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A pandemia que deu origem ao Drácula, na Irlanda (e não na Transilvânia)

Felipe van Deursen

09/08/2020 04h00

(Crédito: iStock)

54º16' N, 8º28'O
Sligo
Connacht, Irlanda

Uma pandemia de cólera atravessou o mundo, do Japão às Américas, entre 1826 e 1837. Foi a segunda pandemia da doença, logo depois da primeira, que se espalhou da Índia ao Mediterrâneo entre 1817 e 1824. Vislumbre o caos.

A doença matou centenas de milhares de pessoas, especialmente na Rússia e na França. Ao Reino Unido – que àquela época incluía toda a ilha da Irlanda, além de Inglaterra, Escócia e País de Gales – o cólera chegou em 1831, por meio de navios vindos do Báltico. No ano seguinte, a moléstia desembarcou na cidade portuária de Sligo, no noroeste do país.

(Crédito: iStock)

O surto matou cerca de 10% da população de Sligo em 1832. Uma das sobreviventes era Charlotte Thornley, uma menina de 14 anos. Se qualquer coisa que se passa na vida a essa idade tem enormes chances de ficar impressa na memória para sempre, imagine quem testemunha cenas de uma pandemia mortal no século 19.

Charlotte se escondeu em casa e depois fugiu da cidade com a família. Sligo viveu um pandemônio. Para evitar que o cólera se espalhasse, estradas foram bloqueadas e trincheiras, cavadas. Sligo ficou isolada do mundo, em uma quarentena forçada.

(Crédito: iStock)

O sistema de saúde colapsou, o funerário entrou em pane. Corpos ficavam nas ruas, porque os marceneiros não conseguiam suprir a funérea gula por caixões. Dos cerca de mil mortos, metade acabou enrolada em lençóis e sepultada em uma cova comum.

A maioria dos médicos e enfermeiros morreu da doença, boa parte do clero fugiu e os moradores que ficaram, isolados e, por ora, vivos, explodiram em revolta. À medida que a "bactéria FDP" se espalhava, enfermeiras desesperadas dopavam os doentes com láudano ou ópio e os colocavam nas covas, segundo Charlotte. Uma forma sutil de dizer que eles foram enterrados vivos.

(Crédito: iStock)

"Sligo virou uma cidade dos mortos", escreveu Charlotte em um relato sobre a epidemia encomendado por seu filho. Seu nome era Bram Stoker.

As lembranças de Charlotte foram uma grande influência para Bram escrever seu grande clássico, Drácula, em 1897. É o que defende a Sociedade Sligo Stoker, grupo que se baseia no trabalho de pesquisadores para estudar as conexões entre a cidade e o autor. De acordo com Fiona Gallagher, historiadora especializada na pandemia de cólera na Irlanda, em entrevista ao site Atlas Obscura, o relato de Charlotte é fidedigno.

A primeira edição de "Drácula"

A inspiração mais famosa de Drácula foi um monarca do Leste Europeu. Vlad, rei da Valáquia (na atual Romênia), instituiu um governo de terror em 1448. Seu método de tortura preferida lhe rendeu o título "O Empalador", mas ele talvez teria sido uma figura esquecida fora de seu país não fossem as pinturas – exageradas – que o mostravam banqueteando em frente a corpos empalados, além das lendas sobre o hábito de embeber seu pãozinho do almoço em sangue humano.

Mas, hoje, sua imagem está irremediavelmente ligada à do Conde Drácula, graças a histórias como essas, que se espalharam da Turquia à Inglaterra por mais de 400 anos e que semearam a mente de Stoker. O autor, por sua vez, é a pedra fundamental do turismo de terror da Romênia. Na história, Drácula se muda da Transilvânia, região na Romênia central, para a Inglaterra à procura de sangue.

A Transilvânia tem cidades medievais, castelos e montanhas que, por si só, atraem visitantes. A mística do Drácula adiciona um charme gótico irresistível para muitos, e a indústria do turismo local tira proveito à sua maneira, enaltecendo a conexão entre Vlad e o personagem.

(Crédito: iStock)

Sligo quer seguir essa trilha. É uma cidade litorânea pitoresca, com 20 mil habitantes, cercada por florestas densas e montanhas verdes. Além disso, fica na Irlanda natal de Stoker e sua história tem uma ligação muito mais próxima com o escritor do que as histórias exageradas que se ouviam sobre um rei sanguinário que viveu em outros tempos, em terras distantes. Bônus literário: o poeta W.B. Yeats, Prêmio Nobel em 1923, passou a infância em Sligo, e a cidade foi uma grande inspiração para sua obra.

O prédio onde Charlotte viveu ganhou uma placa explicativa, grafites em homenagem a Stoker e ao Drácula se espalharam nos últimos anos e passeios guiados recontam a ligação entre a sobrevivente da pandemia e o personagem. Chegou a hora de Drácula enaltecer seu sangue irlandês.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.