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Saudade do boteco? Conheça a montanha que funcionava como bar há mil anos

Felipe van Deursen

19/04/2020 04h00

(Crédito: Instagram)

17º06'S, 70º51'O
Sítio Arqueológico Cerro Baúl
Mariscal Nieto, Moquegua, Peru

Quantas vezes você sentiu saudade do seu(s) bar(es) preferido(s) nessa quarentena? Seja o balde no boteco da esquina, o bloody mary daquele speakeasy anacrônico, o litrão compartilhado em pé em copos americanos na praça, a bandeja de chopes passando naquele bar daquela fileira de bares muito parecidos e com idênticas bandejas de chopes passando, o gim tônica na cadeira de praia na calçada daquela rua hipster. As latas compradas em combo no isopor na porta do estádio, antes de um jogo (Brasileirão este ano?) ou de um show (semana que vem teria Metallica…). Saudade?

Um jornalista de Nova York sentiu tanta falta do seu bar de estimação que batizou sua ilha em Animal Crossing, o jogo "oficial" da quarentena, com o nome do botequim que frequentava. Mais sintomático ainda: eu já vi gente combinando de, quando tudo isso acabar, se encontrar mais vezes inclusive com aqueles amigos que "votaram errado" nas eleições. Sinal dos tempos.

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Enquanto tal dia não chega, permita-se imaginar bebendo ao ar livre com a turma. Um clima tão bom que dá até para voltar a falar de política sem ser taxado disso ou daquilo – e tudo bem.

Bem antes do Império Inca, havia Wari. Um povo que manteve, até seus últimos suspiros, uma montanha convertida em mesa de bar, o Cerro Baúl.

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Wari (ou Huari) foi uma civilização andina que habitou o litoral e boa parte das montanhas daquilo que conhecemos hoje como Peru entre os séculos 6 e 12. Eles construíram uma malha de estradas e redes de irrigação, o que os tornou cada vez mais influentes. Conquistaram muitos lugares na base da violência, com sacrifício de populações locais e cabeças decepadas em exposição.

Mas, avançando mais ao sul, ao chegar à região do Cerro Baúl, distante de duas a três semanas da capital, Huari, eles fizeram uso mais incisivo da engenharia. Em vez de tomar os férteis vales à força, instalaram-se nas áreas mais altas, fizeram canais de irrigação e introduziram a agricultura de terraços (terraceamento). O empreendimento foi bem-sucedido e eles mudaram o jogo político local.

Os canais acabaram tornando a outra grande civilização da época, os tiwanaku (ou tiahuanaco), parcialmente dependente, já que água que chegava a seus campos passavam pelos canais wari. Mas, em vez de uma conquista propriamente dita, o que se viu foi uma convivência entre os dois povos, com troca de influências culturais e econômicas e sem arroubos de invasão. Alguns especialistas consideram isso um suposto Império Wari-Tiwanaku, outros, uma espécie de guerra fria pré-incaica.

Os wari instalaram no Cerro Baúl, na ponta sul dos seus domínios, um entreposto. No topo desse platô, eles criaram um centro de entretenimento que servia banquetes e produzia chicha, bebida ancestral, fermentada ou não, feita de diversas matérias-primas diferentes e consumida até hoje em vários cantos da América Latina. A que rolava no Cerro Baúl era a mais comum das chichas, aquela que é fermentada de milho (por isso chamada na gringolândia de "corn beer", ou "cerveja de milho" – nada a ver com a sonolenta discussão "puro malte x cerveja de milho", diga-se de passagem).

Só que Cerro Baúl era um lugar atípico para tal empreitada, já que não há fontes de água natural lá em cima. Tudo dependia do sistema de irrigação.

Durante séculos, as lideranças wari receberam tanto chefes locais, seus subalternos, como representantes tiwanaku, povo que habitava a atual Bolívia e também o sudeste do Peru e o norte do Chile. Nesses encontros, comiam carne de lhamas e porquinhos-da-índia, bebiam chicha e trocavam ideias admirando a bela vista do vale de Moquegua. Tudo bastante diplomático, com direito até a templos dedicados às divindades tiwanaku.

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"Os wari queriam incorporar os povos que chegavam ao Cerro Baúl", disse à National Geographic Ryan Williams, autor de um novo estudo sobre o sítio arqueológico e chefe do departamento de antropologia do Museu Field, de Chicago, Estados Unidos. "Uma dessas formas era por meio de grandes festivais que giravam em torno da cerveja local."

A tradição durou até cerca de 1050, quando Cerro Baúl viu sua última festa. Templos e outros prédios importantes dos wari já haviam sido abandonados ou destruídos. O entreposto ficou por último. Os convivas atearam fogo na estrutura e os nobres jogaram nas chamas suas sofisticadas taças, os kero. Quando tudo estava reduzido a cinzas, alguns ainda depositaram colares e outras oferendas.

Kero, o copo cerimonial das culturas andinas. (foto: wikicommons)


Os wari então cobriram tudo de areia, o que preservou as ruínas para arqueólogos que, nos últimos anos, têm trabalhado na área. Um estudo recente, divulgado na publicação científica Sustainability, sugere que esse povo manteve a festança, mesmo com o colapso de sua civilização, graças ao fornecimento local de chicha e de taças, indicando que essa produção não dependia do poder central wari, na capital. A cerâmica dos copos era de argila local. Já as análises químicas indicaram que a chicha era feita de milho e de molle, pimenta típica do Peru. 

Estima-se que a "cervejaria" do Cerro Baúl podia produzir quase 2 mil litros de chicha por vez. Um feito em tempos pré-industriais e, especialmente, porque a bebida estragava em cerca de cinco dias. Faça as contas de boteco: dava para 200 bem dispostos convidados se entorpecerem com 10 litros cada um. Ou 4 litros para cada pessoa em uma grande reunião, para 500 pessoas.

A principal dúvida dos estudiosos permanece. Por que Cerro Baúl foi abandonado? E a pergunta integra uma questão maior: como Wari acabou? Uma grande seca que descambou em ondas de violência? Insurreições políticas? Talvez isso tudo e mais um pouco, pois hoje os especialistas tendem a acreditar que uma seca sozinha dificilmente colapsaria uma civilização que dominava com maestria o uso da água em lugares naturalmente secos.

Enquanto os especialistas seguem debatendo, Donna Nash, coautora do estudo, uniu forças com uma produtora de chicha da região para recriar a antiga bebida dos wari. Elas buscaram a forma mais autêntica possível. Usaram recipientes de cerâmica para ferver e fermentar os ingredientes e esterco de lhama para alimentar o fogaréu.

Um mês depois, o clone da diplomática chicha dos wari estava pronta. Depois, o trabalho de Nash serviu de base para uma parceria do Museu Field com a Off Colour, cervejaria de Chicago. O resultado é a Wari, cerveja que conquistou notas muito boas em fóruns cervejeiros.

Se ela no mínimo lembra a antiga chicha que os wari e os tiwanaku desfrutavam no Cerro Baúl, deve valer a pena. Uma bebida que enfeitou séculos de diplomacia merece ser venerada.

Ainda mais ao ar livre.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.