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O vulcão que derrotou os deuses nórdicos e levou o cristianismo à Islândia

Felipe van Deursen

26/01/2020 04h00

Cachoeira Ofaerufoss em Eldgja, Islândia (Crédito: Getty Images)

63º58'N, 18º36'O
Vulcão Eldgjá
Região Sul, Islândia

Dezoito quilômetro cúbicos de lava. Ou, em bom português, 7,2 milhões de piscinas olímpicas. Ou 298 mil Maracanãs transbordando de lava. Ainda assim é difícil imaginar, eu sei. O que diabos são 7.200.000 piscinas?

Mas tente visualizar. Esse foi o volume cuspido pelo vulcão Eldgjá, na Islândia, em 939 d.C.. Não há registros escritos da erupção, mas os cientistas estimaram essa data analisando evidências em outros lugares. Afinal, um evento dessa proporção não passa batido no planeta.

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Ao estudar camadas de gelo na Groenlândia, eles acharam sinais claros de outra grande erupção da mesma época, a do vulcão Changbai, que fica na atual fronteira da China com a Coreia do Norte (onde ele se chama Baektu e é considerado sagrado). A erupção asiática, umas das mais poderosas de que se tem notícia e chamada de Erupção do Milênio, aconteceu em 946, segundo as estimativas. A partir dessa marcação, os cientistas calcularam que o evento no Atlântico começou em 939.

Há outras evidências. Análises de anéis de árvores do Hemisfério Norte indicam que o verão de 940 foi um dos mais frios da História. A temperatura média do Alasca à Ásia Central despencou 2 ºC, por causa dos materiais ejetados pelo vulcão no ano anterior, que escureceram o céu. Textos de outros lugares da Europa apontam invernos sinistros, secas cruéis na primavera e um sol vermelho e fragilizado.

(Crédito: Getty Images)

Só que o mais revelador desse estudo da Universidade de Cambridge, publicado em 2018, é que um famoso poema nórdico talvez tenha sido inspirado nesse cataclisma de proporções bíblicas.

Eu falei "bíblicas"?

A obra Völuspá fala de fogo e inundações que dominam o céu e a terra, enquanto os deuses travam suas batalhas finais com os inimigos. O lobo gigante Fenrir devora Odin, Thor derrota a serpente Jörmungandr, mas cai morto e envenenado nove passos depois, várias catástrofes acontecem ao mesmo tempo e por aí vai. É o Rägnarok, o destino dos deuses.

Já faz algumas décadas que acadêmicos acreditam que Völuspá tenha uma influência cristã, ou que pelo menos seu(s) autor(es) tivessem conhecimento da religião. O poema seria de 961, apenas 22 anos depois da erupção. A devastação da narrativa e o horror apocalíptico que aquelas pessoas vivenciaram serviram para um renascimento cultural profundo, o que só poderia acontecer com novos deuses. Ou com um só, novo e Todo-Poderoso.

(Crédito: Getty Images)

O Völuspá seria um marco da transição religiosa islandesa, característica do século 10, quando deuses nórdicos conviviam com o panteão cristão. No século seguinte, a Islândia já era oficialmente um país de Cristo.

O poema funcionou como um cavalo de Troia. Uma história da mitologia nórdica que guardava consigo elementos de cristianização. Em dado momento, ele diz que um belo mundo renascido ressurgirá das cinzas da morte e da destruição, Baldr e Höðr, outros dos filhos de Odin, viverão novamente em uma terra de onde brota abundância.

Seria o Völuspá, então, o próprio Rägnarok? Pense nisso quando visitar o Eldgjá, o maior cânion vulcânico do mundo. Tão grande que, se não matou Odin, o rebaixou aos domínios das práticas religiosas clandestinas da vida privada.

Mais informações em Guidetoiceland.is

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.