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O projeto faraônico que ergueu uma cidade fantasma no meio do nada no Irã

Felipe van Deursen

26/04/2020 04h00

Pardis (foto: divulgação)

35º46'N, 51º46'L
Pardis
Teerã, Irã

"O maior projeto de habitação social do mundo". Essa é a definição da empreiteira responsável pelo Maskan Mehr, programa lançado pelo governo do Irã. O antigo governo, porque lá se vão 10 anos e o que se vê são esqueletos erguidos aos montes, a perder de vista, e praticamente desabitados. Cenário de filme apocalíptico.

Pardis é uma cidade planejada construída na província de Teerã. Bem, na verdade ela ainda está em construção, e sua saga é um belo resumo da história recente do Irã. Concebido pelo governo Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013) como uma visão de uma sociedade mais justa e igualitária, o Maskan Mehr serviria para oferecer casa aos oprimidos economicamente.

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No papel, o plano parecia bom. Construir cidades prontas para morar, com transporte público, escolas, parques, mesquitas, hospitais e, assim, conter o êxodo que sufocava as estruturas de Teerã, metrópole de 8,6 milhões de habitantes, e de outras grandes cidades iranianas, como Mashhad e Isfahan.

Para Ahmadinejad, era o "maior empreendimento desde Adão" (o puxa-saco que disse isso, basicamente comparando-o a Deus, foi promovido a vice-presidente). O governo injetou bilhões para erguer 17 novas cidades e cerca de 1,5 milhão de moradias em prédios resistentes a terremotos. 

Prédios inacabados do Irã. (foto: Erfan Kouchari, creative commons)

Teerã oferecia a empreiteiras terras grátis para elas construírem residências para a população de baixa renda. A maioria das pessoas tinha dificuldade para pegar até pequenos empréstimos nos bancos, então o governo concedia hipotecas de 99 anos para quem aderisse ao programa. As instituições financeiras garantiam o meio de campo entre governo e construtoras e o Banco Central imprimia mais dinheiro para garantir o esquema.

Prédios a perder de vista. E vazios. (foto: divulgação)

Essa e outras medidas econômicas de Ahmadinejad, além de sanções internacionais impostas ao Irã, levaram a inflação anual, de cerca de 10% em 2010, a quase 40% em 2013. O projeto tornou-se inviável para empreiteiras, que pularam fora. Os preços das unidades prontas dispararam a ponto de ficar difícil até para a classe média, que dirá para os mais pobres, foco inicial do programa. O projeto de habitação para os mais necessitados não deslanchou.

Em 2013, logo que assumiu, o atual presidente, Hassan Rouhani, declarou que o Maskan Mehr era um dos maiores entraves da economia do país e o principal culpado pela crescente inflação. Pardis foi planejada para ter 600 mil habitantes, mas, em 2016, data do último censo, tinha 73 mil.

Do alto, como lembrou o site Messy Nessy, ela lembra a Ville Radieuse, o projeto não realizado de cidade do futuro proposto por Le Corbusier em 1924 (e que inspirou largamente a construção de Brasília). Uma versão mambembe e tosca da Ville Radieuse, que ignorou o impacto ecológico do entorno e que deixou 200 mil unidades sem acesso a água encanada, aquecimento e saneamento básico.

O "maior empreendimento desde Adão" virou um Jardim do Éden com frutas que apodreceram no pé.

 

 

 

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.