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Terra à vista!

O "reino da felicidade" que derrotou a malária e só teve um morto por covid

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Felipe van Deursen

14/02/2021 04h00

Punakha Dzong, no Butão (Crédito: iStock)

27º35'N, 89º52'L
Ponte suspensa de Punakha
Punakha, Butão

Para nós, brasileiros, o Butão é um país de difícil localização no mapa-múndi e fácil uso para piadas infames. É um reino montanhoso, encravado no Himalaia, repleto de picos e desfiladeiros. Com poucas estradas, a população conta muitas vezes com pontes suspensas para ir de um lugar a outro.

A mais famosa dessas pontes é a que fica em Punakha. É a segunda ponte pênsil mais longa do Butão, com 170 m de extensão sobre o rio Po Chhu.

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(Crédito: iStock)

Punakha é conhecida, principalmente, por ter sido capital do país por 270 anos. É lá que fica o segundo mais antigo e o segundo maior dzong do país. Dzong é uma construção típica do Butão e do Tibete que tem funções militares, religiosas, administrativas e burocráticas. O Dzong de Punakha é também conhecido como "palácio da grande felicidade".

Felicidade é praticamente um produto cultural do país desde que o rei Jigme Singye Wangchuck passou a difundir, no fim dos anos 1990, o conceito de Felicidade Interna Bruta, uma contrapartida paz-e-amor ao Produto Interno Bruto (PIB). Sabe aquela busca incessante pela felicidade, muitas vezes doentia, que tomou o Ocidente? O Butão, ou a imagem que se criou dele, colaborou um tanto.

(Crédito: iStock)

A fama de país mais feliz do mundo colou, apesar de alguns fatos não colaborarem nem um pouco. O Butão pode ter influenciado a ONU a criar um índice de felicidade global, mas ele fica lá no meio da tabela no ranking entre todos os países do planeta. É um país com casos escabrosos de xenofobia. Nos anos 2000, um sexto da população de origem nepalesa e de fé hindu do Butão foi expulsa do país, porque ela não se integrava à cultura budista local.

Ainda assim, por mais que essa história de país feliz e sorridente tenha doses hiperglicêmicas de marketing, esse pequeno reino tem, sim, o que comemorar. Até o momento, está derrotando uma epidemia e uma pandemia – ao mesmo tempo.

INIMIGO NÚMERO 1: MALÁRIA

O governo do Butão começou a combater a malária, considerada a doença que mais matou gente na história da humanidade, nos anos 1960. De um pico de 40 mil casos em 1994, o número caiu para 54 em 2018.

Lutar contra a malária em um país como o Butão tem desafios particulares. A doença é causada por protozoários do gênero Plasmodium, que são transmitidos pela picada da fêmea do mosquito Anopheles. A melhor forma de evitar a malária, portanto, é evitar o mosquito. Acontece que o Butão é um país bastante religioso, e budistas têm aversão a matar qualquer forma de vida, sejam baratas, minions ou mosquitos.

Rinzin Namgay, o primeiro entomologista do Butão, lembra, em entrevista à BBC Future, que era preciso jogo de cintura para convencer a população a colaborar. Usavam-se argumentos como: "Nós estamos dedetizando a casa, apenas. Se um mosquito quiser cometer suicídio entrando nela, deixe!". Muitas vezes, a polícia precisava intervir para facilitar a dedetização.

A resistência a matar mosquitos nos primeiros anos era um problema menor, porque o Butão precisava lidar constantemente com um desafio enorme chamado Índia. A maior parte do sul do Butão faz fronteira com o estado indiano de Assam, que há 30 anos tem conflitos separatistas com o governo em Nova Délhi.

Ondas de violência provocam êxodo, e muitas famílias fugiram para o Butão na década passada. Além disso, houve casos de agressão a médicos e de sequestro de butaneses, o que não ajudou no trabalho conjunto entre profissionais de saúde dos dois países.

