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"Herança" milenar de Pôncio Pilatos gera polêmica em Jerusalém

Felipe van Deursen

22/02/2020 04h00

Jerusalém (Crédito: Getty Images)

31º46'N, 35º14'L
Rua romana
Silwan, Jerusalém Oriental, Israel*

Se hoje Jerusalém é uma cidade em que as complicações políticas e as disputas territoriais muitas vezes se sobrepõem às belezas históricas e arquitetônicas, 2 mil anos atrás não era assim. O rei Herodes, o Grande foi o responsável por boa parte das obras que fariam de Jerusalém um centro de peregrinação e um belo destino turístico no extremo leste do Império Romano.

Mas um estudo recente indica que, além de Herodes, outro líder político, ao que parece, também contribuiu. O quinto governador da província da Judeia, Pôncio Pilatos.

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Esse sujeito não muito querido teria investido bastante no embelezamento de Jerusalém. Arqueólogos cavaram um túnel que revelou uma monumental escadaria que conduzia ao Monte do Templo, o local mais sagrado do judaísmo. Ao analisar mais de 100 moedas encontradas nas ruínas, os cientistas concluíram que eram do tempo em que Pilatos governou, décadas de 20 e 30 (d.C., é claro).

Ela tinha mais de 500 m de comprimento e quase 8 m de largura e consumiu cerca de 10 mil toneladas de laje de calcário. Uma bela obra de engenharia.

Pilatos foi um governante polêmico, que instilou a raiva dos judeus ao ignorar o tabu do culto a ídolos e ao roubar tesouros do Templo para financiar um novo aqueduto. Além de, é claro, ter exercido papel central na crucificação de Jesus, segundo os Evangelhos (no entanto, a imagem de Pilatos variou bastante ao longo dos séculos e dependendo do ramo do cristianismo).

Para Nahshon Szanton, arqueólogo da Universidade de Tel Aviv e principal autor do estudo, Pilatos teria encomendado a escadaria para apaziguar os ânimos da população. Ainda assim, uma arqueóloga americana ouvida pela National Geographic questiona o papel do governador na história. Para ela, o material encontrado (as moedas) poderia tranquilamente ter vindo de outro lugar em carrinhos de mão, por exemplo. 

Caso o projeto tenha sido mesmo de Pilatos, não se sabe se deu certo para esfriar a cabeça das pessoas. Também não serviu para mantê-lo no poder. A província romana da Judeia incluía a antiga Judeia hebraica e ainda regiões vizinhas, como Samaria. Ao suprimir violentamente um movimento de samaritanos, rivais antigos da Judeia, Pilatos foi enviado de volta a Roma, por volta de 36. Pouco se sabe de sua vida depois disso. 

Em 66, após uma de tantas pequenas ondas de violência e desobediência que aconteciam na província, o então governador (o cargo agora era "procurador". Pilatos era prefeito. Mas para facilitar chamemos todos de "governador"), Géssio Floro confiscou os tesouros do Templo.

Para os judeus, isso configurava nada menos que uma blasfêmia. A balbúrdia descambou para uma revolta popular.

O general Vespasiano assumiu a reação romana. No meio do processo, o imperador, Nero, se matou, Roma atravessou um período atribulado até que o próprio Vespasiano foi coroado em 69 e seu filho, Tito, precisou lidar com a Judeia.

No ano seguinte, a escadaria de Pilatos foi enterrada sob os escombros da revolta, que entrou para a história como a Primeira Guerra Judaico-Romana. Os soldados imperiais cercaram Jerusalém e trucidaram seus habitantes, que morriam esmagados por pedras de mais de 25 kg ou queimados por artefatos incendiários. Quem não morria lutando e tentava fugir podia ser crucificado. Quem permanecia na cidade morria de fome.

Nada sobrou do Templo erguido por Herodes. Só uma parede, que Tito, quando virou imperador, em 79, ordenou que fosse deixada daquele jeito. Hoje, ela é conhecida como Muro das Lamentações.

Muro das Lamentações (Crédito: Getty Images)

A escadaria, por si só, é um baita chamariz.

Mas o projeto também tem atraído olhares do mundo, porém de uma forma não muito positiva. 

Ele foi financiado em boa parte pela organização judaica Fundação Cidade de Davi. Arqueólogos criticaram o método escolhido, um túnel cavado, como uma obra de metrô, pois ele descontextualiza a descoberta de seu entorno. Para os responsáveis, esse era o método viável, já que não daria para cavar a partir da superfície, uma região superpovoada.

Aí está outro problema. A escavação fica abaixo de um bairro palestino em Jerusalém Oriental. Os moradores da região têm reclamado de danos causados pelo túnel a suas casas e estabelecimentos comerciais. A Autoridade Palestina declarou que a obra faz parte do grande plano de "judaizar" Jerusalém Oriental, área reivindicada pelo Estado da Palestina (o que é reconhecido pela maioria dos países do mundo).

A escadaria não fica apenas sob lares palestinos, mas muito próxima de locais sagrados também do islamismo. É no Monte do Templo que fica o lindo Domo da Rocha, aquela famosa mesquita de cúpula dourada. Para a fé muçulmana, foi de lá que Maomé ascendeu ao paraíso.

Domo da Rocha (Crédito: Getty Images)

Mais uma questão delicada para essa cidade milenar e sagrada para judeus, muçulmanos e cristãos. Debaixo da superfície ou acima dela, Jerusalém exige um esforço diplomático que poucos homens e mulheres têm.

Pôncio Pilatos não era um deles.

* As Nações Unidas consideram Jerusalém Oriental e a Cidade Velha como parte do território palestino ocupada ilegalmente por Israel

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.