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No Sri Lanka, dividido pelo terrorismo, uma montanha une quatro religiões

Felipe van Deursen

28/04/2019 09h00

(foto: iStock)

6º48'N, 80º29'L
Sri Pada/Shiva Padam/Pico de Adão
Sabaragamuwa, Sri Lanka

"Essa elevação é especialmente notável como um refúgio de peregrinos de todas as partes do Oriente. O buraco na rocha elevada que coroa o pico é, para os budistas, uma marca de Buda; para os hindus, a pegada de Shiva; por alguns muçulmanos, de Adão; enquanto os cristãos portugueses estavam divididos entre as afirmações conflitantes de São Tomé ou do eunuco de Candace, rainha da Etiópia. A pegada é coberta por um belo gazebo e é protegida por sacerdotes de um rico mosteiro na metade do caminho, que mantém um santuário no cume."

Poucos lugares do mundo poderiam ter uma montanha sagrada, ou no mínimo especial, para tantas fés diferentes. Sri Lanka é um deles, conforme a descrição acima, da Encyclopædia Britannica de 1910, deixa claro.

O nome desse belo monte cônico, na verdade, são vários. Mas fiquemos com Pico de Adão, mais simples e de mais fácil assimilação para nós, brasileiros em geral. Para os cingaleses, etnia nativa da ilha e que compõe a maior parte de sua população, a montanha se chama Sri Pada, nome que faz referência à pegada do Buda, em sinhala, a língua oficial do país. Segundo algumas crônicas do budismo teravada, o próprio Sidarta Gautama teria visitado o local.

(foto: iStock)

Já os hindus a chamam de Sivanolipatha Malai ou Shiva Padam ("o pé de Shiva", em tâmil, outro idioma oficial), em homenagem a uma das principais divindades do hinduísmo, que deixou sua marca ali enquanto dançava. Para os muçulmanos, Adão, o primeiro dos homens, aquele mesmo, astro da Bíblia, deixou a pegada no alto da montanha.

Mas isso não é consenso entre as tradições cristãs locais. Aquele que foi expulso do Jardim do Éden pode batizar o monte, mas muitos o relacionam a São Tomé, o apóstolo que, de acordo com a tradição, ultrapassou as fronteiras romanas e levou a palavra de Jesus até o subcontinente indiano.

Por fim, "Candace" não é uma pessoa, mas um título genérico que o mundo greco-romano dava a rainhas africanas. O eunuco de Candace, um importante funcionário, é citado em Atos, um dos livros do Novo Testamento.

(foto: iStock)

Se em assuntos celestiais essa montanha de 2.243 m de altitude é abençoada, em assuntos terrenos ela também seduziu de monte, atraindo alguns dos maiores exploradores da história. No século 5, o monge budista chinês Faxien, que investigou textos religiosos no Sudeste Asiático e na Ásia Central, esteve na ilha (mas não se sabe se subiu o pico).

No século 13, o veneziano Marco Polo registrou que Sri Pada já era um monte popular entre peregrinos. Poucas décadas mais tarde, o aventureiro e estudioso marroquino Ibn Batutta, que viajou da Espanha às Filipinas, foi até o cume e notou as escadarias e correntes que auxiliavam os viajantes.

ESCADARIA PARA O PARAÍSO

(foto: iStock)

O Sri Lanka é um país complexo. Em uma área equivalente à do Amapá, o antigo Ceilão, que foi invadido por portugueses, holandeses e ingleses, tem uma população 69% budista, 13% hindu, 10% muçulmana e 8% cristã. Passou por uma longa guerra civil, que só terminou em 2009, entre tâmeis hindus e cingaleses budistas.

Hoje, o pujante crescimento econômico e a frágil estabilidade política são ameaçados por budistas radicais e, mais recentemente, terroristas islâmicos, que em pleno domingo de Páscoa executaram mais de 250 pessoas em igrejas e hotéis (o atentado teria sido uma retaliação ao ataque perpetrado por um terrorista cristão na Nova Zelândia, em março).

Triste coincidência: o atentado ocorreu justo em abril, mês que é o ápice da peregrinação ao Pico de Adão. Entre maio e dezembro chove demais ali, dificultando a subida dessa montanha que há séculos une quatro grandes religiões.

O que o terror separa, a tolerância junta de volta.

 

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.