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A vida na vila mais alta da Europa, habitada por apenas uma pessoa

Felipe van Deursen

08/02/2020 04h00

Bochorna, na Geórgia. Crédito: Getty Images

42º24'N, 45º35'L
Bochorna
Akhmeta, Kakheti, Geórgia

 

Que a população de muitos lugares na Europa está diminuindo e envelhecendo, a gente sabe. É o caso da Geórgia. Quando era uma república soviética, o país chegou a passar dos 5 milhões de habitantes. Hoje, não chega a 4 milhões.

Além do envelhecimento e da taxa de natalidade em queda, emigração e mortalidade em alta também contribuíram para os atuais 3,7 milhões de pessoas. Só para comparar, a Geórgia tem população e área semelhantes às da Paraíba. A diferença é que no estado a taxa está subindo e já chegou, ou está para chegar, aos 4 milhões.

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As belezas de Tusheti. Crédito: Getty Images

Uma vila no Cáucaso representa bem o declínio populacional georgiano. Bochorna, 2.345 m acima do nível do mar, é o local habitado mais alto do país  e de toda a Europa.

"Habitado" naquelas, mas beleza. População total: 1.

Para chegar a Bochorna, é preciso atravessar rios caudalosos, montanhas escorregadias, deslizamentos de terra e, para completar, cães enormes. Lá em cima, vive Irakli Khvedaguridze, 78 anos. Nos meses mais quentes, Bochorna ganha alguns outros habitantes temporários.

Khvedaguridze permanece na vila sozinho porque, durante oito longos meses por ano, as estradas da região estão cobertas de neve e ele torna-se o único médico disponível em caso de emergência, segundo uma reportagem da revista AFAR. Isso dá uma dimensão do isolamento de Bochorna.

Tusheti. Crédito: Getty Images

A vila fica em Tusheti, uma das últimas regiões de fato inóspitas da Europa e explorada, atualmente, apenas por mochileiros mais ousados que vão em busca de suas montanhas verdes com torres medievais e da hospitalidade de quem os recebe com doses de chacha, o destilado local. Como todo país com uma longa tradição vinicultora (e nisso é difícil bater a Geórgia, como já falei aqui no blog), lá também se usa a uva inteira para fazer goró.

Enquanto o mosto é usado no vinho, o bagaço é a base para o destilado. No caso, a chacha, que também é chamada de grappa georgiana. Só não confunda com a chicha, que é fermentada e andina.

Tusheti sempre foi uma região de difícil acesso. As estradas só chegaram na década de 1980, quando a União Soviética resolveu acelerar a economia e investir na indústria e na infraestrutura locais. Além disso, em nome da uniformização e padronização social, Moscou queria que os tushetianos abandonassem seu estilo de vida. "Desçam das montanhas, abracem a vida moderna", eles disseram. A maioria topou e passou a conviver com água encanada, aquecimento, privada e facilidades do tipo.

A independência veio em 1991 e a transição para a democracia foi um processo tumultuado. Mesmo com menos habitantes e com sua cultura e modo de vida abalados, Tusheti seguiu firme no isolacionismo, preservando o próprio dialeto, festivais e um cristianismo repleto de influências animistas (crença em que objetos, lugares e criaturas têm uma essência espiritual).

Das 45 vilas na região, 31 não têm sinal de celular, explica Khvedaguridze. Por isso sua presença como o único médico na área é tão importante.

Bochorna ganhou até uma placa comemorativa por ter virado o ponto habitado continuamente mais alto do continente. Até 2014, esse título pertencia a outra localidade georgiana, Ushguli.

Mas nem sempre essa vila foi a campeã. Em 1989, ela tomou o recorde de Resi, a 2.405 m de altitude. Mas Resi, que também fica na Geórgia, foi abandonada. Ushguli, por sua vez, fica a 2.100 m. Ou seja, enquanto Bochorna for habitada, ela será a mais alta da Europa. Se for esvaziada, o título volta para Ushguli.

Em 2017, uma organização americana anunciou um plano de levar internet a 26 vilas tushetianas. Com ou sem wi-fi, Irakli Khvedaguridze segue lá.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.