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Fortaleza que freou nazistas é queridinha da "última ditadura da Europa"

Felipe van Deursen

06/06/2021 04h00

Forte dos Heróis, em Belarus (Crédito: iStock)

52º04'N, 23º39'L
Forte dos Heróis
Brest, Brest, Belarus

No início de maio, o governo de Belarus celebrou o aniversário de 76 anos da grande vitória soviética sobre o nazismo. Veteranos compareceram ao Forte dos Heróis, fortaleza que ajudou a frear o avanço dos alemães, em uma festa que ganhou destaque na imprensa local.

O site da Belta, agência nacional de notícias, relembrou o feito: "Unida pelo objetivo comum, a nação belarussa resistiu a esse golpe e defendeu seu direito à vida e seu direito à liberdade diante do inimigo. A destruição do exército alemão em Belarus se tornou uma das batalhas mais importantes da Segunda Guerra Mundial e da Grande Guerra Patriótica".

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Na fotos, a imponência do forte é assombrosa. Ele foi erguido em 1830 na confluência de dois rios em Brest, na fronteira com a Polônia. Na condição de fortaleza mais a oeste do Império Russo, logo se tornou motivo de orgulho de Belarus, território que foi anexado no século 18.

(Crédito: iStock)

A cidadela composta por três cabeças-de-ponte, fossos e quatro torres foi inutilizada na Primeira Guerra. Com a tomada de outros dois fortes pelos inimigos, os russos abandonaram a fortaleza em forma de estrela de Brest, deixando-a vazia quando os alemães chegaram, em 1915.

Mas, no teatro político, ela brilhou. Em março de 1918, serviu para o encontro dos enviados que sentaram à mesa de negociações e assinaram o Tratado de Brest-Litovsk (como a cidade era então chamada). O acordo encerrava a fracassada participação russa na Grande Guerra e impunha uma série de derrotas diplomáticas ao país, especialmente para os alemães. Mas ele acabou anulado em novembro do mesmo ano, com o armistício e a derrota definitiva dos germânicos e seus aliados austro-húngaros e turcos.

Em 1921, Brest passou a integrar a Polônia, que recuperara a independência. Foi essa breve Segunda República Polonesa que Hitler invadiu em 1939, dando início a mais uma guerra mundial. A cidade resistiu quatro dias, até que os nazistas a tomaram. Os soviéticos invadiram a Polônia no mesmo dia e, seguindo o acordado no Pacto Molotov-Ribbentrop um mês antes, não houve agressões entre as duas potências. Um desfile militar conjunto de tropas nazistas e soviéticas pelas ruas da cidade marcou o acordo, e os alemães devolveram o forte aos russos.

O pacto não durou nem dois anos, e Hitler decidiu invadir a União Soviética. No primeiro dia da Operação Barbarossa, 22 de junho de 1941, eles atacaram Brest de surpresa, na expectativa de dominar a cidade em questão de horas.

O forte resistiu por quase uma semana a bombardeios. Moscou abandonou Brest à própria sorte, incapaz de reagir, naquele momento, à ofensiva alemã. Após dois ataques aéreos da Luftwaffe, a cidade caiu, deixando um saldo de mais de 2 mil mortos e quase 7 mil prisioneiros.

Como a gente sabe, o jogo virou mais tarde. Em julho de 1944, a URSS recuperou o controle de Brest. A cidade, que estava dentro do território da Ucrânia ocupada pelos nazistas, voltou a integrar Belarus. A partir de então, a fortaleza assumiu o caráter de cartão-postal de propaganda soviética. A heroica resistência de seis dias da cidadela foi engolida por uma narrativa exagerada, que dizia que o forte aguentou o tranco por mais de um mês.

Memoriais e monumentos surgiram nas décadas seguintes, livros e filmes romancearam a batalha e a fortaleza mudou de nome, coerentemente, para Forte dos Heróis. Hoje, ele é a maior atração de Brest.

Museus exibem fotos, documentos e artefatos da batalha, e ainda existem trechos destruídos, marcados a bala, e tanques da guerra restaurados. Mas o grande destaque é o forte em si e o contraste de sua arquitetura da Rússia imperial com os monumentos brutalistas soviéticos.