(Crédito: iStock)

Uma invenção humana efetiva contra mosquitos: telas de proteção em portas e janelas. Uma invenção humana inútil contra mosquitos: fronteiras.

Pessoas cruzam fronteiras todos os dias para trabalhar, passear, fazer compras. Em crises sanitárias, como a epidemia de malária no Butão e em Assam, os governos precisam estar em sintonia, apesar das diferenças. Um país que encara uma crise sanitária contagiosa com seriedade vê todo seu trabalho ameaçado se o governo vizinho for negacionista e irresponsável. Pegue a dengue: pouco adianta você não deixar água parada em casa se seu vizinho larga os vasos de planta no quintal.

Com uma política de saúde pública robusta e com o comprometimento da população, o Butão conseguiu diminuir drasticamente os casos de malária, o que foi logo seguido pela Índia. Outras áreas fronteiriças que sofrem com a doença vêm acompanhando o caso, como Senegal e Gâmbia, as duas Coreias, Haiti e República Dominicana, Arábia Saudita e Iêmen ou China e Mianmar.

Tudo caminhava bem, a ponto de se esperar que, até 2020, a malária estaria erradicada de vez do país. Aí, minha amiga, chegou a pandemia.

INIMIGO NÚMERO 2: COVID-19

Em 5 de março de 2020, quando o primeiro caso de infecção pelo então novo coronavírus foi confirmado, o governo instituiu uma série de medidas de contenção. O Butão foi um dos primeiros países do mundo a fechar as fronteiras – algo não muito estranho à população, já que o reino abriu as portas a visitantes estrangeiros somente em 1974 (foram 287 pioneiros, para ser exato).

No início da pandemia, Rui Paulo de Jesus, representante do Butão na OMS, disse à Deutsche Welle que eles localizaram e puseram em quarentena todas as 300 pessoas com quem o primeiro infectado (um turista americano) teve contato em apenas seis horas. É claro que uma missão dessas é mais simples em um país isolado, com controle rígido de entrada de estrangeiros e pouco povoado como o Butão (uma população parecida com a de Nova Iguaçu, 763 mil, espalhada em uma área pouco menor que a do estado do Rio de Janeiro). Mas ainda assim a empreitada foi bem-sucedida e elogiada.

(Crédito: iStock)

Esses fatores geográficos ajudaram bastante, mas o país conseguiu evitar o pior graças a uma série de motivos: o primeiro-ministro, Lotay Tshering, e o ministro da saúde, Dechen Wangmo, têm experiência em saúde pública. Eles não demoraram a agir, não menosprezaram a doença e, obviamente, ouviram a ciência. Por fim, a população tem um nível relativamente elevado de respeito à classe política e um alto senso de coletividade e de solidariedade. Isso em um país pobre, que começou a pandemia com apenas 337 médicos, menos de 3 mil profissionais de saúde e somente uma máquina de PCR.

Pausa para você respirar e pensar: ah, que bom seria…

Até esta semana, o reino himalaio tinha um total de 861 casos confirmados e uma única morte. No mês passado, em um olé diplomático involuntário sobre um certo gigante sul-americano, o país foi o primeiro a ser agraciado com vacinas fabricadas na Índia. Um total de 150 mil doses da Covishield, nome local da vacina Oxford-AstraZeneca, chegou à capital, Timfu, em 20 de janeiro. Era parte do pacote que o governo brasileiro, inocentemente, achou que iria buscar naquela constrangedora missão do avião adesivado.

Mas o sucesso contra a covid teve um preço. Em meados do ano passado, os casos de malária voltaram a subir, enquanto todos os olhos da saúde pública estavam voltados para a pandemia. O resultado disso é que o Butão ainda não conseguiu erradicar a doença, o que estava previsto para acontecer no ano passado.

O caminho, porém, está traçado e o país deve chegar lá. Parece arriscado e frágil, mas vai dar certo, acreditam os especialistas. Com políticas públicas e comprometimento da sociedade, será uma travessia segura. Como cruzar a ponte de Punakha.

(Crédito: iStock)

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.