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Kiribati, o país que driblou o fuso horário para ser o primeiro a celebrar

Felipe van Deursen

29/12/2018 09h00

(crédito: Angela K. Kepler)

9º90'S, 150º20'O
Ilha Caroline
Ilhas da Linha, Kiribati

Na segunda metade dos anos 90, a expectativa para a chegada do ano 2000 era imensa. No Brasil e no resto do mundo, a grande preocupação era o bug do milênio, uma possível falha gerada nos sistemas de informação quando o calendário passasse de 99 para 00. Ela não deu em nada. Foi um fiasco maior até que a volta dos Flintstones em Viva Rock Vegas, filme não tão saudoso daquele ano.

Mas em algumas nações do Pacífico a grande questão era outra. Havia países inteiros querendo uma boquinha no turismo movimentado pelo "novo milênio". Quem seria o primeiro a receber a luz solar do ano novo? A resposta estava na Linha Internacional da Data, a cicatriz fictícia que a humanidade deixou ao riscar os fusos horários no globo.

Os 360º da esfera terrestre foram divididos pelas 24 horas dia. Portanto, em tese, a cada 15º de longitude que se percorre na Terra, acrescentamos ou subtraímos uma hora do relógio. "Em tese" porque muitas vezes essas linhas não são retas e desrespeitam a regra dos 15º. Por questões econômicas e políticas, elas acompanham fronteiras e ignoram a longitude. Na prática, as linhas dos fusos se parecem mais o caminhar daqueles seus amigos no Réveillon que acabaram de pular sete ondinhas e tentam se equilibrar entre uma garrafa de espumante vazia e outra quente.

(crédito: Hellerick)

É aí que entra a Linha da Data. Ela existe para delimitar o começo e o fim de um dia. Já que a Terra é redonda (foi mal, terraplanistas), esse marco é necessário para que o mundo todo siga os mesmos horários. Caso contrário, você poderia dar a volta no planeta e, ao mesmo tempo, viajar no tempo. Bastaria viajar indefinidamente para o oeste para reencontrar seus antepassados. Algo tosco e surreal.

Só que nas regiões próximas à Linha da Data isso tem um impacto real. Por isso mesmo ela fica no meio do Pacífico, desviando das ilhas mais remotas do planeta, para não cruzar nenhum centro urbano minimamente grande.

Ainda assim, alguns países driblaram a norma. Em 2011, Samoa, país que antigamente era conhecido como Samoa Ocidental, arrancou um dia inteiro de seu calendário. O país de 200 mil habitantes e 2,7 mil km² saltou de 29 de dezembro para 31 de dezembro. Ele era um dos últimos lugares onde o dia começava (quando eram 8h em Ápia, a capital samoana, já eram 6h do dia seguinte em Sydney). Ao pular o dia 30, Samoa subiu pelas tabelas e migrou para o lado de lá da Linha da Data. Desde aquele 31 de dezembro, quando são 8h em Ápia, são 5h em Sydney. Do mesmo dia. Isso faz todo sentido para o país quando Austrália, Nova Zelândia, Japão e China estão entre seus maiores parceiros comerciais.

Pode fazer isso? Pode. Da mesma forma que o Brasil definiu que o noroeste do Pará e o leste de Pernambuco teriam o mesmo fuso, um país tem soberania para se deslocar de uma linha para outra (dentro dos limites do bom senso).

Não importam os motivos. Se Samoa o fez para se aproximar dos horários de trabalho dos seus parceiros, nos anos 90 houve uma corrida, um tanto fútil, para definir que país seria o primeiro a chegar no novo milênio (o que tecnicamente só aconteceria em 2001, mas ninguém ligava). Em 1999, um artigo na Honolulu Magazine, revista publicada no Havaí há respeitadíssimos 130 anos, dizia que Tonga, Fiji e Kiribati, além das ilhas Chatham, que pertencem à Nova Zelândia, estavam na refrega.

Para a National Geographic Society, o arquipélago neozelandês é o primeiro território habitado a ver o novo dia. Já o governo de Tonga cogitou implementar o horário de verão para chegar na frente e ser o primeiro país no ano 2000. Os tonganeses que me desculpem, mas que ideia tonga (no fim, o pequenino reino insular abriu mão do plano). Fiji, por sua vez, tem um argumento mais geograficamente plausível, pois o meridiano 180, designado como base para a Linha Internacional da Data em 1884, cruza três de suas ilhas.

Por fim havia Kiribati (dica para não fazer feio com os locais: pronuncia-se "kiribas"). O país tinha um problema a resolver. Trata-se de um arquipélago formado por 33 ilhas de coral e vários atóis, com uma área total pouco menor que a mancha urbana de Brasília, mas que ao mesmo tempo se espalha por 5 milhões de km² (bem maior que a Índia). Dois grupos principais de ilhas ficavam distantes 23 horas no relógio. Se você tem parentes em estados que não seguem o horário de verão (e vice-versa) e já se complica no relógio na hora de ligar para desejar Boas Festas, imagine 23 horas de diferença.

Então, em 1995, a fim de facilitar burocracias do dia a dia, relações comerciais e o trabalho do governo, Kiribati deu um laço na Linha da Data e puxou o seu pedaço de terra mais a leste, a Ilha Caroline, para o mesmo lado. "Eu estava pensando em unificar o país, não pensava no milênio. Depois percebi que, acidentalmente, tive uma boa ideia", declarou, à época, o então presidente Teburoro Tito.

(crédito: domínio público)

Kiribati deixou os concorrentes para trás e usou o feito para tentar chamar atenção para o país, tão pouco conhecido. A Ilha Caroline, que fica no arquipélago conhecido como Ilhas da Linha, ganhou uma hansdonnerização e passou a se chamar Ilha do Milênio. É o pontinho vermelho do mapa. Repare no olé que a Linha da Data precisa dar.

O país pode ter conseguido atrair alguma atenção, mas não houve muito impacto no turismo local. Quase 20 anos depois, Kiribati segue como um dos destinos menos visitados do mundo. É tão pouca gente que, quando um repórter do The New York Times telefonou para fazer uma reserva de hotel, o recepcionista não anotou seu nome. "Não preciso. Se houver um americano no hotel, eu vou reconhecê-lo", explicou. E a Ilha Caroline/do Milênio nem habitada é. Ainda assim, caso você seja daqueles viajantes excêntricos, dá para passar a virada de ano duas vezes sem precisar apelar para aquela história de cruzar a fronteira com o Paraguai ou ir do Sudeste para o Centro-Oeste para ganhar uma horinha. É só ir para Kiritimati, atol que também integra as Ilhas da Linha e que tem aeroporto.

Nos últimos anos, Kiribati voltou ao noticiário por um motivo bem mais sério e bizarramente negado por alguns governantes. O isolado país pode ser o primeiro a desaparecer da superfície terrestre por causa do aquecimento global.

Então, feliz ano novo para quem está a leste e a oeste da Linha da Data. E que a elevação do nível do mar, por favor, não nos afogue.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.