de frustração, Byron decidiu ir embora. Chamou o local de Ilhas da Decepção. Parece coisa de fã de Game of Thrones após o fim preguiçoso da série, mas foi um nome que pegou por algum tempo.

Hoje, elas não têm nem 300 habitantes somadas e são mais conhecidas pelos nomes que tinham desde antes da passagem dos frustrados europeus: Napuka e Tepoto. As duas fazem parte do arquipélago Tuamotu, um dos grupos de ilhas que formam a Polinésia Francesa e que tem paisagens assim: 

(foto: iStock)

(foto: iStock)

Mas, se preferir, pode chamar de Ilhas da Decepção. E mandar aquele alguém não-tão-mais-especial-assim para lá.

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A origem da bizarra corrida do queijo rolante, na Inglaterra http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/05/28/a-origem-da-bizarra-corrida-do-queijo-rolante-na-inglaterra/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/05/28/a-origem-da-bizarra-corrida-do-queijo-rolante-na-inglaterra/#respond Tue, 28 May 2019 13:51:20 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=350

Gloucester, sede de uma das competições mais estranhas do mundo (foto: iStock)

51º49’N, 2º09’O
Monte Coopers
Gloucester, Inglaterra, Reino Unido

Nesta segunda, o Reino Unido parou. Ninguém queria saber de mais nada. Novo Parlamento europeu? Brexit? Esqueça. Todo mundo queria saber o resultado da Corrida do Queijo de Gloucester.

Exageros à parte, a competição em que dezenas de malucos se atiram de um morro tentando pegar um queijo rolante é dos torneios bizarros mais famosos do mundo, ao lado da corrida de carregamento de esposas e do campeonato de guitarra imaginária — duas grandes contribuições da Finlândia ao jornalismo de curiosidades.

(foto: iStock)

(foto: iStock)

Mas, apesar de ser conhecido há relativamente pouco tempo, graças em boa medida aos acidentes hilários que provoca, o queijo quicante é uma prática bem antiga. A mais velha referência escrita é uma mensagem de 1826, mas mesmo ela deixa claro que a brincadeira não era uma novidade da época.

Acredita-se, aliás, que o rolamento de queijo seja uma herança dos romanos, que conquistaram a Grã-Bretanha em 54 a.C., ou que seja ainda mais antigo. Habitantes locais garantem que desde meados do século 18 a tradição já ~rolava (trocadilho involuntário).

A corrida fazia parte da festa religiosa anual do monte Coopers. Havia competições de luta, chute na canela e corridas de crianças por doces, tudo em nome de uma boa colheita no ano seguinte. Hoje, só a disputa açucarada infantil acompanha a corrida do queijo, que acontece sempre no feriado bancário de primavera no Reino Unido, sempre a última segunda-feira de maio. Tudo em meio ao cenário rural das cercanias de Gloucester.

(foto: iStock)

Catedral de Gloucester (foto: iStock)

Nada mal começar a semana se despedaçando em uma pirambeira.

Ah, a corrida deste ano coroou como vencedores Max McDougall, 22, Ryan Fairley (9 vezes campeão do evento), 29, Flo Early (pela 4ª vez campeã na categoria feminina), 28, e  Mark Kit, 21. Parabéns aos envolvidos.

Ryan Fairley, 29, um dos vencedores da corrida de 2019, beija seu troféu-queijo (foto: Thousand Word Media Ltd/Reprodução)

 

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A corrida pela maior ilha de terceira ordem do mundo. Calma, ilha de quê? http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/a-corrida-pela-maior-ilha-de-terceira-ordem-do-mundo-calma-ilha-de-que/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/a-corrida-pela-maior-ilha-de-terceira-ordem-do-mundo-calma-ilha-de-que/#respond Tue, 21 May 2019 08:00:24 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=327

(foto: iStock)

69º47’N, 108º14’O
Ilha sem nome
Ilha Victoria, Nunavut, Canadá

Imagine uma minúscula ilha, com 400 m de uma ponta a outra. Essa ilha, desabitada e sem nome, fica dentro de um pequeno lago, também sem nome. Esse lago, por sua vez, está localizado em uma outra ilha, um tanto maior. Essa segunda ilha, assim como muitas outras, fica em um lago bastante recortado, com cerca de 12 km de norte a sul em seu corpo principal. Por fim, esse lago é somente um de dezenas de outros lagos relativamente grandes dentro de uma enorme ilha.

