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O hotel flutuante "amaldiçoado" que acabou esquecido na Coreia do Norte

Felipe van Deursen

01/03/2020 04h00

38º43'N, 128º12'L
Hotel Haegumgang
Kangwon, Coreia do Norte

A Coreia do Norte tem um talento especial para grandes construções com histórias bizarras, como já vimos aqui no blog. Mas a saga dessa obra começa mais ao sul, na pujante Cingapura dos anos 1980, auge dos chamados Tigres Asiáticos.

Tudo brotou na fervilhante mente de Doug Tarca, um empresário australiano que, desde que trabalhava como mergulhador na Grande Barreira de Corais na década de 1950, desejava que aquela joia da natureza fosse um grande destino turístico. Ele encomendou a um estaleiro cingapuriano a construção de um hotel. Não um reles hotel, mas um flutuante.

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O empreendimento teria sete andares, quase 200 quartos, discotecas, bares, restaurantes, heliporto, quadra de tênis e um observatório submarino. Veja bem, não era um navio de cruzeiro, mas um "flutel", com um sistema de ancoragem semelhante ao das plataformas de petróleo. Tudo isso assinado pela grife hoteleira Four Seasons.

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Capa da revista australiana "Good Weekend" na inauguração do hotel em

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O Hotel Flutuante John Brewer foi inaugurado em 1988 no recife de mesmo nome, próximo a Townsville, Queensland, no nordeste da Austrália. Tristemente, uma montanha de corais precisou ser removida para a chegada do hotel, apesar dos alarmes de ambientalistas.

Não que a natureza não tivesse dado o recado. Um ciclone tropical atrasou a abertura para o público, causando danos à piscina, ao observatório submarino (afundado) e ao barco de transporte de hóspedes (destruído).

Para completar, semanas depois, enquanto os primeiros turistas chegavam e desbravavam a novidade de se hospedar em um hotel flutuante, descobriu-se que 100 mil munições da Segunda Guerra Mundial, como minas antitanque e outras peças de artilharia, jaziam no fundo do mar, abaixo do hotel. Townsville era uma base dos Aliados e estava na mira do crescente Império Japonês, no começo do conflito.

Resultado: em apenas um ano, o hotel fechou as portas.

A temporada australiana acabou, abrindo alas para a vietnamita, muito mais bem-sucedida. Em 1989, o hotel flutuou até Ho Chi Minh, onde funcionou como Hotel Flutuante Saigon (referência ao antigo nome da maior cidade do Vietnã). Durante alguns anos, o Saigon foi um popular destino de entretenimento noturno, mas acabou tendo dificuldades financeiras e foi vendido, em 1997, para a Coreia do Norte.

Hotel Flutuante Saigon, por volta de 1989 (foto: flickr)

O empreendimento ganhou sua terceira vida em 1998 como um experimento de abertura do país ao turismo. Deu certo, e o regime criou a Região Turística do Monte Kumgang, resort especial forjado na fronteira para receber viajantes da Coreia do Sul e de outros países.

Àquela época, as Coreias ensaiavam uma reaproximação pacífica. O hotel, rebatizado como Haegumgang, virou um símbolo da cooperação Norte-Sul e serviu como ponto de reencontro de famílias separadas por décadas, desde a Guerra da Coreia (1950-53).

Cerca de 1 milhão de sul-coreanos visitaram a área em excursões organizadas pela Hyunday Asan, subsidiária da gigante automobilística. A montadora foi uma grande patrocinadora da Política Luz do Sol, como ficou conhecido esse período de harmonia, que acabou rendendo o Nobel da Paz de 2000 a seu articulador, o então presidente sul-coreano Kim Dae-jung.

Mas, em 2008, a sorte virou, de novo. Um soldado do Norte matou uma mulher do Sul no resort, alegando que ela estava em uma zona estritamente militar. O incidente ocorreu meses após o conservador Lee Myung-bak assumir a presidência da Coreia do Sul e serviu como argumento perfeito para encerrar a política de boa vizinhança.

O fluxo de turistas despencou de lá para cá. O manto fantasmagórico da decadência, revestido de ferrugem e mato, cobriu o hotel flutuante.

Mas a história ainda não acabou. No ano passado, Kim Jong-un visitou o resort, segundo a agência oficial de notícias norte-coreana. Ele classificou as instalações como "sem identidade, surradas e atrasadas em termos arquitetônicos". O supremo líder teria ordenado a demolição do hotel e a construção de serviços mais modernos.

Em se tratando de Coreia do Norte, o que será do complexo (e se é que ele sofrerá qualquer transformação) é um grande mistério. Aguardemos os próximos episódios dessa boia hoteleira que realizou sonhos de famílias e amealhou fãs em mais de 30 anos e cerca de 15 mil quilômetros rodados. Ou melhor, flutuados.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.