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Oulu, na Finlândia, é a capital da bela e incompreendida arte do air guitar

Felipe van Deursen

23/08/2019 16h11

(Crédito: Getty Images)

ATUALIZAÇÃO: após o título de 2019 ir para os EUA e uma mensagem do campeão brasileiro Heavyer Dannair, que me escreveu pessoalmente, incluí novas informações no texto a seguir

 

65º00'N, 25º47'L
Campeonato Mundial de Air Guitar
Oulu, Ostrobótnia do Norte, Finlândia

Há 50 anos, o segredo da paz mundial estava em Woodstock. Só que ele deve ter ficado escondido e esquecido na lama, porque desde aquele agosto de 1969 o mundo assistiu a 90 guerras, segundo o Polynational War Memorial. "Paz mundial" ainda é algo distante demais.

Mas ainda há os esperançosos. Nas mãos desses talentosos mímicos, o rock vive, passa bem e a paz reinará triunfante. Basta que todas as pessoas do mundo se unam a eles. Quem toca uma guitarra imaginária não tem mãos para segurar um fuzil ou atirar uma granada, afinal de contas.

Nesta semana, os melhores guitarristas aéreos do planeta se encontram na Finlândia para as finais de mais uma edição do Campeonato Mundial de Air Guitar. Todos com o mesmo espírito que move a prática.

"Não é uma arte ou esporte, nem requer lugares especiais [para a execução dos movimentos] ou talentos, então é acessível para todos. Pode ser compreendida por todos, não importam gênero, idade, ascendência étnica, orientação sexual e status social", dizem os organizadores do evento no site oficial.

Por trás da ideologia riponga da brincadeira, existe um trabalho sério, que atrai patrocinadores e turistas a Oulu. Por três dias, a cidade é o ponto de encontro dos melhores do mundo. O evento, um dos mais importantes da Finlândia, é o aguardado fim de uma temporada que tem campeonatos nacionais licenciados em 12 países. Os vencedores carimbam o passaporte para o Mundial, sempre realizado nessa cidade de efervescência cultural e tecnológica no norte da Finlândia, às margens do Golfo de Bótnia.

(Crédito: Getty Images)

Mas é só um bando de malucos pagando de Jack Black em Escola do Rock em cima de um palco, certo? Sim, mas com critérios.

Os juízes avaliam a fidelidade dos movimentos da guitarra aérea e a forma como os competidores imitam determinada performance. Toda a afetação dos guitarristas originais, como cabelos ao vento, braços de helicóptero e formas características de dobrar as pernas, por exemplo, pode, e deve, aparecer em seus dublês sem instrumento.

Além disso, há o conceito de "airness", mais subjetivo, em que as coisas ficam mais interessantes e o desempenho transcende a mera imitação. Aí é preciso conquistar o júri.

AS POTÊNCIAS DO AIR GUITAR

A Finlândia ficou conhecida no mundo do rock pelas bandas de heavy metal que produziu em variados subgêneros, como power metal (Stratovarius), metal sinfônico (Nightwish e Apocalyptica) e death metal (Children of Bodom). Tamanho afeto por guitarras pesadas e teatralidade ajuda a explicar por que os finlandeses elevaram uma mera brincadeira-brincadeira a uma competição-de-brincadeira.

Assim como os ingleses em quase todos os esportes que criaram, os finlandeses dominaram o pódio do Mundial por anos, mas depois perderam espaço para outras potências da guitarra aérea. Os donos da casa ganharam em 1996, 97, 98, 99 e 2000. Também levaram seis pratas e dois bronzes nos primeiros anos, quando quase não havia estrangeiros competindo.

Hoje, os americanos são os grandes vencedores, com sete ouros, incluindo o atual campeão, Rob "Marquis" Messel. Os japoneses têm quatro. Nanami "Seven Seas" Nagura foi a campeã de 2018. O Brasil já foi representado por Fausto "Heavyer Dannair" Carraro, que chegou a ficar em oitavo lugar na edição de 2009. Você pode ver uma série de performances no canal do evento no YouTube.

(Crédito: Getty Images)

HISTÓRIA ANTIGA

Mas os finlandeses apenas deram uma nova dimensão à prática, na verdade. Na década de 1980, havia torneios de air guitar em universidades nos Estados Unidos e na Escandinávia. O campeonato mundial surgiu em 1996, como uma das atrações do Festival de Oulu. Era uma zoeira, mas cresceu e ganhou vida própria. Só que o air guitar em si é bem mais velho.

Acompanhar uma música com movimentos aéreos é algo tão antigo quanto os aparelhos de reprodução que a levaram para dentro da casa das pessoas. É o que argumenta o etnomusicólogo (e guitarrista aéreo) Byrd McDaniel em um artigo no site The Conversation.

Na primeira década do século passado, quando o fonógrafo se tornou um aparelho mais comum nos EUA, tinha gente que gostava de conduzir as orquestras na privacidade do lar. Tal discrição era bem-vinda ao fazer dos dedos batutas pois a crença vigente da época pregava que o consumo em massa de música podia ser danoso à saúde.

Além disso, dizia-se que a mimetização de instrumentos era sinal de loucura, pois a música estaria tomando controle do corpo. Em 1909, o jornal The Seattle Star falou de um prisioneiro que passava o tempo na cadeia tocando um piano imaginário, esperando dar a impressão de que era louco e que poderia escapar de uma punição mais severa.

Com o tempo, a comédia musical passou a explorar bastante esse recurso no vaudeville e em shows de variedades. Que tal Jerry Lewis fazendo a orquestra de Count Basie? A pantomima abriu espaço também para outra modalidade, o lypsinc. Fez sucesso porque fingir que cantava era mais barato e prático do que contratar uma banda para se apresentar ao vivo.

Outra coisa barata e divertida era vestir roupas do gênero oposto e cantar e dançar. Performances de lypsinc e shows de drag entretiam os soldados americanos na Segunda Guerra Mundial (nazistas também curtiam experimentar roupas diferentes).

Nos anos 80, paralelamente aos torneios universitários, o air guitar e o lypsinc começaram a aparecer com mais frequência na TV. Tom Cruise que o diga:

via GIPHY

Catorze anos antes de Negócio Arriscado, em 1969, Joe Cocker executou a performance de air guitar mais famosa de todos os tempos. Muita gente se pergunta se ele criou a brincadeira em Woodstock, mas não, ele só mostrou ao público que até os monstros do rock curtem dedilhar o ar de vez em quando.

Não tivemos Woodstock 50. Mas ainda temos o Campeonato Mundial de Air Guitar. Novos tempos.

Mais informações em Airguitarworldchampionship.com

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.