Em suma, uma ilha dentro de um lago dentro de uma ilha dentro de um lago dentro de uma ilha. Eis a definição de uma ilha de terceira ordem ou, se preferir, uma sub-sub-sub-ilha.

Ela fica em uma região inóspita, o norte do Canadá, na ilha Victoria (ou Kitlineq). Não há estradas e a cidade mais próxima fica a 145 km. Às margens do Oceano Ártico, Victoria é a oitava maior ilha do mundo (mais de cinco vezes maior que Marajó), mas tem somente 2 mil habitantes. Dependendo de onde você mora, o seu prédio tem mais gente que essa ilha de 217.291 km2.

Hoje, acredita-se que essa ilhota sem nome perdida no meio da Victoria seja a maior ilha de terceira ordem do mundo. Mas, antes, o título pertencia a uma ilhota em um lago vulcânico, que fica na ilha do vulcão Taal, que por sua vez está em um grande lago da principal ilha das Filipinas. A ilhota filipina tira proveito de um certo marketing turístico, especialmente por ser um vulcão dentro de um lago dentro de um vulcão (!) e por ficar a apenas 50 km da capital, Manila. Já a sua concorrente canadense é muito mais isolada.

Em fóruns de nerds de mapas na ~rede mundial de computadores~, ainda há quem busque uma nova campeã. O que é possível, olhe só o tamanho de Victoria e quantos lagos ela tem. E é apenas uma de cerca de 30 mil ilhas (ou mais de 50 mil, as contagens divergem) em um país com milhões de lagos, lagoas e lagunas. E o Canadá nem é o país com mais ilhas do mundo. Noruega, Finlândia e Suécia têm muito mais.

Então, talvez só não tenham descoberto ainda porque a tarefa é um tanto árdua e, convenhamos, Felipe, meio inútil. Mas é uma boa desculpa para conhecermos essa região do Canadá, repartida entre as regiões Inuvik e Kitikmeot.

(foto: iStock)

(foto: iStock)

(foto: iStock)

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O resort de luxo criado no país mais desigual do mundo para ter striptease http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/o-resort-de-luxo-criado-no-pais-mais-desigual-do-mundo-para-ter-striptease/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/o-resort-de-luxo-criado-no-pais-mais-desigual-do-mundo-para-ter-striptease/#respond Fri, 10 May 2019 16:55:10 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=317

(foto: iStock)

25º20’S, 27º06’L
Resort Sun City
Noroeste, África do Sul

O apartheid, o deplorável regime segregacionista da África do Sul, foi implementado em 1948, mesmo ano em que Mahatma Gandhi foi assassinado na Índia e ninguém ganhou o prêmio Nobel da Paz. Grande ano!

Na década de 1970, a política racista sul-africana ficou ainda mais rígida. O primeiro-ministro B.J. Vorster aprovava uma série de leis que classificava e separava os negros em grupos étnicos.

O auge dessa medida de segregação foi o confinamento em massa em territórios tribais, os bantustões. Quatro desses bantustões chegaram a ser declarados países independentes, o que não foi reconhecido por ninguém além da própria África do Sul. Um desses bantustões era a República de Bophuthatswana.

Bophuthatswana era uma série de áreas salpicadas ao norte do território sul-africano. Se um país geograficamente separado já complica, imagine um geograficamente separado que foi imposto por um governo oficialmente racista apenas para concentrar e isolar os tswana (o nome do país significa, literalmente, “reunindo o povo tswana”).

A ONU considerou deplorável a criação de Bophuthatswana, que passou toda sua existência no isolamento quase total. Apesar disso, a revista americana Time falou do potencial econômico do novo país e Bophuthatswana chegou a ter relações diplomáticas com Israel.

Em 1979, um magnata resolveu empreender ali. Sol Kerzner quis aproveitar a proximidade do território de cidades como Johanesburgo, a maior da África do Sul, e Pretória, a capital administrativa, para criar um ousado complexo hoteleiro.

(foto: iStock)

Além da óbvia vantagem de estar perto de metrópoles, o hotel teria outro trunfo na manga: o lugar mais próximo de Johanesburgo onde o jogo e o striptease eram permitidos.

Com essa pegada mais “sin city” do que “sun city”, o resort foi erguido ao lado de um parque nacional, onde leões, leopardos, rinocerontes-negros, elefantes, búfalos-africanos, guepardos, zebras, impalas, gnus e centenas de espécies de aves podem ser avistados em um dia de sorte no safári. Estátuas representam os grandes animais africanos no paisagismo do complexo, que tem ainda um enorme labirinto no jardim e uma praia artificial.

