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Groenlândia tem bosque "boi de piranha" na luta contra aquecimento global

Felipe van Deursen

21/08/2019 09h04

Baía de Narsarsuaq (crédito: iStock)

61º08'N, 45º25'O
Arboretum Groenlandicum
Narsarsuaq, Groenlândia, Reino da Dinamarca

"Islândia, junto da Groenlândia, se nossas, se tornariam muito valiosas para nós para uma linha americana independente de telégrafo interoceânico. Nenhuma linha oceânica nessa rota excederia 660 milhas."

Esse foi um dos tantos argumentos que mostravam o quanto a Groenlândia era tentadora. Está em um texto de 100 páginas do Departamento de Estado americano intitulado "Relatório dos Recursos da Islândia e da Groenlândia". O documento, de 1868, mostra o interesse do presidente Andrew Johnson na maior ilha do mundo, que naquela época era uma colônia da Dinamarca. Está disponível na internet. 

Na Segunda Guerra, o reino foi dominado pelos nazistas, e a Groenlândia ficou sob proteção dos EUA. Por isso, logo após o fim do conflito, em 1946, o presidente Harry Truman ofereceu US$ 100 milhões em ouro pelo território.

O interesse é coerente. Era começo de Guerra Fria e o mundo virou um tabuleiro entre as superpotências. Se a Groenlândia fosse americana e a União Soviética atacasse os EUA, eles poderiam revidar rapidamente, pois aquela ilha gigantesca e quase desabitada ficava a meio caminho de Moscou, via Polo Norte.

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Os dinamarqueses declinaram da oferta, orgulhosos. Mas, em 1951, os dois países entraram em acordo para a construção da base militar mais setentrional dos EUA. Ao erguer a base aérea de Thule, precisaram remover os habitantes locais inuítes para uma "Nova Thule", lembra uma reportagem do Washington Post. Os povos originais, como sempre, não foram consultados.

O mapa acima não só lembra que a Terra é esférica como também alerta para o derretimento do gelo no Ártico. Isso mostra a importância da Groenlândia no século 21. Com mais águas navegáveis no Ártico, a atividade militar tende a crescer, mas aí surgiriam dúvidas e desafios tecnológicos que só o limite do mundo é capaz de impor. A aurora boreal poderia interferir nos equipamentos de comunicação e rádio? As calotas de gelo abafariam os abalos sísmicos de testes nucleares? Questões a se responder.

O aquecimento global está mudando o jogo militar e econômico no Ártico. Estima-se que 13% das reservas de petróleo e gás estejam ali, e boa parte na Groenlândia. Russos e chineses vêm aumentando as atividades na região.

Portanto, não é descabido o interesse de Donald Trump na ilha, um território autônomo do Reino da Dinamarca, divulgado na semana passada. Por mais grosseira e colonialista que tenha sido a abordagem (o que não espanta mais ninguém, convenhamos). "Seria um grande negócio imobiliário", ele disse, no seu jargão empresarial.

De fato. Ele e alguns antecessores conhecem o riscado. Dos 9,3 milhões de km2 de área dos EUA, 5,3 milhões foram comprados. Dá quase 57%. Ou seja, nesse caso Trump não tem nada de "nova era". Está mais para um político do século 19 do que para um populista de direita dos anos 2010.

Dinamarqueses e, mais importante, groenlandeses já ridicularizaram a proposta. Talvez a gente ainda fale disso por muito tempo. Ou talvez ela seja esquecida em breve, quando Trump sugerir a anexação da Coreia do Norte. Vai saber.

Mas a Groenlândia continuará estratégica para o mundo todo. Essa nova realidade econômica do Ártico é apenas um desdobramento de algo muito maior e mais importante, o caos climático da Terra.

GROENLÂNDIA E O AQUECIMENTO GLOBAL

A Groenlândia tem 10% das reservas de água doce do planeta. Derretido esse gelo todo, ninguém vai ligar para reservas de petróleo. Os habitantes da Manhattan de Trump vão ter que seguir os passos dos inuítes expulsos da base aérea e fazer a Nova Nova York.

Um jardim botânico no sul da ilha simboliza o papel de "boi de piranha" que ela exerce no front do aquecimento global. Criado em 1988 nos arredores de Narsarsuaq, o Arboretum Groenlandicum, a princípio, abrigaria espécies de árvores da própria Groenlândia.

Nas décadas seguintes, ele ganhou exemplares de tudo que é canto do norte do Hemisfério Norte. Plantas do Alasca, da Escandinávia, da Sibéria e também do Himalaia e das Rochosas prosperaram nesse pequeno bosque de 150 hectares (26 vezes menor que a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro). É um ponto colorido, com mais de 100 espécies de árvores, naquela vastidão.

A introdução de plantas ou animais em novas terras pode criar um problema ecológico enorme. Mas o clima da Groenlândia não propicia crescimento explosivo de nada, então a Greenland Trees, organização que administra o arboreto, explica que tem tempo e espaço para analisar o desenvolvimento de cada espécie e evitar desequilíbrios no meio ambiente.

Além disso, a posição geográfica do bosque, ao norte de quase tudo no mundo, serve de laboratório para os efeitos das mudanças climáticas em cada espécie. A forma como elas reagirem ao aquecimento será um indicativo da realidade de suas semelhantes em seus países originais.

A proposta do Arboretum Groenlandicum é outra, na verdade. Tentar reverter o processo de derrubada de árvores na ilha, prática que começou desde que os noruegueses desembarcaram ali, mais de mil anos atrás.

"Make Greenland green again"?

Mais informações (e doações) em greenlandtrees.org/

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.