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Notre-Dame já era importante bem antes de ficar pronta

Felipe van Deursen

16/04/2019 12h55

(foto: iStock)

48º51'N, 2º20'L
Catedral Notre-Dame de Paris
Île de la Cité, Paris, França

Com toda a pompa que a ocasião pedia, o altar-mor da Catedral de Notre-Dame de Paris foi consagrado em 1182. Henri de Château-Marçay, enviado pelo próprio papa, era auxiliado pelo bispo Maurice de Sully, o homem que, mais de 20 anos antes, decidiu demolir a antiga igreja Saint-Étienne para erguer uma nova catedral. Marçay misturou a água benta e consagrou as sete cruzes sobre o altar. Em seguida, lavaram e esfregaram os degraus com óleo das catacumbas. Benzeram o incenso, lavaram e esfregaram mais um pouco, depositaram incenso nos cantos e no centro e aspergiram água benta. Feito isso, o templo estaria pronto para sua primeira missa.

Três anos depois, o bispo Sully teve mais uma demonstração de prestígio para seu ambicioso projeto. O patriarca Heráclio de Jerusalém, em turnê pela Europa, consagrou o novo coro da catedral. Heráclio, porém, vinha com uma missão própria. Era preciso que os grandes líderes do Ocidente cristão voltassem novamente seus olhos para o Reino de Jerusalém. A cidade sagrada, conquistada em 1099, na Primeira Cruzada, em um dos massacres mais asquerosos da história, voltava a ser ameaçada pelos sarracenos (termo medieval genérico para se referir aos muçulmanos).

O poder europeu no Oriente Médio enfraquecera na Segunda Cruzada (1147-49), e agora Heráclio temia uma reconquista islâmica. Mas não conseguiu nada do rei Filipe II além de respostas evasivas. Heráclio seguiu para a Inglaterra, onde também não convenceu o monarca Henrique II.

Dois anos depois, Saladino tomou Jerusalém, provocando a Terceira Cruzada. Filipe II enfim resolveu agir, mas não sem antes se unir a um inglês de nome Ricardo para derrubar o velho e enfraquecido Henrique II. Filipe e Ricardo, agora rei da Inglaterra,  juntariam forças para enfrentar Saladino e recobrar a cidade sagrada. Não conseguiram, embora tenham melhorado a situação dos cristãos no Levante. Ao longo da guerra, Saladino e Ricardo, que passaria a ser conhecido como o Coração de Leão, moldaram uma das mais fascinantes rivalidades de que se tem notícia.

Enquanto Filipe estava participando da Cruzada, sua esposa, Isabel de Hainaut, morreu ao dar à luz gêmeos natimortos, em março de 1190. Faltavam poucos dias para ela completar 20 anos. Filipe ordenou um funeral grandioso para a rainha na catedral.

Notre-Dame ontem entristeceu a todos, por todos os ângulos de redes sociais e de canais de notícias, ao arder em chamas em um incêndio que destruiu o pináculo e boa parte do telhado. Muito se falou sobre seus mais de 800 anos de existência, mas ela é ainda mais antiga. Era comum em igrejas importantes que o altar ficasse pronto primeiro, assim as missas poderiam acontecer, mesmo que as obras ainda demorassem muitos anos.

(foto: iStock)

Heráclio não conclamou a Terceira Cruzada ali, segundo alguns sites, livros e guia de turismo, porque Saladino ainda não havia chegado em Jerusalém. Mas ele alertou para a ameaça, que de fato se concretizou pouco depois.

E tal discurso não ocorreu em uma catedral acabada. Era muito mais um canteiro de obras. O escritor Lorànt Deutsch, em parceria com o historiador Emmanuel Haymann, assim escreveu no best-seller Próxima Estação, Paris:  "É uma extensão de pedras talhadas, cordas, roldanas, escadas, vigas de madeira, e, lá em cima, se ergue o que é ainda uma meia catedral: o coro do edifício, já esplêndido e impressionante. Quatro níveis se elevam em direção às abóbadas, cujas nervuras descem das alturas e se prolongam sobre pilastras arredondadas; à volta, um duplo deambulatório se abre para pequenas capelas.

"Talhadores de pedras, carpinteiros, telheiros, ferreiros, pedreiros, charreteiros trabalham sob a ordem de um mestre que, sobre grandes pergaminhos, traça projetos e esboça a mais vasta igreja que ele pode imaginar."

Notre-Dame só ficaria pronta mais de 70 anos depois da passagem de Heráclio e do funeral de Isabel. Pronta, mas não completa, o que ocorreria só em 1345.

Bem antes de ser cartão postal e ponto turístico popularíssimo, era um dos mais importantes templos do catolicismo. Décadas antes de ter a primeira versão de um telhado pronto, já estava no centro da geopolítica, nos eventos cujos ecos reverberariam de volta à França até em 2015, nos hediondos atentados do Estado Islâmico. 

Aguentou predadas de huguenotes fanáticos. Resistiu aos ataques da Revolução Francesa. Escapou de ser incendiada graças a Dietrich von Choltitz, general nazista que ignorou as ordens tresloucadas de um Hitler em iminente derrota. Suportou, não sem avarias, a poluição atmosférica parisiense.

Sobreviverá a 2019.

(foto: iStock)

Mais informações: Notre-Dame: A History, de Richard Winston  

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.