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O mistério dos parques abandonados no meio da Disney

Felipe van Deursen

16/06/2019 05h00

Nos primórdios de Walt Disney World, havia um parque em uma ilha (foto: divulgação)

28º24'N, 81º33'O
Discovery Island
Bay Lake, Flórida, Estados Unidos

A trívia do Mickey pergunta: quantos parques integram o Walt Disney World, na Flórida? A resposta apontada como correta diz que são seis: quatro temáticos (Magic Kingdom, Epcot, Hollywood Studios e Animal Kingdom) e dois aquáticos (Blizzard Beach e Typhoon Lagoon).

Só que ainda há outros dois parques largados lá no meio, abandonados à natureza e lacrados para o público. Um é o River Country, o primeiro parque aquático do conglomerado, fechado em 2001 e engolido pelo pântano. O outro é Discovery Island, que funcionou por mais de 20 anos em uma ilhota no Bay Lake, lago que dá nome ao município onde fica a maior parte do complexo.

Inaugurado em 1974 como Treasure Island, o parque funcionava como um zoológico que exibia lêmures, jacarés, tartarugas-das-galápagos, macacos-pregos e uma série de aves, como flamingos, pelicanos, águias e até os últimos indivíduos de uma subespécie de andorinha, declarada extinta em 1990. Com praia e outras atividades de espírito aventureiro, Discovery Island fez sucesso nos anos 70 e 80.

Mapa da Discovery Island quando ainda se chamava Treasure Island

Na década seguinte, a Disney entrou em uma nova fase. Com a inauguração do Animal Kingdom, em 1998, muitos animais foram transferidos para esse novo parque, muito maior, mais moderno e seguro. Outros tiveram refúgio em zoológicos espalhados pelo país. No ano seguinte, Discovery Island fechou as portas, sem maiores explicações. Em 2001, foi a vez do River Country, também ultrapassado pelos novos parques aquáticos da empresa.

Acontece que, como os parques nunca foram completamente desmontados e a Disney sempre evitou falar muito a respeito, uma previsível e irresistível nuvem de mistério pairou sobre os lugares. Não é todo dia que fãs da Casa do Mickey e caçadores de lugares abandonados se encontram nos mesmos fóruns online, esses férteis criadouros de teorias conspiratórias. Afinal, por que a Disney os fechou e por que não construiu nada no terreno onde essas atrações funcionavam?

O acesso às ruínas é proibido e a empresa desencoraja a aventura. Mas, como Bay Lake margeia dois resorts e um camping e fica próximo ao Magic Kingdom, o mistério do lago pode ser tentador para quem passa ali perto.

Recentemente, eu cheguei à entrada de ambos os parques em um passeio guiado pelo lago. O piloto do barco contou a história deles e reforçou que a entrada não é permitida. Sem nenhum rodeio, sem ares de mistério nem narrativas fantasiosas, justamente para não alimentar especulações.

Ao se aproximar, você não vê muito mais que isso (foto: Wikimedia Commons)

Era uma vez um parque, que fechou. Ele ficava aí. Fim.

Uma anti-história da Disney, praticamente. Nada de piratas, exploradores, heróis. Como se, uma vez mortos, os parques tivessem se tornado uma terra infértil de magia, dois enclaves de não-fantasia em um mundo especialista em vender fantasia.

Alguns fotógrafos conseguiram furar o bloqueio, divulgando imagens de tobogãs apodrecidos, casinhas dominadas por plantas trepadeiras, musgo e folhas mortas onde antes havia cores, diversão e cuidado minimalista com detalhes. Discovery Island virou um mito, e seus últimos dias são lembrados com carinho por quem esteve lá.

O fato de os restos dos dois parques continuarem na área vai sempre excitar fãs de lugares abandonados e adoradores do lado obscuro de grandes corporações, especialmente as que mexem com memórias afetuosas de infância, como a Disney. Normal, mas um tanto irônico nesses tempos.

Pegue Chernobyl, por exemplo. Para alguns críticos, foi reduzido a um grande parque de diversões de caçadores de ruínas contemporâneas, com tours sensacionalistas que deturpam a história e atraem cada vez mais influenciadores digitais especializados, apenas, em selfies constrangedoras.

Enquanto isso, a Disney, a Meca e a Roma do turismo de entretenimento, mantém as suas próprias "zonas de exclusão", bem menos acessíveis do que a antiga usina ucraniana. Mas, ao mesmo tempo, próximas como um pacote de férias em 10 vezes sem juros.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.