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Terra à vista!

Na África, "quádrupla fronteira" virou meme e é um santuário de vida animal

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Felipe van Deursen

01/11/2020 04h00

(Crédito: iStock)

17º47'S, 25º15'L
Ilha Kakumba
Kabbe do Sul, Zambeze, Namíbia

Uma forma de qualificar o impacto cultural de uma obra de arte é analisar a capacidade dela de gerar memes. Releituras e remixes atualizam tal obra e a mantêm presente em nosso imaginário. Nesse sentido, poucas se comparam à Criação de Adão, o ultrafamoso afresco de Michelangelo na Capela Sistina, no Vaticano.

Sério, jogue no Google. É uma profusão renascentista de paródias.

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Até na subpasta dos memes geográficos essa pintura está presente. Nesta versão, Deus é o mapa do Zimbábue e Adão, o da Namíbia.

O dedo de Adão, no caso, é a Faixa de Caprivi, um território que, como em tantos episódios no continente, é fruto das trapalhadas e da ganância do colonialismo europeu na África.

Em 1890, os impérios Alemão e Britânico negociaram uma troca de territórios no continente. Os teutônicos abriram mão do sultanato de Zanzibar, reino cujo controle vinha sendo disputado com os ingleses nos últimos anos. Em contrapartida, eles receberam o pequeno arquipélago de Heligoland, no Mar do Norte, a região costeira de Dar es Salaam, na África Oriental, e uma faixa de terra no sul da África que recebeu o nome do então chanceler alemão, Leo von Caprivi, que assinou o acordo.

Leo von Caprivi, chanceler alemão entre 1890 e 1894. (imagem: wikicommons)

Que territórios eram esses? Heligoland, uma antiga possessão dinamarquesa, teria função estratégica no controle do Canal de Kiel, que ligaria o Mar do Norte ao Mar Báltico. Além disso, as ilhas, no norte da Alemanha, seriam usadas no desenvolvimento da marinha (o país, à época, era a potência em franca ascensão na Europa).

Dar es Salaam era a maior cidade costeira de Tanganica, território que os alemães conquistaram em 1884. Os ingleses deixaram o litoral, concentrando-se na ilha de Zanzibar, que usariam como ponto estratégico para controlar suas possessões na África Oriental. Os alemães, por sua vez, sem a concorrência na costa, formariam a colônia África Oriental Alemã. Já a Faixa de Caprivi conectaria outra colônia germânica, a África do Sudoeste, aos territórios do império do outro lado do continente. O território fazia parte do Protetorado de Bechuanalândia, a colônia britânica que daria origem à moderna Botsuana.

Teoricamente, os alemães queriam essa tripa de terra, cuja largura varia de 32 a 105 km, para ter acesso ao rio Zambeze, um dos principais da África e o maior dentre os que deságuam no Oceano Índico.

FOI PEGADINHA?

(Cataratas de Vitória, no  rio Zambeze. Crédito: iStock)

Aqui começa a piada, que foi muito difundida, de que os alemães não estudaram os mapas direito e queriam acesso a um rio inavegável. Afinal, o Zambeze é onde ficam as famosas Cataratas de Vitória.

Há outras explicações, mais plausíveis. "Era sabido que o rio não é navegável desde que Livingstone 'descobriu' as Cataratas de Vitória em 1855", dizem Dick Hodder, Sarah J. Lloyd e Keith McLachalan em Land-locked States of Africa and Asia. "A Faixa também é cortada por dois grandes rios, o Cubango (Okavango) e o Cuando (Linyanti ou Chobe), com grandes áreas de pântanos sazonais intransponíveis, que fazem o acesso ao longo do Zambeze extremamente difícil. [O acordo] Pode ter sido visto pelos diplomatas de Berlim como um empurrão na então indefinida esfera alemã na África Oriental para cortar o eixo britânico Cabo-Cairo."

(Faixa de Caprivi. Crédito: iStock)

Naquela época havia um projeto para a construção de uma ferrovia ligando a Cidade do Cabo ao Cairo, rasgando a África de sul a norte através dos territórios britânicos. Esse "era o sonho de Cecil Rhodes, magnata do diamante e fundador da Rodésia (quando ele não estava tramando para devolver os EUA ao controle britânico)", diz o The New York Times. A Rodésia, aliás, era a colônia que deu origem aos atuais Zimbábue e Zâmbia.

Ou seja, não é que a Alemanha queria navegar por um rio intransponível. Ela queria ter e ser uma pedra no sapato da rainha e atrapalhar os ousados planos de dominação britânicos, da África do Sul ao Egito.

Mas a ferrovia nunca saiu do papel, e a Faixa de Caprivi também se mostrou um fracasso para os alemães. A colonização da África do Sudoeste foi traumática, marcada pelo que é considerado o primeiro genocídio do século 20, o massacre dos povos hereros e namas, uma atrocidade que serviu, segundo alguns autores, de inspiração para os nazistas.