(foto: iStock)

Tanto luxo entrou na mira das manifestações contra o apartheid. Era preciso engajar o mundo para combater esse absurdo. Nos anos 1980, a forma como os países ricos faziam isso eram as músicas de protesto, que  geralmente reuniam medalhões de estilos muitas vezes incompatíveis.

Pouco depois da formação da Band Aid e no mesmo ano do Live Aid, uma nova constelação se uniu para falar da África. O time contava com (respire fundo): Afrika Bambaataa, Bob Dylan, Bruce Springsteen, George Clinton, Herbie Hancock, Jimmy Cliff, Joey Ramone, Lou Reed, Keith Richards, Miles Davis, Pete Townshend, Peter Gabriel, Ringo Starr, Ronnie Wood, Run DMC e U2, entre outros (sim, ainda tem espaço para “entre outros”).  

O cabeça da empreitada era Steven van Zandt, guitarrista da E Street Band (a banda de Bruce Springsteen), e, mais tarde, um dos principais atores de Família Soprano. Ou seja, aquele tipo de artista que muita gente demora para se ligar do quão importante e bom ele é.

O resultado é “Sun City”, uma mistura de hip-hop, R&B e hard rock extremamente oitentista:

A música dizia “não vou tocar em Sun City” como um pedido de boicote à África do Sul e ao resort. Porque, naquele ano de 1985, Sun City já ostentava uma longa lista de artistas que passaram pelo seu palco: Frank Sinatra, Elton John, Ray Charles, Beach Boys e Queen. Por ser uma mancha no currículo do Queen, o show da banda sequer é mencionado no filme de Freddie Mercury, assim como muitos outros detalhes importantes.

A década de 1990 chegou, o mundo mudou, o apartheid caiu, Nelson Mandela saiu da prisão e foi eleito presidente. Mas, em mais uma medida de tentar unificar o país, ele não condenou o hotel. Em vez disso, pediu a ajuda de Kerzner. O Sun City hospedou visitas importantes, chefes de Estado entre elas, no Sun City, para a cerimônia de posse. Era 10 de maio de 1994, exatos 25 anos atrás.

Naquele mesmo ano, Bophuthaswana e todos os outros bantustões foram extintos e reintegrados à África do Sul. Seria um final feliz.

Mas, hoje, na semana em que o partido de Mandela deve vencer as eleições presidenciais, o país continua no topo do ranking das nações mais desiguais do mundo. O caminho é longo.

Ah, o hotel segue em funcionamento e é um dos mais famosos da África do Sul. Mais informações em: www.sun-city-south-africa.com 

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Há 500 anos, Leonardo da Vinci morreu em castelo que hoje abriga museu http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/05/02/ha-500-anos-leonardo-da-vinci-morreu-em-castelo-que-hoje-abriga-museu/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/05/02/ha-500-anos-leonardo-da-vinci-morreu-em-castelo-que-hoje-abriga-museu/#respond Thu, 02 May 2019 08:00:24 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=305

Clos Lucé, onde Leonardo da Vinci viveu seus últimos anos (foto: Wikimedia Commons)

47º24’N, 0º59’L
Castelo de Clos Lucé
Amboise, Centro-Vale do Loire, França

Cena clássica de RH. Temos aqui um profissional bastante respeitado, respeitadíssimo, aliás. Atua em diversas áreas, multitasking bem antes de ser modinha. Mas, apesar de bem relacionado, está velho, sem muitas perspectivas nem empolgações. Aposentadoria? Com ou sem regime de capitalização, não rolava muito.

O maior desafio desse medalhão, velha-guarda da firma, era encarar a juventude, tão boa em algumas áreas, talvez melhor que ele em outras, mas sem tantas abas do conhecimento abertas no navegador. Ainda assim, pessoas já reconhecidas, promovidas e premiadas.

Assim estava a empresa italiana Rinascimento S.A. em 1515. Leonardo tinha 63 anos. Michelangelo, 40. Rafael, 32. Os três viviam em Roma, o único lugar do mundo que podia comportar tantos gênios e egos.

Poderíamos esperar um Mestre Splinter chegar e fazer os talentos dessa firma fictícia trabalharem juntos, mas não é assim que funciona. Não foi assim que aconteceu.

