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O bosque na Suécia que esconde um misterioso cemitério de carros antigos

Felipe van Deursen

10/05/2020 04h00

    (Crédito: Getty Images)

59º21'N, 11º50'L
Bastnäs
Årjäng, Värmland, Suécia

Bastnäs é um campo de mineração histórico na Suécia. Há registros de atividades em suas minas desde pelo menos 1692. No século 19, dois elementos foram descobertos lá, o cério e o lantânio, e o mineral bastnasita deve seu nome à região.

No século 20, dois outros elementos – humanos, no caso – fizeram dos bosques de Bastnäs um dos lugares mais pitorescos do país. A partir da década de 1950, misteriosos irmãos acumularam carros abandonados para desmontá-los e vender suas partes, especialmente do outro lado da fronteira com a Noruega, dois quilômetros a oeste.

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Até os anos 80, eles compravam, desmontavam e revendiam peças de automóveis de montadoras como Buick, Fiat, Ford, Opel, Saab, Sunbeam, Volkswagen e Volvo. Com o tempo, a natureza começou a se apossar daquelas carcaças, moldando um lúgubre cemitério automotivo. 

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

Hoje, o local atrai a atenção de fotógrafos e curiosos (como os leitores deste blog), o que não parece incomodar os responsáveis pelo acervo – até certo ponto, pois há regras explícitas. Pregada em uma porta, há a mensagem:

"Este cemitério de carros é propriedade privada. Você pode olhar, tirar fotos MAS NÃO PODE levar partes. Não destrua nem corrompa este lugar. Se você abrir uma porta de carro, por favor feche-a de novo para que o próximo visitante tenha a mesma experiência que você teve! Para sua informação: após cerca de 30 roubos este ano eu estou farto! Eu fiz armadilhas, então se você se machucar ou morrer EU NÃO LIGO! Lembre-se que nesse lugar ninguém pode ouvir você gritar…"

 

O traço de civilização mais próximo é um punhado de casas a mais de 4 km floresta adentro. O núcleo urbano do município de Årjäng, que ao todo tem só 10 mil habitantes, fica a 40 minutos de carro. Então é bom levar a sério o aviso. 

(Crédito: Getty Images)

A ORIGEM DO CEMITÉRIO

Não se sabe ao certo, mas há rumores que indicam que a coleção de carros começou quando os militares americanos deixaram a Suécia após a Segunda Guerra. O país se manteve neutro no conflito, realidade bem diferente da de seus vizinhos – a Finlândia foi invadida pela União Soviética em 1939, retornando à condição que teve ao longo de quase todo o século 19. A Dinamarca foi anexada pela Alemanha nazista, que também invadiu a Noruega, em 1940.

Isso não significa que a Suécia passou batido pela guerra. Lidou com os dois lados em conflito. Ela exportou minério de ferro para a indústria de guerra nazista e concedeu homens à marinha mercante britânica. Auxiliou o governo exilado norueguês no treinamento de tropas e sofreu bloqueios navais tanto de alemães como de ingleses. O que nos dá uma ideia do que significava a neutralidade em tempos de guerra, quando muitas vezes a sobrevivência e a oportunidade falam mais alto (mais sobre o papel da Suécia, e também dos também neutros Portugal e Suíça, aqui).

Em 1945, os suecos auxiliaram os americanos na liberação da Dinamarca e da Noruega e a partir dessa ação os carros dos Estados Unidos começaram a alimentar a futura coleção de Bastnäs. Desde antes da guerra e até 1948, a Chevrolet foi a marca mais popular do país, quando foi destronada pela Volvo, orgulho pátrio.

Mas é mais provável que a origem do cemitério seja outra, mais local e trivial. Desde 1734, o tráfego de carruagens, charretes e afins na Suécia era orientado pela esquerda das vias – a mão-inglesa, como chamamos. Nas primeiras décadas do século 20, com a popularização dos automóveis motorizados, o Parlamento discutiu se não era o caso de trocar de lado na rua e seguir o padrão adotado pelos vizinhos escandinavos.

