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A cidade que seguiu a quarentena e passou pela gripe espanhola sem vítimas

Felipe van Deursen

18/03/2020 04h00

Rio Gunnison (crédito: Getty Images)

38º32'N, 106º55'O
Gunnison
Colorado, Estados Unidos

No final de 1918, a gripe espanhola, pandemia causada pelo vírus influenza e que começou a se espalhar a partir dos Estados Unidos, já havia infectado milhões de pessoas no mundo. As autoridades e a população tinham conhecimento, na medida do possível, que uma doença mortal se espalhava pelo globo.

Gunnison é uma pequena cidade americana cuja história é um bom resumo da própria história do país. Na década de 1850, o condado assistiu à chegada massiva de mineiros em busca de ouro. Os novos moradores enfrentaram resistência de tribos ute, povo que habitava a região e que acabou sendo expulso após alguns enfrentamentos sanguinários.

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Após os mineiros, vieram os rancheiros, fazendeiros e outros trabalhadores do campo. A cidadezinha cresceu, e a ferrovia chegou nos anos 1880, integrando a grande expansão rumo ao oeste americano.

(Crédito: Getty Images)

Em setembro de 1918, o influenza chegou ao Colorado, por meio de 250 soldados de Montana. O jornal de Gunnison, News-Champion, começou uma ampla cobertura a respeito. "A gripe está atrás de nós. Está circulando em quase toda vila e toda comunidade ao redor." O jornal passou a dedicar semanalmente pelo menos um artigo de primeira página à doença, além de trazer informações práticas sobre tratamento, sintomas etc.

Não que houvesse muitos dados disponíveis. A medicina era abissalmente mais rudimentar há 100 anos. Para começo de conversa, ninguém sabia o que exatamente estava matando tanta gente. Houve quem creditasse aquilo tudo a um desalinhamento dos planetas, que teria influenciado a tragédia (por isso o termo "influenza", que era usado desde o século 16 para doenças misteriosas). Erupções vulcânicas e aveia russa também foram suspeitos.

Só em 1933, 15 anos depois, cientistas descobriram que a pandemia foi causada por um vírus que se espalhou nos campos de batalha da Primeira Guerra na Europa, e de lá para o resto do mundo, no corpo infectado de soldados aliados. O nome "gripe espanhola" pegou porque, em tempos de guerra, a neutra Espanha não tinha uma imprensa censurada e que minimizava os efeitos da pandemia para não afetar o moral da nação.

A origem do vírus que causou pandemia sempre foi motivo de debate. Ele teria começado seu trabalho nos EUA e migrado para a Europa com os esforços de guerra. Ou então teria sido um efeito colateral de outro deslocamento do conflito: a mobilização de 96 mil trabalhadores chineses para as linhas francesas e britânicas no front ocidental.

Bem diferente do novo coronavírus, que acompanhamos em tempo real, com duas ou três telas ao mesmo tempo, desde o começo do ano. Aprendemos sobre sua proliferação pelo mundo, como se espalha, o crescimento exponencial, as populações de risco, os efeitos no corpo, a taxa de letalidade ou por que água e sabão é melhor que álcool em gel. Não sabemos tudo sobre o covid-19, ainda não temos o principal, a vacina. Mas sabemos muito, mas muito mais do que se sabia em 1918.

Por essas e outras que o médico Jeremy Brown, autor de Influenza: The 100-Year Hunt to Cure the Deadliest Disease in History, acredita que as chances de a pandemia de covid-19 chegar perto do nível de devastação da gripe espanhola são bem remotas. Havia uma guerra mundial, que sugava para si recursos, atenção de público e mídia e, principalmente, seres humanos em condições lamentáveis para, caso sobrevivessem, espalhar o vírus por aí. Era comum um soldado ferido, e infectado, ser levado a um hospital lotado de pacientes sem contato com a pandemia.

Junte a isso a limitação da medicina. "Médicos receitavam quinino (não ajuda), champanhe seco (idem, porém mais divertido) e fenolftaleína (laxante cancerígeno)", escreveu Brown em um artigo para a revista The Atlantic.

(Crédito: Getty Images)

Esse era o mundo da bela e montanhosa Gunnison e seus 1.300 habitantes em 1918. Por estar conectada, via linhas de trem, a cidades maiores e cheias de infectados, como Denver, Gunnison decidiu enfrentar a gripe espanhola de maneira radical.

F.P. Hanson, o médico do condado, assumiu a liderança da força-tarefa. "Uma epidemia, terrível em proporções e mortes resultantes, está varrendo o país. Estipulei uma quarentena para ser implementada no condado de Gunnison contra o mundo. Barricadas e cercas foram erguidas em todas as principais rodovias", ele determinou.

