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Sauditas querem fazer cidade sem carros, linear, robotizada – e polêmica

Felipe van Deursen

04/04/2021 04h00

(Crédito: iStock)

28º17'N, 34º50'L
Futura The Line
Futura Neom, Tabuk, Arábia Saudita

Em janeiro, o príncipe saudita Mohammed bin Salman, que se especializou nos últimos anos em providenciar uma mescla estranha de projetos marqueteiros com perseguição aos direitos humanos, anunciou, em um evento cheio de pompa e power point, o que ele chamou de "cidade do futuro". The Line, como o nome em inglês entrega, será uma cidade linear, que promete – atenção – ressignificar a forma de viver e trabalhar.

Podia ser só um texto preguiçoso de propaganda de mais um condomínio de alto padrão para você e quem for da sua família. Mas é um projeto de mais de US$ 100 bilhões, capitaneado por uma das famílias reais mais trilhardárias do mundo. Assista ao vídeo (em inglês).

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The Line não terá carros nem emissão de carbono. Energia renovável providenciará o funcionamento de toda a rede de transporte, que será subterrânea. Inteligência artificial, por meio de modelagem de dados, acompanhará a rotina dos cidadãos para aprimorar sua qualidade de vida. The Line, projetada para ter 1 milhão de habitantes ao longo de uma linha de 170 quilômetros, vai gerar 380 mil empregos.

Bom, pelo menos foi o que MbS alardeou. A nova cidade, cujas obras estavam previstas para começarem ainda neste semestre, integra um ainda mais espalhafatoso e midiático projeto, um megazord dos planos urbanísticos: Neom.

A área que The Line ocupará, segundo o vídeo de divulgação saudita

Vitrine do programa que almeja diminuir a dependência do petróleo (a Arábia Saudita é a terceira maior produtora e o segundo país com mais reservas no mundo), Neom deverá ser uma cidade-Estado, uma zona econômica especial no noroeste do país, às margens do Mar Vermelho, que, a um custo estimado de meio trilhão de dólares, almeja atrair as melhores empresas e mentes do mundo, pagar os mais altos salários e ser um polo de tecnologia, turismo e ostentação que colocará o Vale do Silício, Hollywood e a Riviera Francesa no bolso.

O príncipe anunciou Neom em 2017. Ele funcionaria como um imenso laboratório para novas ideias, uma zona livre com leis próprias, bem menos restritivas que as que regem o país, um dos mais opressivos do mundo. Afinal, não dá para erguer uma riviera para competir com o verão europeu sem oferecer álcool.

É um canto belo, rochoso e desértico que dentro de alguns anos poderá ser a materialização do futurismo saudita. Segundo um documento de 2,3 mil páginas revelado pelo Wall Street Journal em 2019, Neom deverá ter drones trabalhando como táxi, clínicas de edição genética, uma lua artificial para iluminar as noites, professores holográficos nas escolas, robôs cumprindo diversas funções, de segurança a babá, e uma vastidão de entretenimento que faria Las Vegas e as festas clandestinas dos ricaços na pandemia parecerem bingo com feijãozinho no salão da igreja: MMA de robôs, parque dos dinossauros de robôs e praias que brilham no escuro. Tudo alimentado por energia solar e eólica.

 

Só que as coisas caminham mais para ser Futurama do que Jetsons. MbS despontou no cenário internacional como alguém que poderia modernizar um país que ainda decapita condenados à morte em praça pública. Houve um avanço aqui e outro ali. Em 2018, mulheres conquistaram o direito de dirigir. Em 2020, o reino aboliu a pena de morte de menores de idade.

Mas a Arábia Saudita foi acusada de ter cometido crimes humanitários na Guerra Civil do Iêmen, onde ela lidera uma coalizão. Em 2018, o próprio Bin Salman teria ordenado o assassinato de Jamal Khashoggi, jornalista saudita e grande crítico da família real. Como Khashoggi era colunista do jornal americano The Washington Post, a notícia repercutiu globalmente, especialmente nos Estados Unidos, histórico aliado da Arábia Saudita e um generoso passador de pano para as atrocidades cometidas pelo governo.

O escândalo de Khashoggi, executado e despedaçado no consulado saudita em Istambul, sacudiu as pretensões de Neom. O arquiteto britânico Norman Foster e o designer italiano Carlo Ratti, além de outros nomes de peso, como a Riot Games (de League of Legends), pularam fora do barco.

Organizações internacionais denunciaram que os crimes contra os direitos humanos pioraram no país nos últimos anos. As notícias sobre Neom entraram em banho-maria.

