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Sealand, o país que ninguém reconhece e que já viveu golpes e revoluções

Felipe van Deursen

30/11/2019 04h00

Vista aérea de Sealand, micropaís criado em plataforma de guerra

 

51º54'N, 1º26'L
Principado de Sealand, Mar do Norte

Paddy Roy Bates teve uma vida agitada. Aos 15 anos, esse inglês se juntou às Brigadas Internacionais para combater no lado republicano na Guerra Civil Espanhola. Voltou, alistou-se no exército britânico e se tornou o mais jovem major do Reino Unido até então.

Na Segunda Guerra, ele participou de campanhas no Oriente Médio, no Norte da África e na Itália. Teve ferimentos graves após uma granada explodir perto de seu rosto. Foi feito prisioneiro por fascistas gregos após seu avião cair, mas conseguiu escapar.

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Só que a grande aventura de Bates estava por vir. Na véspera do Natal de 1966, o agora militar da reserva subiu em um pequeno barco com motor de popa e navegou 11 km no Mar no Norte até chegar a Roughs, uma plataforma antiaérea dos tempos da guerra.

Com gancho e corda, escalou a estrutura. Em seguida, declarou-a conquistada.

A ideia de Bates era usar a plataforma como estação de rádio. Poucas vezes o termo "rádio pirata" soou tão contundente. Naquela época, a BBC monopolizava as ondas de rádio do país. Pense: Inglaterra, 1966 e ela só tocava música no meio da noite. Durante o dia, nada de Tom Jones, Kinks, Supremes, Beach Boys, Elvis Presley ou Who, os artistas mais populares naquele Natal no país.

Com tamanha revolução cultural em andamento, a demanda por mais música no rádio era enorme, então Bates se juntou a outros piratas que difundiam canções britânicas e americanas, 24 horas por dia, a partir de navios e plataformas além da fronteira do Reino Unido.

Sealand, após um incêndio. (foto: Wikimedia commons)

Para sobreviver, ele fez um estoque de latas de carne, farinha, arroz-doce e uísque. Bates chegou a ficar meses sem voltar para casa.

A rádio pirata foi um presente do militar para sua esposa. "Agora você tem sua própria ilha", ele lhe disse em um bar. "Uma pena que ela não tem algumas palmeiras, um pouco de sol e sua própria bandeira", ela retrucou.

Foi um estalo. Semanas depois, Bates decretou a fundação de Sealand.

Uma plataforma antiaérea construída no começo da década de 1940 para defender a foz do Tâmisa. Uma estrutura do tamanho de duas quadras de tênis sobre torres de concreto de 18 metros sobre o mar. O novo país que Bates proclamou era só isso.

Durante a guerra, mais de 100 homens operaram as armas da plataforma contra os nazistas. Mas, depois, ela ficou obsoleta, abandonada pela Marinha. Mais de 20 anos depois, o HMF ("forte de sua majestade") Roughs era uma ruína esperando ser conquistada.

Não que o governo aceitou tranquilinho a invasão de Bates. Autoridades exigiram que ele se retirasse, mas o homem era teimoso. Em seis ocasiões, o governo britânico e outros grupos, apoiados por mercenários, tentaram e fracassaram tomar a plataforma à força", escreve o jornalista Ian Urbina, autor de um livro sobre Sealand, na revista The Atlantic. "A família Bates os expulsou com rifles ou bombas de gasolina."

Documentos do governo britânico revelam que, no fim dos anos 60, Sealand era vista como uma ameaça real. Em tempos de Guerra Fria, até uma plataforma no mar podia virar a "nova Cuba". Oficiais debateram se seria o caso de bombardear o forte. Pensaram melhor e desistiram.

Em cinco décadas de existência, Sealand teve golpes e contragolpes, crise de reféns e planos para se tornar um cassino, um refúgio digital para o crime organizado, uma base do Wikileaks "e inúmeras fantasias tecnológicas, nenhuma concretizada, muitas alimentadas por sonhos libertários de uma nação oceânica além da regulamentação governamental e pela criatividade de sua família fundadora", resume Urbina.

O principado de Sealand tem passaporte, brasão de armas, bandeira e moeda. Mas isso é apenas um verniz de soberania. Grande coisa. O Hopi Hari, autointitulado "país mais divertido do mundo", também tem. A diferença é que um é puro marketing de um parque que quase faliu no interior de São Paulo e o outro é um teste aos limites das instituições diplomáticas.

No começo dos anos 70, o comerciante de diamantes alemão Alexander Achenbach entrou em contato com Bates para ampliar os domínios de Sealand. Ele queria construir um cassino e outras atrações no local. A relação começou promissora, e em 1975 Achenbach foi nomeado ministro das Relações Exteriores de Sealand.