Em outubro daquele ano, o rei francês Francisco I anexou a cidade de Milão. Dois meses depois, ele se encontrou com o papa Leão X em Bolonha, em uma ocasião em que Leonardo estava presente. O rei era admirador da obra do artista, então Leonardo recebeu uma encomenda: criou para Francisco um leão mecânico que andava para a frente, abria o peito e revelava um buquê de lírios. Alta tecnologia, coisa linda.

Pouco depois, em 1516, Leonardo já trabalhava oficialmente para o monarca francês. Aceitou o convite e cruzou os Alpes em cima de uma mula, levando consigo alguns pupilos, anotações, rascunhos e três pinturas.

Ele passou a morar no Clos Lucé, castelo fortificado que um outro rei, Carlos VIII, comprou em 1490 para transformar em uma agradável residência de verão dos monarcas franceses.

O solar tinha uma passagem subterrânea para o castelo de Amboise, a então residência real. Era o palácio onde Francisco passou a infância e onde Carlos morreu de forma estúpida, ao bater a cabeça no lintel de uma porta (lintel é a parte dura, horizontal e superior de portas e janelas).

Castelo de Amboise, antiga residência dos reis franceses (foto: iStock)

Nada mal para o velho artista. Salário fixo, casa suntuosa e vizinho de Francisco, que ainda o nomeou “primeiro pintor, engenheiro e arquiteto do rei”.

Leonardo trabalhou em diversos projetos para Francisco, que foi um dos grandes monarcas de seu tempo. Fez estudos para a drenagem dos pântanos de Solonha e para uma rede de lagos e canais conectando o Vale do Loire a Lyon, a fim de facilitar o acesso à Itália. Idealizou a cidade de Romorantin, novo distrito aristocrático que abrigaria a corte, e casas móveis para a nobreza itinerante. Criou também outros autômatos, na mesma linha do leão florista, para as espetaculares celebrações reais.

Foram anos mais de engenheiro do que de pintor. Mas Leonardo também teve tempo para receber visitas ilustres do reino, líderes da Igreja, embaixadores italianos e outros artistas. Trabalhava no térreo do edifício, e trabalhava demais. “A sopa está esfriando”, como deixou em uma de suas notas, preservadas até hoje.

Morte de Da Vinci

Fachada do Clos Lucé, que mantém um museu dedicado a Da Vinci (foto: Wikimedia Commons)

No dia 2 de maio de 1519, há 500 anos, Leonardo morreu, provavelmente de derrame. Ele estava no Clos Lucé, a casa onde viveu os últimos três de seus 67 anos de vida e que hoje abriga um museu dedicado a Da Vinci.

Francisco chorou com a cabeça do amigo entre as mãos, embora essa seja a versão enfeitada, famosa na pintura de Ingres. Mas, dada a relação dos dois, sabemos que ele sentiu a partida do gênio.  

Leonardo foi enterrado na igreja de São Florentim, no castelo de Amboise. Quase três séculos depois, com os tempos áureos do palácio já na poeira da história, a dinastia Valois dera lugar à Bourbon, que, por sua vez, caiu na Revolução. A igreja foi destruída, e os ossos do gênio se perderam.

Em 1863, a suposta ossada davinciana foi descoberta. Leonardo ganhou uma nova tumba, na capela de São Humberto, ali perto, nos jardins do castelo de Amboise.

Capela de São Humberto, onde fica a tumba de Leonardo da Vinci (foto: iStock)

Mas a legitimidade dos ossos sempre foi questionada. Em 2016, cientistas italianos anunciaram que traçaram uma linhagem ininterrupta de descendentes do irmão do artista. Nesta semana, eles vão analisar fios de cabelo atribuídos a Leonardo, que pertencem a uma coleção privada dos Estados Unidos, para tentar comprovar ou não a versão.

Com ou sem um crânio geneticamente confirmado, Amboise, cidade histórica na margem esquerda do Loire, celebra meio milênio da morte de seu imigrante mais famoso. Paris também. As três pinturas que Leonardo levou em sua mudança para a França acabaram ficando no país. Hoje, elas integram o acervo do Louvre: A Virgem e o Menino com Santa Ana, São João Batista (que talvez nem estivesse finalizada) e Mona Lisa.

“Integram o acervo” é pouco.

