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Há 500 anos, Leonardo da Vinci morreu em castelo que hoje abriga museu

Felipe van Deursen

02/05/2019 05h00

Clos Lucé, onde Leonardo da Vinci viveu seus últimos anos (foto: Wikimedia Commons)

47º24'N, 0º59'L
Castelo de Clos Lucé
Amboise, Centro-Vale do Loire, França

Cena clássica de RH. Temos aqui um profissional bastante respeitado, respeitadíssimo, aliás. Atua em diversas áreas, multitasking bem antes de ser modinha. Mas, apesar de bem relacionado, está velho, sem muitas perspectivas nem empolgações. Aposentadoria? Com ou sem regime de capitalização, não rolava muito.

O maior desafio desse medalhão, velha-guarda da firma, era encarar a juventude, tão boa em algumas áreas, talvez melhor que ele em outras, mas sem tantas abas do conhecimento abertas no navegador. Ainda assim, pessoas já reconhecidas, promovidas e premiadas.

Assim estava a empresa italiana Rinascimento S.A. em 1515. Leonardo tinha 63 anos. Michelangelo, 40. Rafael, 32. Os três viviam em Roma, o único lugar do mundo que podia comportar tantos gênios e egos.

Poderíamos esperar um Mestre Splinter chegar e fazer os talentos dessa firma fictícia trabalharem juntos, mas não é assim que funciona. Não foi assim que aconteceu.

Em outubro daquele ano, o rei francês Francisco I anexou a cidade de Milão. Dois meses depois, ele se encontrou com o papa Leão X em Bolonha, em uma ocasião em que Leonardo estava presente. O rei era admirador da obra do artista, então Leonardo recebeu uma encomenda: criou para Francisco um leão mecânico que andava para a frente, abria o peito e revelava um buquê de lírios. Alta tecnologia, coisa linda.

Pouco depois, em 1516, Leonardo já trabalhava oficialmente para o monarca francês. Aceitou o convite e cruzou os Alpes em cima de uma mula, levando consigo alguns pupilos, anotações, rascunhos e três pinturas.

Ele passou a morar no Clos Lucé, castelo fortificado que um outro rei, Carlos VIII, comprou em 1490 para transformar em uma agradável residência de verão dos monarcas franceses.

O solar tinha uma passagem subterrânea para o castelo de Amboise, a então residência real. Era o palácio onde Francisco passou a infância e onde Carlos morreu de forma estúpida, ao bater a cabeça no lintel de uma porta (lintel é a parte dura, horizontal e superior de portas e janelas).

Castelo de Amboise, antiga residência dos reis franceses (foto: iStock)

Nada mal para o velho artista. Salário fixo, casa suntuosa e vizinho de Francisco, que ainda o nomeou "primeiro pintor, engenheiro e arquiteto do rei".

Leonardo trabalhou em diversos projetos para Francisco, que foi um dos grandes monarcas de seu tempo. Fez estudos para a drenagem dos pântanos de Solonha e para uma rede de lagos e canais conectando o Vale do Loire a Lyon, a fim de facilitar o acesso à Itália. Idealizou a cidade de Romorantin, novo distrito aristocrático que abrigaria a corte, e casas móveis para a nobreza itinerante. Criou também outros autômatos, na mesma linha do leão florista, para as espetaculares celebrações reais.

Foram anos mais de engenheiro do que de pintor. Mas Leonardo também teve tempo para receber visitas ilustres do reino, líderes da Igreja, embaixadores italianos e outros artistas. Trabalhava no térreo do edifício, e trabalhava demais. "A sopa está esfriando", como deixou em uma de suas notas, preservadas até hoje.

Morte de Da Vinci

Fachada do Clos Lucé, que mantém um museu dedicado a Da Vinci (foto: Wikimedia Commons)

No dia 2 de maio de 1519, há 500 anos, Leonardo morreu, provavelmente de derrame. Ele estava no Clos Lucé, a casa onde viveu os últimos três de seus 67 anos de vida e que hoje abriga um museu dedicado a Da Vinci.

Francisco chorou com a cabeça do amigo entre as mãos, embora essa seja a versão enfeitada, famosa na pintura de Ingres. Mas, dada a relação dos dois, sabemos que ele sentiu a partida do gênio.  

Leonardo foi enterrado na igreja de São Florentim, no castelo de Amboise. Quase três séculos depois, com os tempos áureos do palácio já na poeira da história, a dinastia Valois dera lugar à Bourbon, que, por sua vez, caiu na Revolução. A igreja foi destruída, e os ossos do gênio se perderam.

Em 1863, a suposta ossada davinciana foi descoberta. Leonardo ganhou uma nova tumba, na capela de São Humberto, ali perto, nos jardins do castelo de Amboise.

Capela de São Humberto, onde fica a tumba de Leonardo da Vinci (foto: iStock)

Mas a legitimidade dos ossos sempre foi questionada. Em 2016, cientistas italianos anunciaram que traçaram uma linhagem ininterrupta de descendentes do irmão do artista. Nesta semana, eles vão analisar fios de cabelo atribuídos a Leonardo, que pertencem a uma coleção privada dos Estados Unidos, para tentar comprovar ou não a versão.

Com ou sem um crânio geneticamente confirmado, Amboise, cidade histórica na margem esquerda do Loire, celebra meio milênio da morte de seu imigrante mais famoso. Paris também. As três pinturas que Leonardo levou em sua mudança para a França acabaram ficando no país. Hoje, elas integram o acervo do Louvre: A Virgem e o Menino com Santa Ana, São João Batista (que talvez nem estivesse finalizada) e Mona Lisa.

"Integram o acervo" é pouco.

Mais informações: http://www.vinci-closluce.com/en

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.