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Terra à vista!

Um Japão tropical e paradisíaco, mas com um probleminha: não há banheiros

Felipe van Deursen

02/05/2021 04h00

24°22' N, 123°49' L
Parque Nacional Iriomote-Ishigaki
Ilhas Yaeyama, Okinawa, Japão

Esqueça o Japão das metrópoles eufóricas, do néon delirante, dos templos idílicos, dos picos nevados. Iriomote, nas Ilhas Yaeyama, é o Japão dos rios caudalosos, das praias cristalinas, das florestas tropicais. Com manguezais e cachoeiras, essa ilha fica mais perto de Taipei e de Manila do que de Tóquio.

A primeira pessoa que vi falando das surpresas tropicais de Okinawa, a província onde ficam as Yaeyama, foi o Tiago Jokura, blogueiro do Tilt, vizinho aqui de UOL. No caso específico de Iriomote, o que a torna ainda mais surpreendente e cheia de adjetivos não é nem tanto que seja uma ilha de mangas, cana-de-açúcar e abacaxis em pleno Japão, mas que ela vem enfrentando problemas em uma área em que o país é uma referência tão grande que isso acabou se tornando uma improvável atração turística: os banheiros.

Banheiros japoneses (e sul-coreanos) são famosos pela tecnologia e conforto. Até nos sanitários públicos é comum encontrar cabines com botões que perfumam o ambiente, aquecem o assento etc. Turistas ocidentais voltam encantados, assombrados com essas privadas mágicas.

Mas não os que visitam o Parque Nacional Iriomote-Ishigaki. Quem quiser um banheiro de verdade precisa superar 45 minutos de caiaque e 50 minutos de caminhada. Ficou apertado? Faça no mato. A situação fica ironicamente mais complicada quando uma das principais atrações são cachoeiras. Difícil manter a bexiga cheia ao ver uma queda d'água…

BANHEIROS NO MATO
Um ou outro folião regar uma árvore com sua amônia, vá lá. Mas quando se tem 400 mil turistas por ano (em tempos pré-pandêmicos), a situação fica problemática. O jeito que a administração do parque encontrou foi instalar uma espécie de barraca-banheiro.

Com o apoio do ministério japonês do meio ambiente, o parque contratou uma empresa de higiene que faz assentos dobráveis, cubículos de náilon e sacos de lixo. Os banheiros foram projetados originalmente para montanhistas apertados, mas funcionou bem na selva. A fabricante instalou algumas unidades como teste em 2019 na área da cachoeira Pinaisara, um dos lugares mais populares da ilha. Deu certo e lá ficaram:

A medida, porém, está longe do ideal. O parque reconhece que é algo paliativo.

Precisou fazer o número dois? É assim que funciona: você entra na tenda, fecha, arruma a bolsa (que a equipe do parque oferece) sobre o assento e manda ver. Em seguida, fecha a bolsa e a coloca em um saco que absorve o fudum.

Acabou? Não. Aí você precisa carregar o troféu até o fim do passeio e jogá-lo em uma lixeira dedicada a isso. De tempos em tempos, funcionários esvaziam o lixo e incineram os dejetos.

Vamos combinar que é preciso um senso de civilidade acima da média para seguir as normas. Algo que pode funcionar com povos que recolhem o próprio lixo até em estádios de futebol (saudades, Copa).

Ainda assim, à parte os hábitos de higiene de cada país, a solução resolve alguns problemas, mas cria outros. As bolsas e sacos geram lixo plástico e a incineração libera dióxido de carbono na atmosfera. Fora que cada saco custa US$ 5,50, segundo o site Atlas Obscura. Apenas 25 pessoas trabalham no parque, que tem uma área semelhante à do da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro (205 km2).

Então o manejo desses dejetos gera despesas e tempo de trabalho relevantes. Tanto que cobrar pela entrada, algo raro nos parques nacionais do Japão, virou uma possibilidade.

Outra alternativa é usar um banheiro de compostagem sem água. Um desse tipo foi instalado no estacionamento, no ano passado. É mais sustentável, mas pode inundar em tempestades. Nada agradável.

CHEGA DE FALAR DE PRIVADA

Iriomote não tem apenas cachoeiras lindas e banheiros controversos. Ela é a terra do gato-de-iriomote, subespécie de gato selvagem endêmica da ilha e ameaçada de extinção.

O parque foi criado em 1972, ano em que Okinawa foi devolvida ao Japão (os americanos assumiram o controle da província após a vitória na Segunda Guerra). Além das florestas e manguezais, a ilha também é um importante ponto para aves migratórias.

A grande atração, segundo o site Nippon.com, são as águas cristalinas da região e a lagoa Sekiseishō, a maior área de recifes de coral do Japão. Para uma bela vista da lagoa, suba o Monte Omoto, o mais alto de Okinawa, com 526 m. Só não fique apertado lá em cima.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.