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Efeito covid: cidade mais fria do mundo cancela festival de início do verão

Felipe van Deursen

21/06/2020 04h00

62º11'N, 129º46'L
Us-Khatyn
Yakutsk, República de Sakha (Iacútia), Rússia

Yakutsk resiste sobre o permafrost. É a maior cidade do mundo erguida em solo congelado, o pergelissolo. Fica a meros 450 km do Círculo Polar Ártico, não tem estradas para outros municípios e a maioria dos aviões não tem condições de pousar no aeroporto, já que não foram feitos para operar em temperaturas abaixo de -40ºC, o que é comum no inverno, quando a média é de -34ºC.

Sim. MENOS TRINTA E QUATRO GRAUS. Em média.

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O clima subártico continental extremo lhe rendeu o título de cidade mais fria do mundo (o que é disputado com outras gélidas concorrentes na Rússia, no Canadá ou na Mongólia). Casas podem afundar no chão, porque a pressão exercida pela estrutura descongela o solo. Então, engenheiros precisam recorrer ao termossifão, um sistema de troca de calor que mantém a terra congelada. O frio abismal força os celulares a precisarem de recarga o tempo todo: uma gracinha no TikTok suga sua bateria como se fosse uma live interminável de um coach.

Vegetais frescos, só em estufas. No Kingdom Permafrost, um museu cavado no gelo, o visitante pode admirar esculturas de gelo e beber vodca local em copos igualmente de gelo.

O longo inverno é cruel. Termômetros já registraram temperaturas abaixo de -60ºC na região.

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

Quando o breve verão desponta, Yakutsk celebra.

Na verdade, toda a Iacútia comemora. É a chegada do ano novo.

Yhyakh, a chegada do verão para os iacutos

O Yhyakh é uma celebração ancestral dos sakhas, ou iacutos, povo turcomeno que habita majoritariamente a República de Sakha. O território, também chamado de Iacútia, fica no leste da Rússia e é repleto de montanhas, rios e taiga, com uma área maior que a da Argentina e população menor que a de Maceió.

Os russos conquistaram a Iacútia no século 17. O ouro, a ferrovia Transiberiana e o período soviético ameaçaram a cultura e a religião dos iacutos, mas eles resistiram e, apesar do avanço da Igreja Ortodoxa na região, mantiveram muitos de seus costumes religiosos e ancestrais.

O Yhyakh é um exemplo que, desde o fim da União Soviética, ganhou nova força, especialmente neste século. Mas, pela primeira vez, graças à pandemia de covid-19, as celebrações em 2020 ficaram restritas à internet.

Competições de tudo que é tipo se espalham entre hashtags nas redes sociais ao longo do mês. Tem dança, jogos de tabuleiro, exibições de trajes tradicionais, artesanato, poesia, trava-línguas, pratos feitos em casca de bétula, produtos para crina de cavalo. Além disso, debates, tours virtuais e concertos marcam esse Yhyakh do distanciamento social. Não fosse a pandemia, o festival aconteceria neste domingo, 21 de junho.

Em outros tempos, a festa é pura aglomeração humana ao ar livre, como não poderia deixar de ser. O clima continental – Yakutsk fica a quase 1.000 km do Pacífico – propicia verões muito mais quentes do que em cidades em latitudes mais baixas, mas expostas à influência do oceano, como Vladivostok. Na curta estação, o termômetro passa dos 30ºC. Ou seja, entre janeiro e julho os habitantes experimentam um ganho de mais de 60ºC.

No Yhyakh, os iacutos enaltecem o solstício de verão e honram divindades da natureza, em mais um ciclo de abundância, fertilidade e renovação que se inicia. O festival começa com uma oração em um altar circular e segue para as apresentações e competições, que este ano ficaram restritas às transmissões online. Em seguida, saúda-se o nascer do sol. É o começo do dia mais longo do ano.

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A maior festa acontece em Us-Khatyn, grande clareira próxima a Yakutsk que recebe cerca de 200 mil pessoas, da Iacútia e de outros lugares, para dançar, comer espetinhos de carne de cavalo e tomar kumis, bebida de leite de égua fermentado, com baixa graduação alcoólica e uma tradição em diversos locais da Ásia. Isso até 2019.

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O ano novo dos iacutos chegará de maneira diferente. Seja sintoma do "novo normal" ou só um ponto fora da curva da história, uma coisa é certa: o solstício de verão dos próximos anos está garantido. Ainda bem.

 


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.