Mais informações: http://www.vinci-closluce.com/en

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No Sri Lanka, dividido pelo terrorismo, uma montanha une quatro religiões http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/04/28/no-sri-lanka-dividido-pelo-terrorismo-uma-montanha-une-quatro-religioes/ http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/2019/04/28/no-sri-lanka-dividido-pelo-terrorismo-uma-montanha-une-quatro-religioes/#respond Sun, 28 Apr 2019 12:00:45 +0000 http://terraavista.blogosfera.uol.com.br/?p=294

(foto: iStock)

6º48’N, 80º29’L
Sri Pada/Shiva Padam/Pico de Adão
Sabaragamuwa, Sri Lanka

“Essa elevação é especialmente notável como um refúgio de peregrinos de todas as partes do Oriente. O buraco na rocha elevada que coroa o pico é, para os budistas, uma marca de Buda; para os hindus, a pegada de Shiva; por alguns muçulmanos, de Adão; enquanto os cristãos portugueses estavam divididos entre as afirmações conflitantes de São Tomé ou do eunuco de Candace, rainha da Etiópia. A pegada é coberta por um belo gazebo e é protegida por sacerdotes de um rico mosteiro na metade do caminho, que mantém um santuário no cume.”

Poucos lugares do mundo poderiam ter uma montanha sagrada, ou no mínimo especial, para tantas fés diferentes. Sri Lanka é um deles, conforme a descrição acima, da Encyclopædia Britannica de 1910, deixa claro.

O nome desse belo monte cônico, na verdade, são vários. Mas fiquemos com Pico de Adão, mais simples e de mais fácil assimilação para nós, brasileiros em geral. Para os cingaleses, etnia nativa da ilha e que compõe a maior parte de sua população, a montanha se chama Sri Pada, nome que faz referência à pegada do Buda, em sinhala, a língua oficial do país. Segundo algumas crônicas do budismo teravada, o próprio Sidarta Gautama teria visitado o local.

(foto: iStock)

Já os hindus a chamam de Sivanolipatha Malai ou Shiva Padam (“o pé de Shiva”, em tâmil, outro idioma oficial), em homenagem a uma das principais divindades do hinduísmo, que deixou sua marca ali enquanto dançava. Para os muçulmanos, Adão, o primeiro dos homens, aquele mesmo, astro da Bíblia, deixou a pegada no alto da montanha.

Mas isso não é consenso entre as tradições cristãs locais. Aquele que foi expulso do Jardim do Éden pode batizar o monte, mas muitos o relacionam a São Tomé, o apóstolo que, de acordo com a tradição, ultrapassou as fronteiras romanas e levou a palavra de Jesus até o subcontinente indiano.

Por fim, “Candace” não é uma pessoa, mas um título genérico que o mundo greco-romano dava a rainhas africanas. O eunuco de Candace, um importante funcionário, é citado em Atos, um dos livros do Novo Testamento.

(foto: iStock)

Se em assuntos celestiais essa montanha de 2.243 m de altitude é abençoada, em assuntos terrenos ela também seduziu de monte, atraindo alguns dos maiores exploradores da história. No século 5, o monge budista chinês Faxien, que investigou textos religiosos no Sudeste Asiático e na Ásia Central, esteve na ilha (mas não se sabe se subiu o pico).

No século 13, o veneziano Marco Polo registrou que Sri Pada já era um monte popular entre peregrinos. Poucas décadas mais tarde, o aventureiro e estudioso marroquino Ibn Batutta, que viajou da Espanha às Filipinas, foi até o cume e notou as escadarias e correntes que auxiliavam os viajantes.

ESCADARIA PARA O PARAÍSO

(foto: iStock)

O Sri Lanka é um país complexo. Em uma área equivalente à do Amapá, o antigo Ceilão, que foi invadido por portugueses, holandeses e ingleses, tem uma população 69% budista, 13% hindu, 10% muçulmana e 8% cristã. Passou por uma longa guerra civil, que só terminou em 2009, entre tâmeis hindus e cingaleses budistas.

Hoje, o pujante crescimento econômico e a frágil estabilidade política são ameaçados por budistas radicais e, mais recentemente, terroristas islâmicos, que em pleno domingo de Páscoa executaram mais de 250 pessoas em igrejas e hotéis (o atentado teria sido uma retaliação ao ataque perpetrado por um terrorista cristão na Nova Zelândia, em março).

Triste coincidência: o atentado ocorreu justo em abril, mês que é o ápice da peregrinação ao Pico de Adão. Entre maio e dezembro chove demais ali, dificultando a subida dessa montanha que há séculos une quatro grandes religiões.

O que o terror separa, a tolerância junta de volta.

 

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