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Pouco vento, muita luz, solo seco: lugar mais quente do mundo chega a 70°C

Felipe van Deursen

01/02/2019 12h30

Alô, Marte? (foto: iStock)

30º48'N, 58º48'L
Deserto de Lut
Kerman, Irã

Desconfie de listas que apontam os locais mais quentes do mundo. Quando muito, elas dão apenas os recordes registrados de temperatura, o que não é a mesma coisa. Tal feito pertence ao Vale da Morte, nos Estados Unidos, que marcou apavorantes 56,7 ºC no verão de 1913*. Em 1922*, Azizia, na Líbia, tascou 58ºC e tomou o título nem um pouco convidativo de lugar mais infernal do mundo. Só 90 anos depois a Organização Meteorológica Mundial (OMM) comprovou erros na medição líbia, devolvendo o desidratado e nauseabundo troféu ao vale californiano.

Mas esses dados guardam pegadinhas. O ecólogo David Mildrexler, da Universidade de Montana (EUA), escreveu que a OMM tem 11.119 estações para cobrir os 144,68 milhões de km2 de terra do planeta. Tudo bem, hoje a OMM diz que são um pouco mais, cerca de 11,5 mil estações, mas ainda temos uma delas para 12,5 mil km2 . É muito terreno para pouco termômetro.

E ainda tem a concentração demográfica. É mais importante saber as diferentes temperaturas entre o centro de uma metrópole escaldante e com excesso de asfalto e os seus refrescantes bolsões verdes do que saber quantos graus está fazendo lá no meio do nada. Então esses medidores não cobrem, com a frequência necessária, os pontos mais quentes, desérticos e inacessíveis do globo.

(Peço desculpa se imaginar esses lugares está lhe causando mais calor. A mim também está.)

Formações rochosas do Lut (foto: iStock)

Em 1999, a Nasa buscou resolver o imbróglio ao lançar no espaço o Modis, equipamento que iria medir as temperaturas da superfície terrestre, entre outras funções. Ao longo da década passada, o Modis detectou radiação térmica e quantidade de energia infravermelha emitida. Com tais dados, ele media algo diferente da temperatura do ar. E mais quente: a temperatura da superfície. Sim, tem diferença. Em lugares muito quentes, essa é a versão científica daquela piada que os muito altos ouvem na escola ("tá frio aí em cima?") ou aquilo que sentimos ao caminhar descalços na areia fofa ao meio-dia. A temperatura nos pés é mais alta do que ao redor da cabeça.

O Modis concluiu que os locais mais quentes da Terra são aqueles com predominância de céu limpo, pouco vento e um solo seco, que absorve muita luz e reflete pouca. Então, os lugares mais esturricados do planeta podem mudar, mas as condições deles não. E os desertos rochosos atendem todos os requisitos. 

Não deu nem para o Vale da Morte nem para Azizia. Queensland, na Austrália, e as autoexplicativas Montanhas Flamejantes, na China, apareceram com muito destaque nas medições do Modis. Mas o local que bateu ponto com mais frequência no topo desse ranking da sudorese foi o Deserto Lut, no Irã. Em 2005, ele chegou a absurdos, apavorantes, ridículos 70,7 ºC. Em outros quatro anos também foi o ponto mais quente da Terra.

O deserto iraniano é patrimônio da humanidade (Foto: iStock)

"Lut", em persa, signfica "terra pelada, sem água nem vegetação". Ele é árido, extremo, porém dono de um visual espetacular, com planícies de sal, dunas de até 300 m de altura e formações geológicas únicas,  moldadas pelo vento em "escala colossal", de acordo com a descrição da Unesco, que a declarou patrimônio natural da humanidade em 2016. Marco Polo passou por ali, mas só nos anos 1930 o centro do deserto foi explorado.

Gandom Beryam ("trigo torrado"), um grande planalto coberto de lava escura, é o ponto mais quente de Lut. De acordo com uma lenda local, a origem do nome seria um acidente com uma caravana. Os viajantes precisaram abandonar uma carga de trigo, que foi encontrada por outra caravana dias depois. Torrada pelo Sol.

Algumas cidades brasileiras passaram dos 50ºC de sensação térmica em janeiro. Calor demais em Tupã, Niterói, Silva Jardim, Corupá, Blumenau, Joinville, Antônio Carlos, Criciúma… Mas a resistência de cada um é diferente, por questões biológicas, culturais e geográficas. Por isso mesmo, aqueles que insistem em comentários como "isso não é calor, você precisa ver Forno Alegre", "Frio mesmo é Curitiba", "Paulistano com calor é engraçado, quero ver no Centro do Rio", "Carioca vê termômetro a 20ºC e já mete o cachecol" já viraram piada na internet.

É papo chato. Melhor comprar uma passagem para o Lut e ver o que é "calor de verdade".

 

* Não caia na tentação de achar que o aquecimento global não é uma realidade só porque nos anos 1910 e 1920 os termômetros bateram recordes de temperatura. O que importa é o aumento gradativo da média de temperatura, que este vídeo mostra direitinho.

 

 

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.