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Coreanos gostam tanto de cuidados com a pele que têm até festival da lama

Felipe van Deursen

27/07/2019 04h00

Boryeong Mud Festival, na Coreia do Sul

36º20'N, 126º36'L
Festival da Lama de Boryeong
Boryeong, Chungcheong do Sul, Coreia do Sul

A indústria dos cosméticos da Coreia do Sul está ganhando o mundo. Em 2017, ela movimentou US$ 12,6 bilhões e figurou entre os 10 maiores mercados do setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos (o Brasil é o 4º). De acordo com especialistas na área, não se trata de uma modinha passageira. O k-beauty parece que veio para ficar.

Há alguns fatores que explicam por que o país é esse fenômeno que vem tomando o Ocidente. Em primeiro lugar, é parte da cultura coreana. Influenciadoras fazem sucesso no YouTube em tutoriais com os 10, 11 ou 12 (!) passos em suas rotinas diárias de cuidados com a pele.

Ao cruzar a fronteira, até o líder supremo da Coreia do Norte já teceu loas aos cosméticos de seu pobre e ultrafechado país. Em 2017, ele apareceu em uma fábrica de Pyongyang ao lado da esposa e da irmã, recém-nomeada para o politburo, o comitê central do partido único. Na ocasião, Kim Jong-Un elogiou os produtos de "nível internacional".

Acalmem-se, comentaristas da internet, é só um exemplo de como os cuidados com a pele são uma prática tradicional, que transcende o capitalismo e o socialismo e é muito anterior à Guerra da Coreia e à divisão da península em dois países, hoje tão diferentes.

Na verdade, desde o tempo dos Três Reinos da Coreia, 21 séculos atrás, já se usavam cosméticos (Seul tem até um museu dedicado à tradição, o Coreana Cosmetics). Embonecar a cara é uma prática um tanto mais antiga do que citar Adam Smith ou Karl Marx.

Outro fator é geográfico. A Coreia tem no próprio solo, na fauna e na flora muitas das matérias-primas dos produtos que fazem a fama do k-beauty, tais como caracóis, abelhas, pérolas e lama.

Em 1996, a cidade costeira de Boryeong, às margens do Mar Amarelo, tornou-se um polo produtor de cosméticos, graças a seus 136km de costa com uma lama que estaria em pé de igualdade com a badalada lama do Mar Morto.

Ela é rica em minerais, bentonita e germânio, elemento químico que é bom para a elasticidade e a contração da pele. Além disso, essa lama tem altos índices de raios infravermelhos distantes, também benéficos para a cútis.

Mas lá nos anos 90 não havia tantos nerds da cosmetologia como hoje, então, em 1998, Boryeong sediou o primeiro Boryeong Mud Festival para promover não só os 16 produtos locais como também a praia de Daechon, pela qual a cidade é mais conhecida.

O site oficial se apresenta assim: "O Brasil tem o Carnaval do Rio e a Espanha tem a Tomatina, mas e a Coreia? Que bom que você perguntou! Temos algo ainda melhor…" Hoje, o festival é um dos mais conhecidos do país e atrai um público de alguns milhões de enlameados. A edição 2019, que começou na sexta passada, vai até domingo, dia 28.

Pelo visto, não se trata de uma fuleiragem qualquer de malucos brincando na lama. É um evento enorme, com shows de artistas como Psy e grandes nome do k-pop, jogos e competições, parque aquático, praça de alimentação, atividades com crianças…

Bem-vindos ao Lollapalama.

Um dia normal em Boryeong no verão coreano

 

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.