O alemão se jogou na empreitada. Mudou-se para o forte, ajudou a redigir sua Constituição e fez uma petição para renunciar a sua cidadania germânica. Queria ser reconhecido como sealandês.

As autoridades alemãs negaram o pedido, então Achenbach enviou a Constituição de seu micropaís a 150 nações soberanas e à ONU, solicitando sua ratificação. Ninguém reconheceu. Uma corte na Alemanha deu-se ao trabalho de explicar sua posição: a plataforma não faz parte da superfície da Terra, não tem uma vida em comunidade e seu minúsculo território não constitui um espaço de sobrevivência viável a longo prazo.

Achenbach não se deu por vencido. Ele começou a tomar atitudes que entrariam em conflito com o príncipe Bates. Contratou um helicóptero e enviou seu advogado, Gernot Pütz, para invadir e conquistar Sealand. Pütz tomou Michael, filho de Bates, como refém e depois o enviou à Holanda, onde seu pai se encontrava.

Bates contatou um amigo e piloto de helicóptero, John Crewson (que tinha a credencial de ter trabalhado nos primeiros filmes de James Bond), para levar pai, filho e mais uns companheiros armados e retomar Sealand. Sim, a plataforma não era reconhecida como país por ninguém mas ao mesmo tempo vivenciava golpes políticos.

Pütz ficou preso por dois meses, acusado de traição. A história fica ainda mais bizarra quando a embaixada da Alemanha Ocidental em Londres decide intervir: "A prisão de Pütz é, de certo modo, um ato de pirataria, cometido em alto-mar, mas ainda assim em frente ao território britânico e por cidadãos britânicos", escreveu, em um apelo ao governo do Reino Unido.

Quando os alemães ocidentais enviaram um diplomata para negociar a soltura, Bates interpretou o ato como um reconhecimento de Bonn à soberania sealandesa. Pütz acabou solto após pagar uma multa de cerca de US$ 37 mil à família.

Em 1980, Bates foi à Holanda processar um dos homens que invadiu seu território com Achenbach. Seu advogado? Ele mesmo, Gernot Pütz. Isso levou muita gente a crer que o microgolpe de Estado (ou golpe de microestado?) foi apenas uma jogada da dupla para Sealand ganhar publicidade e, de alguma forma, ser reconhecida diplomaticamente.

Sealand é talvez a mais célebre de um grupo de micronações cuja independência ninguém reconhece e que funcionam mais como um grito do liberalismo contra as burocracias, as amarras e todos os mecanismos supostamente antiempreendedorismo dos governos instituídos. É o caso de Liberland, na Sérvia, e das finadas Freedonia, nos Estados Unidos, Minerva, no Pacífico, e New Utopia, no Caribe.

"Concebidas como comunidades limitadas pelo mar, autossuficientes e autogovernáveis, essas cidades foram imaginadas como parte utopia libertária, parte playground de bilionários", escreve Urbina.

Em cinco décadas, Sealand teve apenas seis habitantes, todos convidados da família Bates. A artilharia e os helicópteros da Segunda Guerra cederam lugar a uma usina de energia eólica. Todo mês, um barco enche a despensa do país com chá, jornais velhos, chocolate e uísque.

A vida no mar se mostrou dura, como era de se prever. Apesar dos ventos, das ondas e da luz solar abundantes para serem convertidos em energia, construir e manter sistemas de energia renovável é muito caro, ainda mais nesse ambiente imerso em maresia.

A comunicação também é um problemaço. Via satélite tem custos exorbitantes, assim como instalar cabos de fibra ótica. Viajar para a Inglaterra, apesar da proximidade, nem sempre é fácil. Tempestades no Mar do Norte podem isolar Sealand ainda mais.

Esse micropaís perdura porque habita um vácuo das leis, solto nas águas internacionais. Mas, segundo Urbina, seu segredo está mais em suas aspirações limitadas. Por mais insano que tenha sido o empreendimento de Bates, Sealand ainda é apenas uma plataforma militar abandonada, não uma nação, pelo menos aos olhos da totalidade da comunidade internacional. É mais fácil de ser ignorada do que erradicada.

Se Bates, que morreu em 2012, tivesse desejos mais grandiosos, como expansão territorial ou a fundação de um império, certamente Sealand teria há muito sido extirpada. Para quem já invadiu 171 países, como os ingleses, o que seria uma micronação a mais na lista?

Nos últimos anos, Sealand tem apenas um residente fixo, um guarda. Sua alteza, Michael, vive na Holanda.

Mais informações sobre Sealand (inclusive sobre como se tornar um lorde) no site oficial

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.