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Terra à vista!

O pouco conhecido país do Oriente Médio que quer fazer sua "Torre Eiffel"

Felipe van Deursen

28/02/2021 04h00

23º35'N, 58º23'L
Grande Mesquita do Sultão Qaboos
Muscate, Muscate, Omã

Os países do Oriente Médio que povoam o imaginário das pessoas o fazem, grosso modo, em duas vias: ora a encrenca religiosa ou territorialista ora a pujança nababesca dos petrodólares. Pelas nuances dessa divisão tosca, como se fosse uma sala de aula de comédia oitentista, entre encrenqueiros e playboys, caminham os que passam batido, aqueles quase anônimos das rodas de fofocas do noticiário internacional.

O mais notável dos discretos é Omã.

É um país cuja economia depende de petróleo e gás, sim. Mas sem aquele fator camarote-de-balada-festa-na-lancha-carro-conversível que alguns vizinhos esbanjam.

Pelo menos por enquanto, porque Omã quer investir mais no turismo do "cartão postal ostentação". Se a discrição tem sido um bom recurso diplomático, ela pode deixar Omã à sombra, especialmente quando se tem vizinhos emergentes e muitas vezes escandalosos em termos arquitetônicos, como lembra o jornalista Dominic Dudley no site da revista americana Forbes.

O centro de Riad tem o Kingdom Centre e o Al Faisaliyah frente a frente. Manama tem o Bahrein World Trade Center, com um trio de turbinas eólicas. A Cidade do Kuwait ostenta suas torres de água na beira do Golfo Pérsico. Dubai, a campeã no quesito, tem o prédio mais alto do mundo e oferece basicamente um pacote completo do tipo, de ilha artificial em forma de palmeira a esqui no deserto.

Muscate, a capital de Omã, tem um queimador de incenso gigante no topo de um morro. Nenhum marco arquitetônico suntuoso.

O emirado não recebe nem um quarto dos visitantes estrangeiros que chegam a Dubai anualmente, então o governo anunciou, ano passado, que há planos para uma obra megalomaníaca do tipo.

Tudo bem, é fácil lembrar que existem exemplos de cidades sem uma "Estátua da Liberdade" e que, mesmo assim, recebem turbas de visitantes todo ano. Praga, Budapeste, Madri, Lima, Miami não têm um grande monumento-símbolo, mas um punhado de marcos, menos icônicos que um Coliseu, porém conhecidos e associados a essas metrópoles. Amsterdã não tem sequer uma praça ou igreja que sintetize sua imagem para valer, mas ainda assim sofre com excesso de turistas, muito porque seu charme reside justamente no conjunto arquitetônico histórico como um todo (além de outros atributos).

Só que nada como a comparação com o vizinho, né? Pelo Twitter, o ministro do turismo de Omã, Salim bin Mohammed bin Said al Mahrouqi, confirmou que o país buscava a sua "Torre Eiffel". A obra seria "um marco que deveria se tornar atração turística e seria incorporada a um projeto maior de empreendimento de uso misto que garantiria viabilidade comercial e sustentabilidade".

Alguns cidadãos se mostraram empolgados com a ideia e até sugeriram onde a obra poderia ser concebida. Outros, no entanto, foram mais céticos. "Omã tem praias e uma bela natureza, só precisa de mais hotéis e resorts", uns disseram. "Não precisamos de um marcos novo, já temos castelos, fortes, a Ópera Real de Muscate, o Palácio Al Bustan (hotel da rede Ritz-Carlton)", outros complementaram, segundo o site Muscat Daily.

Omã não é um deserto de atrações, de fato. O sultanato tem marcos arquitetônicos históricos, como o Forte Bahla, os sítios pré-históricos de Bat, Al-Khutm e Al-Ayn, a antiga cidade de Qalhat e o milenar sistema de irrigação, ainda usado em algumas partes do país – todos esses são patrimônios culturais da humanidade, segundo a Unesco.

Forte Nizwa Bahla, em Ad Dakhiliya, Omã: patrimônio da humanidade desde 1987.

Muscate pode não ter museus de primeira grandeza como Doha ou Abu Dhabi. Mas a capital tem uma oferta respeitável de atrações, e muitas delas frutos do chamado renascimento omani, que é, justamente, o que deveria ser valorizado pelo ministério do turismo, segundo os críticos à possível "Torre Eiffel" de Muscate.

