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Como jovens criaram uma biblioteca no meio da Guerra da Síria

Felipe van Deursen

26/10/2019 04h00

33º27'N, 36º14'L
Darayya
Zona Rural de Damasco, Síria

Rif Damashq, ou a Zona Rural de Damasco, foi, até o ano passado, um dos teatros mais ativos da Guerra Civil Síria. Não é dos lugares mais atrativos do país, mas fica perto de alguns deles, para quando, um dia, pudermos visitar uma Síria pacificada. É o caso de Bosra, uma cidade romana com um anfiteatro bem preservado, e da própria Damasco, uma das cidades mais antigas do mundo.

Bosra (Crédito: Getty Images)

Hoje pode soar estranho falar assim, após quase uma década de guerra. Mas, antes de 2011, o turismo era uma das principais atividades econômicas da Síria, país um pouco menor que o Paraná que tem castelos das Cruzadas no litoral, monumentos islâmicos na capital, ruínas romanas no interior e seis patrimônios culturais da humanidade.

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Era para evocar esses tempos de vida normal que um grupo de leitores vorazes abriu uma biblioteca de resistência em Darayya, uma das primeiras cidades a se levantarem contra o regime Bashar al-Assad. O mesmo povo que, nos anos 2000, ia para rua pedir menos corrupção e mais coleta de lixo.

Pequena aldeia na Zona Rural de Damasco (Crédito: Getty Images)

Maalula (Crédito: Getty Images)

Em 2011, a cidade entrou na grande e esperançosa onda da Primavera Árabe. O governo reprimiu, Darayya respondeu com flores e baldes d'água. O governo ficou ainda mais pistola e foi para cima com mais força sobre ela e outras cidades rebeladas, dando início à guerra.

Em 2012, Darayya, próxima de um aeroporto militar, virou alvo da paranoica ofensiva de Assad. As forças oficiais orquestraram a execução de pelo menos 400 pessoas, segundo o Human Rights Watch. O massacre de Darayya deu forças aos rebeldes na batalha subsequente, mas Assad virou o jogo nos meses seguintes.

Enquanto isso, jovens coletaram milhares de livros em casas em ruínas e os levaram ao porão de um prédio cujos andares superiores foram destruídos pelos bombardeios. Eles criaram uma biblioteca que seria um "oásis de normalidade".

Ainda que tal normalidade seja uma biblioteca em um prédio semi-inutilizado e comandada por garotos na faixa dos 14 anos que anotam em um arquivo improvisado os nomes dos donos de cada livro, para que eles possam reavê-los quando a guerra acabar. Questão de parâmetro.

Em 2013, quando a biblioteca surgiu, Darayya penava com o cerco imposto pelas forças do governo. A população de 80 mil pessoas despencou para 8 mil, que diariamente conviviam com menos luz, água e comida e mais bombas na cabeça.

No ano seguinte, o que não poderia piorar piorou, com a chegada do Estado Islâmico. Os jihadistas pagavam jovens da cidade a se juntarem a eles, e muitas vezes os pais só descobriam tarde demais.

O cerco durou até 2016, quando os rebeldes que lutavam contra Assad deixaram Darayya e o governo se convenceu, após protestos na redes sociais e uma carta-aberta assinada por mulheres locais evidenciando seu desespero e alegando que a cidade só tinha civis, não supostos terroristas. Eles se retiraram, não sem antes bombardear o último hospital de pé da cidade com uma bomba incendiária semelhante a napalm.

A guerra comendo solta, e a molecada da biblioteca organizava clubes do livro semanais, aulas de inglês, matemática e história e debates sobre literatura e religião. A história é tão fascinante que inspirou dois jornalistas ocidentais a fazerem um livro a respeito. Delphine Minoui, correspondente do Le Monde no Oriente Médio, escreveu Les Passeurs de Livres de Daraya, e Mike Thomson, repórter que cobriu a guerra para a BBC, lançou Syria's Secret Library.

A Síria tem uma história rica na literatura, desde os tempos romanos, com o filósofo Posidônio, que influenciou Plutarco, passando pelo renascimento da cultura árabe do século 19, até os dias de hoje, em que uma jovem refugiada com 13 anos já ganhava prêmio de poesia no Reino Unido. A criação e manutenção de uma biblioteca com 15 mil livros é um exemplo da busca incessante por cultura, não importam as adversidades.

Um exemplo para o obscurantismo que só faz crescer nos lados para cá de Bagdá.

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.