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China fez vila secreta ao lado da Grande Muralha para ter bomba atômica

Felipe van Deursen

01/02/2020 04h00

O Forte Jiayuguan, na província de Gansu, China (Crédito: Getty Images)


40º08'N, 97º14'L

Antigo Complexo de Energia Atômica de Jiuquan (Fábrica 404)
Gansu, China

A disputa armamentista que caracterizou a Guerra Fria foi protagonizada pela duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética. Mas havia outras nações dispostas a investir na produção da bomba atômica.

Em 1949, comunistas e nacionalistas se engalfinharam pelo domínio do país. Os comunistas, de Mao Tsé-tung, levaram a melhor e proclamaram a República Popular da China. Os nacionalistas fugiram para Taiwan, onde fundaram a República da China.

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Cinco anos depois, a Primeira Crise do Estreito de Taiwan foi um pequeno conflito entre os inimigos. Taiwan tinha o explícito apoio dos EUA, que chegaram a ameaçar despejar uma bomba atômica sobre os chineses continentais.

Isso levou Mao Tsé-tung a entrar na corrida maluca (e inconsequente, sequelada, joselita etc.). Alguns especialistas dizem que ele já pretendia ter a bomba, a ameaça americana foi apenas a desculpa perfeita.

Em todo caso, em 1955, com apoio dos soviéticos, a China iniciou seus planos sinistros. Moscou providenciou plantas e um protótipo, mas pulou fora do projeto logo que as obras do Complexo de Energia Atômica de Jiuquan começaram.

Os melhores cientistas, engenheiros e técnicos chineses trabalharam na construção do primeiro reator nuclear do país, que produziu plutônio enriquecido para armas durante 18 anos, de 1966 a 1984. O complexo, que não era encontrado em nenhum mapa oficial, era chamado também de fábrica 404.

O nome deriva da 404, uma empresa pertencente à Corporação Nuclear Nacional Chinesa, a estatal da energia atômica. Mas, francamente, queríamos outra associação. Afinal, o número nos leva a uma anacrônica coincidência com o código de erro mais famoso da internet, o "404: página não encontrada". Ele já foi absorvido pela cultura pop, alimenta memes há anos, apareceu na campanha presidencial americana de 2016 e até ganhou uma origem mitológica, muito mais divertida do que seu real, e sem graça, nascimento.

No melhor estilo 404, a "cidade que não podia ser encontrada" ficava a duas horas de qualquer lugar habitado no vasto e inóspito Deserto de Gobi. As pessoas só sabiam que ela ficava perto de Wuhuashan. Mas, apesar de ser uma cidade proibida e inexistente em placas, mapas e guias, ela chegou a ter 50 mil habitantes (ou 100 mil, dependendo do relato), hotéis, agências de correios, hospital, delegacia, supermercado e até zoológico, fliperamas e pista de patinação.

Em 1996, o complexo abandonou totalmente os objetivos militares e integrou a indústria nuclear civil. O relativo esplendor já era coisa do passado de Guerra Fria, e 404 estava largada. A China abandonava os testes nucleares, e hoje seu arsenal, estimado em 260 ogivas, é dinheiro de pinga perto do que ainda têm EUA e Rússia.

O fotógrafo Li Yang, que cresceu em 404, disse à revista Wired que as pessoas costumavam conversar, depois do jantar, perto da estátua de Mao. "Alguns davam uma volta pelo parque, outros na estrada. Como a cidade era muito pequena, as pessoas podiam se encontrar várias vezes em uma noite, até que ficassem embaraçadas demais para não dar 'oi'", lembra.

Anos depois, Li voltou ao complexo e fez um ensaio fotográfico da agora cidade-fantasma. O lugar onde ele passou a infância está abandonado desde os anos 2000, quando a maior parte dos moradores que restavam se mudou para Jiayuguan.

(Crédito: Getty Images)

Jiayuguan surgiu a partir de hospedarias construídas nos arredores da Grande Muralha. Hoje, esse é o maior e mais intacto trecho da muralha. Além disso, Jiayuguan tem também um forte, construído no século 14 pela dinastia Ming.

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

Bem diferente de 404, que brotou e desvaneceu no deserto em poucas décadas e hoje é um abandonado retrato da loucura nuclear do século 20. Ela não podia ser localizada em mapas analógicos, e até mesmo na internet de hoje há bem poucas informações a respeito.

Mas nada que algumas horas cruzando dados no Google Maps não resolvam:

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.