Em 1955, um referendo consultou a população sobre a mudança. Houve campanhas ferrenhas dos dois lados (da pista). Os que defendiam a adoção do sistema universal, ou seja, veículos à direita, se basearam mais em argumentos racionais, fatos e estatísticas. Já os conservadores, que preferiam manter a mão-inglesa, com os carros à esquerda, descambaram para o populismo apelão. Diziam que velhos hábitos não podiam ser abandonados e que uma mudança assim colocaria em risco a população. "Você quer ver sua mãe morta em um acidente?", questionavam, na cara dura.

Quem você acha que ganhou?

Com acachapantes 83% dos votos, a turma da mão-inglesa venceu. Mas o debate continuou pelos anos seguintes, o lobby para a mudança cresceu e, oito anos depois, em 1963, o Parlamento decidiu que, eventualmente, o trânsito na Suécia mudaria de lado, não importava a opinião do cidadão quanto ao perigo ou não que sua mãe corria.

Na verdade, importava, sim. Além de definir 1967 como o ano da transição, o governo criou um comitê de segurança no trânsito, que implementaria, entre outras medidas, novidades como limite de velocidade.

O domingo, 3 de setembro de 1967, ficou conhecido como Dia H (de högertrafik, "tráfego à direita", em sueco). Durante a madrugada, somente veículos essenciais poderiam transitar. Os operários da mudança trocaram cerca de 360 mil placas e sinalizações de rodovias, cruzamentos, rotatórias etc. Às 4h50, todos os que estavam na rua pararam. Durante 10 minutos, onde quer que estivessem no território nacional, eles mudaram de faixa e aguardaram. Às 5h, a Suécia inteira passou a dirigir pela outra mão.

Estocolmo, 3 de setembro de 1967: o país abandona a mão-inglesa (domínio público)

As ruas ganharam cerca de 130 mil sinais com um grande H de lembrete aos motoristas, que também colavam um adesivo em forma de H no painel do veículo, com o mesmo intuito. Isso porque a nova orientação do tráfego não impôs uma mudança de posição do volante.

Apesar de os suecos terem conduzido seus veículos, motorizados ou não, por mais de 200 anos pela esquerda, os volantes não ficavam à direita, como nos carros ingleses, mas à esquerda, como nos americanos. Quem explica é Assar Gabrielsson, cofundador da Volvo, em seu livro de vendas de 1936: "Quando os automóveis apareceram na Suécia, estradas eram estreitas e curvas. Era muito difícil passarem um cavalo e uma carroça ou um outro carro, e você tinha que se concentrar no lado esquerdo da estrada. Carros americanos eram sempre entregues com volantes no lado esquerdo, e para um mercado tão pequeno como a Suécia eles eram relutantes em mudar para a direção no lado direito. Consequentemente, vendedores de carros americanos na Suécia sempre exageravam as vantagens do lado esquerdo". 

Era simplesmente caro demais converter os carros para um público tão pequeno como o sueco. Logo, apesar do tráfego em mão-inglesa, o povo se acostumou com a direção à esquerda dos veículos americanos, então os mais populares no país, como vimos.

Carros com direção à direita sempre foram raros na Suécia, antes ou depois de 1967. Por isso as carcaças do cemitério de Bastnäs têm o volante, quando ele ainda existe, na esquerda. 

A criação dos misteriosos irmãos seria fruto, então, de uma época de muitas e radicais mudanças no trânsito. Não só a mão mudou como novas regras, de velocidade, de conduta, de segurança, surgiram. Para uma vida nova nas ruas, novos carros, propiciados por um aumento mais parrudo do PIB per capita na década de 1970.

E os velhos carros foram ficando para trás, sumindo em um misterioso bosque, graças a dois irmãos que, mesmo que sem querer, construíram um museu ao ar livre só para vê-lo ser tragado pela natureza e convertido em um ferro-velho camuflado entre abetos, pinheiros e bétulas.

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

 

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.