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Saba, antiga ilha de piratas, tem o perigoso “menor aeroporto do mundo”

Universa

21/03/2021 04h00

(Crédito: iStock)

17º38'N, 63º13'O
Aeroporto Juancho Yrausquin
Saba, Países Baixos Caribenhos, Países Baixos

Não importa o tamanho, os aeroportos apanharam da pandemia em 2020. O de Guarulhos, o mais movimentado da América do Sul, teve um baque de 54%, segundo o site Aviação Brasil (de 44 milhões de embarques e desembarques em 2019 para 20 milhões no ano passado). Foi uma queda maior, mas ainda semelhante, à que foi sentida pelo pequenino aeroporto da ilha de Saba, no Caribe: 47% menos passageiros no ano, de acordo com o Daily Herald, jornal que cobre o nordeste caribenho.

Mas Saba já chegou a ficar meses sem receber ninguém pelo ar, mesmo sem uma pandemia assolando o mundo. É que a ilha tem o desafiador título de possuir a menor pista de aeroporto comercial do planeta.

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A história começou com Remy de Haenen, primeira pessoa de que se tem notícia a chegar a ilha voando, em 1959. Ele queria que Saba ganhasse um aeroporto, o que facilitaria o contato com outras ilhas da região, como a vizinha Sint Eustatius ou Anguilla, Ilhas Virgens Britânicas e São Cristóvão e Névis.

Na campanha das eleições parlamentares de 1962, o arubano Juancho Yrausquin, ministro das finanças das Antilhas Holandesas, da qual Aruba, Saba e outras ilhas faziam parte, apoiou a construção do aeroporto. As obras saíram do papel e uma companhia aérea, a Winair, surgiu para servir as Pequenas Antilhas, o arco de pequenas ilhas vulcânicas que se estende da costa da Venezuela a Porto Rico.

(Crédito: iStock)

Mas o aeroporto, batizado em homenagem ao ministro Yrausquin, não teve um estouro de popularidade. As passagens eram caras e categorias restritas de aeronaves podiam pousar e decolar, como alguns turboélices, bimotores ou helicópteros. Nada de aviões a jato, porque a pista tem apenas 400 m (apenas um décimo da maior das pistas do Galeão). Para complicar ainda mais, ela fica espremida entre o mar e a montanha.

Um Airbus A380, o maior avião comercial do mundo, tem 72 m de comprimento. Então, dá para imaginar a situação de como seria comicamente trágico uma máquina desse porte pousar ali. Se não der, o Swiss001, canal do YouTube dedicado a simuladores de voo, mostra como seria o drama de pousar em Saba usando diversas aeronaves (bônus: o vídeo tem uma amostra da internacionalização do meme da Nazaré Confusa):

Em 1965, o aeroporto chegou a ficar seis meses sem receber nenhuma aeronave. Apenas pilotos experientes o usam, porque ainda tem as intempéries climáticas: em 1998, o furacão Georges destruiu o terminal.

(Crédito: iStock)

SABA

Saba é uma pequena ilha de 13 km2 (menor que Fernando de Noronha) e cerca de 2 mil habitantes, o que não dá nem a metade dos moradores do Copan, em São Paulo. É o menor território habitado das Américas.

Acredita-se que os primeiros habitantes, há cerca de 3 mil anos, foram os ciboneis, o mesmo povo que chegou a Cuba e a outras ilhas caribenhas. No século 9, chegaram tribos aruaques, vindas da América do Sul. A partir de 1640, os holandeses.

Em 1664, esses primeiros europeus se negaram a jurar fidelidade a outra potência invasora, a Inglaterra, e foram expulsos para Sint Maarten pelos governadores-piratas da Jamaica Edward, Thomas e Henry Morgan. Os holandeses só retomaram o controle total de Saba em 1816.

(Crédito: iStock)

A ilha, que se mostraria arisca para aviões, também fez fama como um lugar difícil para navegantes. Por isso mesmo, ela era um santuário de piratas, que ali podiam se refugiar com mais tranquilidade, já que poucos se aventuravam por aquelas águas.

Eventualmente, no século 19, o comércio marítimo cresceu, e enquanto os homens navegavam, as mulheres desenvolveram um tipo de bordado que, até meados do século passado, ficou tão conhecido que se tornou a maior fonte de renda da ilha. Graças ao bordado de Saba e à ausência dos homens por longos períodos, ela era também chamada de "ilha das mulheres" – o blog The Saba Islander traz diversas fotos e conta mais dessa história, em inglês.

O turismo começou a crescer na década de 1970, graças ao aeroporto e ao recém-inaugurado porto. Mas Saba ainda se sentia distante do mundo, e queria estreitar os laços coloniais com Amsterdã.

(Crédito: iStock)

Em 2010, as Antilhas Holandesas se dissolveram. Curaçao e Sint Maarten viraram territórios autônomos dos Países Baixos, o mesmo status que Aruba conquistou em 1986. Já Saba, além de Bonaire e Sint Eustatius (ou Santo Eustáquio), tornou-se um município especial dos Países Baixos.

Ou seja, a Holanda fica a apenas 2,3 mil km de Macapá. Mas, com um aeroporto nanico, nanico como o de Saba, é bem mais fácil atravessar os 9,7 mil km que separam Amsterdã de Guarulhos.

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.