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A vila espanhola onde diabos de máscara pulam sobre bebês no Corpus Christi

Felipe van Deursen

2020-06-20T19:05:00

20/06/2019 05h00

Ruína medieval arco de San Miguel de Mazarreros, em Olmillos de Sasamon. Que tal passar o feriadão em um lugar de 1000 habitantes? (foto: iStock)

 

42º21'N, 4º03'O
Castrillo de Murcia
Sasamón, Castela e Leão, Espanha

Corpus Christi é talvez o feriado católico mais difícil de se explicar. Não é sobre o menino Jesus. Não é exatamente sobre sua morte (embora celebre a ressurreição). Não envolve Maria nem nenhum santo. Trata-se de uma festa sobre a transubstanciação, ou seja, a presença real de Cristo na eucaristia, algo central na fé católica.

Localizá-lo no calendário também não é fácil. É a quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece uma semana depois do domingo de Pentecostes. Pentecostes, por sua vez, é celebrado 50 dias depois da Páscoa, a grande data que define as outras festas móveis do catolicismo. A Páscoa ocorre no primeiro domingo após a primeira Lua Cheia do outono (no Hemisfério Sul). A partir daí você sabe quando será o Carnaval, Corpus Christi etc.

Pois é, uma complicação. Mas, para os desapegados de simbolismos religiosos, seguidores de outras fés e cidadãos pragmáticos em geral, a explicação que basta está no começo: "É a quinta-feira". Logo, feriadão. Pelo menos para os mais afortunados.

Junte um fim de semana prolongado, os belos dias de outono-quase-inverno e as ruas enfeitadas de cascalho, flores, serragem, borra de café, farinha, areia e tantos outros materiais, tradição que herdamos dos portugueses, e temos um dos feriados mais bonitos do ano. Cidades paulistas, mineiras, goianas, capixabas, fluminenses colorem as ruas em procissão.

E não só no Brasil. A festa de Corpus Christi, que surgiu na Bélgica, no século 13, ganha características locais e atrai turistas no Panamá, Peru, Espanha, Portugal, Itália e outros países de maioria católica.

Igreja de Santa Maria la Real, em Sasamón, município ao qual Castrillo de Murcia pertence (foto: iStock)

CORPUS CHRISTI DIFERENTE

Antigamente, só bebês locais participavam. Mas, com a popularização da festa, gente de outras cidades traz seus filhos para o Colacho (foto: Wikimedia Commons)

Algumas dessas tradições fogem totalmente do padrão. É o caso do Colacho, em Castrillo de Murcia, um vilarejo em Sasamón, na província de Burgos, Espanha. Tem cerca de 200 habitantes, e a soma dos povoados que compõem Sasamón mal passa de mil pessoas. Uma região linda e vazia, com ruínas romanas e construções medievais.

El Colacho também é antigo. Os registros mais velhos indicam que ele acontece desde pelo menos a década de 1620, todo domingo após Corpus Christi. O evento começa com diabos com máscaras vermelhas e amarelas, que percorrem as ruas gritando, xingando e empunhando chicotes de rabo de cavalo.

Então chegam os atabaleros, homens de preto determinados a expulsar o mal. Os diabos correm e então começa o Salto do Colacho, em que eles pulam sobre bebês que nasceram no último ano e que estão deitados em colchões bem no meio da rua.

El Colacho: quase 400 anos de tradição (foto: Flickr)

Segundo a tradição, os diabos absorvem os pecados originais dos bebês. Se o batismo católico fosse um esporte olímpico, essa seria a versão X games.

Espectadores na calçada aproveitam para pedir proteção e saúde. Ao final, sob pétalas, depois daqueles instantes de respiração presa com adultos mascarados pairando no ar sobre bebês indefesos, eles voltam a seus pais. Ufa.

 

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.