RENASCIMENTO

Pequeno vilarejo no interior do país

Em janeiro de 2020, o sultão Qaboos bin Said al-Said morreu, aos 79 anos. Ele era o 14º soberano de uma dinastia que chegou ao poder quando o cameleiro Ahmed bin Said liderou o movimento de independência de Omã em 1749, após 12 séculos de domínio estrangeiro (tribos árabes, persas e portugueses ocuparam esse pedaço da Península Arábica).

Qaboos passou quase 50 anos à frente do país. Seu pai, Said bin Taimur, isolou a nação da comunidade internacional. Em 1970, quando Qaboos tornou-se sultão, Omã era um dos lugares mais pobres e restritivos do mundo.

O novo chefe de Estado e de governo introduziu uma série de mudanças. O país saiu do obscurantismo e, apesar do atraso, chegou ao século 20 com dois pés na porta. Entrou na ONU e na Liga Árabe e criou uma Constituição moderna e relativamente inclusiva. Sunitas, xiitas e ibadis (ramo do Islã que surgiu em Omã) convivem em harmonia. Trabalham juntos, rezam juntos. Casamentos inter-religiosos não são raros. Em 2019, o país foi considerado livre de terrorismo.

Qaboos era um monarca absolutista que acumulava cargos e títulos, mas, como lembra a revista Foreign Policy, ele se cercava de conselheiros competentes que conheciam seus respectivos campos (aquilo que hoje se chama de "políticos de perfil técnico", em contrapartida aos demagogos, populistas e terraplanistas). Ele era chefe das Forças Armadas, ministro da defesa, ministro da relações exteriores e chefão do Banco Central, mas visitava com regularidade todos os rincões do país e se encontrava com o povo para ouvir suas demandas.

Se em 2018 as mulheres da vizinha Arábia Saudita conquistaram o direito de dirigir carros, em 2004 Omã já tinha uma mulher comandando o ministério da educação superior. O país deu passos largos rumo à igualdade de gênero, ainda mais se comparado ao resto do mundo árabe.

O histórico mercado de Nizwa: ambiente cultural e vibrante

A grana do petróleo trouxe modernidade, que trouxe alguns atrativos para o país, como alguns tuiteiros lembraram o governo. O mais emblemático é a Mesquita do Sultão Qaboos. Inaugurada em 2001, é a segunda maior mesquita do mundo, com capacidade para 20 mil pessoas. O chão é coberto por um único carpete, feito a mão por centenas de artesãos, que o coloriram com tintas vegetais tradicionais.

Um grande lustre se destaca no interior da mesquita. Ele pesa 9 toneladas, tem 13 m de altura e 8 m de largura. Com 600 mil peças de cristal, o lustre era o maior do mundo quando foi inaugurado, mas depois foi ultrapassado por lustres em mesquitas nos Emirados Árabes e no Catar.

No interior da Mesqute do Sultão Qaboos, lutre de 12 toneladas já foi o maior do mundo

Omã pode não ter a opulência petrolífera no mesmo nível dos vizinhos, mas Qaboos pegou um país com pouca identidade, diverso e disperso, e criou uma unidade nacional. Não à toa, ele é tido como o pai desse renascimento omani.

No cenário internacional, o país se estabeleceu na moderação e na boa vizinhança. É amigo dos americanos desde os tempos de George Washington e foi o primeiro país árabe a enviar uma missão diplomática aos Estados Unidos, em 1840. Mantém relações amistosas com Egito, Palestina, Israel, Irã, Catar e Síria.

Localizada em Bawshar, a suntuosa mesquita foi erguida em 2001

A transição para o sucessor de Qaboos, Haitham bin Tariq, primo do falecido sultão, foi tranquila. O país dá sinais de que seguirá no caminho da moderação e da prosperidade.

Mas, com a desvalorização do petróleo e do gás nos últimos anos e com os impactos devastadores da pandemia para o turismo e a economia como um todo, pode ser difícil o governo arcar sua "Torre Eiffel". Mas será que Omã precisa disso? Ou está na hora de os discretos serem valorizados?

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.