Até que, em janeiro, o príncipe anunciou The Line, o primeiro grande marco de Neom. A cidade linear terá, segundo o projeto anunciado, três camadas sobrepostas. Na superfície, a tal zona urbana sem carros nem ruas, apenas parques e pedestres. Abaixo, o piso dos serviços e, debaixo dele, a espinha dorsal com um sistema de transporte.

 

"Sem carros, sem ruas, sem emissão de carbono, você pode cumprir todas suas funções diárias em uma caminhada de cinco minutos. E pode atravessar a cidade de ponta a ponta em 20 minutos", ele explicou. Isso significa que o trem deverá atingir 500 km/h, um tanto mais rápido que o mais veloz do mundo, o Shanghai Transrapid – o site Fleet Logging infografou os trens mais rápidos do mundo. Dá para ter uma ideia do desafio que os sauditas terão para ultrapassar os chineses.

Além disso, a ideia de uma cidade em linha reta ser voltada a pedestres parece não fazer sentido, lembrou o site The Architect's Newspaper. Isso se explicaria pelo fato de que The Line funcionará mais como uma fileira de pequenos núcleos urbanos organizados ao longo de uma espinha dorsal, não uma metrópole com serviços espalhados de um canto ao outro. Então tá.

Os críticos não perdoaram o que pareceu ser um arroubo de delírio futurista alucinado feito para chamar a atenção para o que não importa, tirando os holofotes do que realmente está se passando no país. Há um ano, um homem chamado Abdul Rahim al-Huwaiti, membro da tribo Howeitat, que habita áreas da Jordânia, Palestina e noroeste da Arábia Saudita há séculos, postou vídeos denunciando forças de segurança que estavam tentando expulsá-lo. Mais tarde, ele acabou morto pelas autoridades, e oito parentes foram presos. Cerca de 20 mil pessoas foram removidas de suas terras.

LINHA RETA

 

(Crédito: iStock)

Cento e setenta quilômetros de uma ponta a outra em uma cidade é muita coisa. Isso em núcleos urbanos: a paraense Altamira, maior município do Brasil em área, tem cerca de 740 quilômetros  de norte a sul. Já São Paulo tem pouco mais de 70 quilômetros, mas se descontarmos as enormes áreas verdes nas pontas da metrópole, a distância cai para 50 quilômetros em linha reta entre Engenheiro Marsilac, no extremo sul, e Perus, o distrito mais ao norte. The Line teria, portanto, mais de três vezes a extensão do núcleo urbano da maior metrópole da América Latina. (Reforço, estamos comparando apenas comprimentos, extensões, aqui. Não as áreas).

Mas, apesar da palestrinha TED do príncipe saudita, o conceito de cidades lineares não é, nem um pouco, uma novidade. O arquiteto Arturo Soria y Mata propôs a Cidade Linear de Madri em 1882. "A ideia de linearidade era expressa enfatizando a rota de transporte principal como espinha dorsal do traçado urbano proposto. Todas as outras funções foram dispostas ao longo desse eixo com largura definida e comprimento indefinido, intersectados em certos intervalos por ruas perpendiculares secundárias. O leiaute consistia em grandes blocos com edifícios residenciais rodeados por vegetação com estruturas comerciais e públicas situadas nos cruzamentos", descrevem as arquitetas Tijana Tufek-Memisevic, da Bósnia, e Ewa Stachura, da Polônia, em um artigo a respeito. A Ciudad Lineal projetada por Soria y Mata é hoje um dos distritos da capital espanhola.

Geometria e urbanização andam juntas há milênios. "Todas as cidades importantes do mundo antigo, Babilônia, Cnossos, Micenas, Atenas e, claro, Roma, fornecem muitas evidências de uma geometria bem ordenada amplamente construída em torno de uma grade como base para a construção de templos, mercados, espaços cívicos, edifícios e lazer organizado em termos de esporte e drama", lembram Michael Batty e Paul Longley no livro Fractal Cities ("cidades fractais").

MbS não está inventando a roda. Nem a linha.

Caso saia do papel algum dia, Neom ficará em Tabuk, região habitada por 1 milhão de pessoas e com atrativos como o Castelo de Tabuk, construído há quase 500 anos (mas sua estrutura teria 5,5 mil anos). Não é um lugar desprezível em termos humanos, culturais ou naturais, como alguns periódicos deram a entender.

A história vai querer saber. Onde estará Neom daqui a meio milênio?

Palácio Ibn Rumman Tayma, em Tabuk, Arábia Saudita (Crédito: iStock)

Mais informações (sei lá, vai que você queira investir em THE LINE): https://www.neom.com/whatistheline/

 

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.