(Crédito: iStock)

O portão de entrada na cidadela é uma enorme estrela recortada em um bloco de concreto com 44 m de largura e 35 m de profundidade. Outra obra grandiosa é o obelisco Baioneta, que representa um rifle do Exército Vermelho de 100 m de altura.

(Crédito: iStock)

A escultura Sede, com menos concreto e mais dramaticidade, mostra um soldado ferido tentando pegar água do rio com o capacete. Já a obra que junta ostentação empedrada e altas doses de heroísmo estoico é Coragem, a grande musa do complexo. É uma cabeça titânica, com 30 m de altura, pano de fundo ideal para as fotos orgulhosas dos veteranos de 1941 ainda vivos e cartão de visitas de um dos países mais fechados do mundo. A última plena ditadura da Europa, como Belarus é carinhosamente chamada pela mídia.

Belarus é governada desde 1994 por Aleksandr Lukachenko, que nos últimos tempos têm saído da sombra em que ficam a maioria das ex-repúblicas soviéticas no noticiário internacional. Em 2020, a polícia reprimiu com violência protestos pela democratização do país. A já esquálida imprensa independente belarussa sofreu ainda mais perseguições. No ranking de liberdade de imprensa da Repórteres sem Fronteiras, Belarus está em 153º de 180 países.

No mês passado, o governo forçou um avião civil que passava pelo seu espaço aéreo a pousar só para prender um jornalista crítico ao regime, que viajava da Grécia à Lituânia. A União Europeia e os Estados Unidos impuseram sanções, mas Lukachenko segue protegido pela Rússia de Vladimir Putin.

GUERRA FRESCA NA MEMÓRIA

(Crédito: iStock)

Em 2014, o monumento esteve no centro de uma saia-justa internacional. O site da CNN americana publicou uma despretensiosa lista – no teor mais listas-inúteis-da-internet-que-quase-todo-mundo-adorava-nos-anos-2010 – de monumentos mais feios do mundo. Coragem estava na lista, descrito como "alguém com dor de barriga".

Tivesse a CNN colocado o famigerado Borba Gato paulistano no lugar, certamente muitos brasileiros iriam babar de alegria no Twitter, ainda mais que a estátua representa um assunto polêmico da nossa história, os bandeirantes. Mas o site foi logo elencar um dos grandes símbolos de resistência à maior guerra da história da humanidade, que ceifou algo entre um quarto e um terço das vidas do país e que está fresca na memória a ponto de ainda haver testemunhas oculares vivas daquele horror.

Nenhum país perdeu, proporcionalmente, tantos habitantes na guerra como Belarus. Pegou mal demais.

Desculpa perfeita para pesarem a mão. O fato de que Belarus e Rússia têm governos que acham que liberdade de imprensa é mimimi fez o ministro das relações internacionais belarusso convocar o embaixador americano para dar explicações. Em Moscou, o ministro russo fez o mesmo com o chefe da sucursal da CNN no país.

A rede de televisão se retratou no site. Mais tarde, tirou o texto do ar.

Poucos quilômetros ao norte de Brest fica outro patrimônio belarusso, sacramentado pela Unesco e sem tantas polêmicas geopolíticas em torno. Quer dizer, mais ou menos.

Belovezhskaya Pushcha é um dos maiores remanescentes da floresta primária que cobria quase toda a Europa. É um santuário verde na fronteira com a Polônia, lar de centenas de bisões-europeus, o maior animal terrestre do continente, e de carvalhos tão velhos e impressionantes que têm até nomes próprios.

(Crédito: iStock)

Na Primeira Guerra, os alemães começaram a construir uma ferrovia no meio da floresta e caçaram animais às baciadas. Na Segunda, os nazistas promoveram extermínios em massa entre as árvores ancestrais.

Em Belarus, não há muito por onde escapar. Os sinais da guerra continuam em todo lugar.

 

  • Para fotos antigas de Belarus e do Forte dos Heróis, venhacá
  • Agradeço ao perfil da Embaixada Popular de Belarus no Brasil no Twitter por ter corrigido o uso do gentílico do país em português: é "belarusso", não "bielorrusso" 

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.