A "quarentena contra o mundo" foi além. As autoridades fecharam escolas e igrejas, baniram festas e aglomerações, prenderam quem não respeitava as regras. Lanternas e sinais nas estradas avisavam os motoristas que, caso resolvessem parar na cidade, teriam que se submeter às restrições. Passageiros que desembarcavam na estação de trem eram imediatamente confinados. "Qualquer um pode deixar o condado, se quiser. Ninguém retornará, exceto aqueles que optem pela quarentena", disse Hanson.

No começo de fevereiro de 1919, os casos de gripe no estado diminuíram e Gunnison encerrou a quarentena. Foi uma medida prematura, pois a terceira onda do vírus chegou em março e infectou cerca de 100 pessoas. Todas sobreviveram.

Gunnison atravessou incólume pelas duas primeiras ondas, as mais letais. Nenhuma morte, nenhum infectado, ao longo de quatro meses de quarentena. A cidade foi uma das "comunidades de escape" dos EUA que sobreviveram à devastação do influenza e viraram objeto de estudos décadas depois.

"O gerenciamento da situação de gripe em Gunnison (…) é particularmente impressionante quando se considera que quase toda cidade e condado próximos foram severamente afetados pela pandemia. Gunnison foi excepcional", diz um relatório da Escola de Medicina da Universidade de Michigan à Agência de Redução de Ameaças à Defesa, do Pentágono.

Fachada em Gunnison, Colorado

É claro que, como lembra o jornalista Rory Carroll no jornal inglês The Guardian, a experiência de uma cidadezinha de Velho Oeste no meio das Montanhas Rochosas, em um mundo no fim da Primeira Guerra que tinha uma população menor e bem menos conectada do que hoje, não pode nem deve servir como guia para o que vivenciamos em 2020. Mas é alentadora.

"A Grande Pandemia de Influenza de 1918 ocorreu na era pré-antibióticos", lembra Jeremy Brown. "Apesar de antibióticos não tratarem vírus, eles tratam as infecções secundárias bacterianas que às vezes se seguem. Essas infecções secundárias causam pneumonia severa, e provavelmente foram responsáveis pela maior parte das mortes em 1918."

E como morreu gente. A gripe espanhola matou 50 milhões de pessoas e infectou um quarto de toda a população do planeta.

Gunnison passou batido. Ninguém morreu, enquanto todas as cidades vizinhas agonizavam.

Não se sabe ao certo como seus habitantes lidaram com a quarentena, pois não há registros conhecidos. Mas a população acatou, com base nas ferramentas que tinha à mão. A imprensa divulgou e alertou. Os médicos concluíram que isolamento era o melhor remédio. A polícia garantiu a ordem.

Gunnison ganhou invicta porque escutou o jornalismo profissional, respeitou o conhecimento científico disponível e teve paciência e senso de comunidade para lidar com uma pandemia assustadora. Que aula.

 

(Crédito: Getty Images)

GUNNISON E O CORONA

Gunnison parece que não esqueceu a própria experiência. Nesta semana, com os casos de covid-19 no Colorado subindo em um nível alarmante, o condado anunciou as medidas mais rígidas de todo o estado. Grupos de mais de 10 pessoas não podem se reunir e bares e restaurantes não podem servir clientes que tenham 60 anos ou mais. Gunnison fechou as portas de locais públicos e, na prática, suspendeu a vida social.

O Departamento de Saúde Pública do Colorado anunciou que todos que visitaram quatro de seus condados nas montanhas, Gunnison entre eles, devem minimizar o contato humano, mesmo que sem sintomas aparentes. Esses locais são destinos turísticos famosos no país.

Na semana passada, uma influenciadora digital casou-se em Itacaré, Bahia. Em tempos normais, o saldo seria de centenas de selfies, um punhado de posts patrocinados no "Insta" e notas em sites de celebridades. Mas em tempos de "coronga" o saldo que foi notícia foi outro, de pelo menos dez infectados.

Acredita-se que quem introduziu o vírus na milionária e praiana festança foi um convidado recém-chegado de um condado vizinho de Gunnison, Pitkin, citado pelo governo do Colorado. Você pode nunca ter ouvido falar de Pitkin, mas já ouviu o que ele tem de mais conhecido: Aspen.

O coronavírus saiu de uma estação de esqui nas Rochosas para a Costa do Cacau em menos tempo do que um homem viajado pudesse espirrar e parar para pensar que talvez estivesse infectado.

Lavem as mãos.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.