(Crédito: iStock)

Derrotada na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha perdeu seus territórios no continente. A África Oriental Alemã (Tanganica) passou para as mãos dos britânicos – em 1964, ela se uniria a Zanzibar e formaria a Tanzânia. Já a África do Sudoeste foi ocupada pela União da África do Sul, antecessora da moderna República da África do Sul, em 1915.

O estranho formato da faixa, habitada por povos como os lozis, motivou o isolamento cultural. O governo sul-africano chegou a instituir ali, em 1972, um bantustão, território artificial e segregacionista que o regime do apartheid criava para separar negros e brancos. Nos anos 70 e 80, conflitos armados na região afetavam não só os habitantes como também a natureza. Muitos animais fugiram para países vizinhos.

(Crédito: iStock)

A situação começou a melhorar a partir de 1990, com a independência da África do Sudoeste e a adoção, oficialmente, do nome que já vinha sendo usado para o país: "Namíbia", inspirado no deserto costeiro de Namibe. Mas, ainda nos anos 90, um grupo armado tentou separar a Faixa de Caprivi do resto do território. Ela chegou a ser rebatizada de "Itenge".

Nos últimos tempos, mais tranquilos, os animais retornaram e, graças a eles, o turismo cresceu. Caprivi hoje é considerada um destino alternativo de safáris, uma hipsterlândia da turma das calças beges.

Há pouca ocupação humana, muita natureza bruta e a maioria dos parques não têm cercas, o que permite, por exemplo, assistir ao espetáculo da migração de elefantes. Caprivi fica no caminho entre o leste de Angola e o Delta do Cubango, em Botsuana (a maior foz de rio do mundo dentre aquelas que não desaguam no mar, mas no interior do continente). Não é raro deparar com mais 100 elefantes juntos.

(Crédito: iStock)

CONSEQUÊNCIAS INESPERADAS

Os elefantes não dão a mínima para os problemas geopolíticos criados pelos humanos. A Faixa de Caprivi é uma invenção cartográfica bem estranha. Até os anos 2000, havia uma confusão se a pontinha no extremo leste dela formava uma fronteira quádrupla, a única do mundo, entre Namíbia, Botsuana, Zimbábue e Zâmbia.

Isso gerava problemas. Na década de 1970, a África do Sul, que então dominava a Namíbia, como vimos, se opôs à construção de uma rede de balsas ligando Botsuana e Zâmbia, dizendo que era ilegal. O exército da Rodésia (atual Zimbábue) chegou a atacar a balsa, alegando seu uso militar pelos vizinhos.

Em 2007, o imbróglio ganhou solução. Zâmbia e Botsuana construíram uma ponte para substituir as barcas. Ela passaria unicamente pela fronteira entre os dois países, o que eliminou a ideia de uma fronteira quádrupla.

Então, ficou assim. De um lado, no último respiro de Caprivi, temos Namíbia, Botsuana e Zâmbia formando uma tríplice fronteira. Do outro, 100 m adiante no Zambeze, Botsuana, Zâmbia e Zimbábue têm outra tríplice fronteira. Esse espaço de 100 m é, portanto, a divisa entre Botsuana e Zâmbia, hoje marcada pela ponte. Esta foto ajuda a visualizar:

Rio Zambeze: as ilhas no canto superior esquerdo são o finzinho da Faixa de Caprivi, na Namíbia. A área à esquerda, mais árida, é Botsuana. A ponta verde no canto inferior direito é o Zimbábue. E a área no topo direito, do outro lado do rio, é Zâmbia. A imagem é anterior à construção da ponte que liga Botsuana e Zâmbia. (foto: Brian McMorrow/wikicommons)

Ou seja, Namíbia e Zimbábue não fazem fronteira por causa de ridículos 100 m. Olhando atentamente, Deus não chega a tocar o dedo de Adão na obra-prima de Michelangelo, da mesma forma que, na obra-tosca de alemães e ingleses, os dois países não se encostam, apesar de parecer que sim. O que deixa o meme que citei lá em cima ainda mais legal.

via GIPHY

Os impérios podem ter caído, os homens que tramaram isso podem ter morrido, mas as consequências do neocolonialismo seguem bem vivas. Muitas guerras, tragédias humanitárias e governos inviáveis se desenrolaram. Houve também outras pequenas crises diplomáticas, como o da suposta quádrupla fronteira, e algumas anedotas.

Quando os ingleses resolveram com os alemães que eles assumiriam o controle de Zanzibar, súditos da Índia britânica começaram a desembarcar na ilha. Um deles era um casal de parsis de Gujarat, que se mudaram para o protetorado a trabalho. Lá, deram à luz Farrokh Bulsara, o menino que se tornaria Freddie Mercury (falo dessa história em um texto sobre Zanzibar, aqui, ó)

Então, na próxima vez que ouvir Queen, lembre-se do bigodudo. Ele mesmo, Leo von Caprivi.

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.