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Terra à vista!

Hoje é dia de Santo Antônio, que tem festa até em praia na Índia

Felipe van Deursen

13/06/2021 04h00

(Crédito:Reprodução/Instagram)

8º16'N, 77º53'L
Igreja de Santo Antônio
Uvari, Tamil Nadu, Índia

Reza a lenda que, cerca de 450 anos atrás, navegadores portugueses que passavam pela baía de Bengala contraíram cólera. Desesperados com a morte iminente, os marceneiros a bordo esculpiram uma imagem de Santo Antônio, o frade franciscano e doutor da Igreja que viveu entre os séculos 12 e 13 e é conhecido pelos fiéis tanto pelo se lugar de nascimento ("de Lisboa") como de morte ("de Pádua").

Famoso em vida, Antônio foi canonizado em 1232, menos de um ano após sua morte. Com tamanha adoração em Portugal, ele não deixaria aqueles pobres doentes morrerem no mar. Bingo! Por milagre, todos sobreviveram e, ao desembarcarem na cidade de Uvari, deixaram o santo em uma cabana, como sinal de agradecimento.

O cristianismo evoluiu em Uvari desde aquele episódio enevoado na história. Na década de 1940, os moradores ergueram uma igreja no lugar da antiga cabana e a dedicaram ao santo. Hoje, a cidade celebra Antônio duas vezes ao ano. A primeira acontece entre janeiro e fevereiro. A segunda rola ao longo do início de junho, culminando no dia 13, dia do santo.

Uvari é uma vila pesqueira em Tamil Nadu, estado no sul da Índia onde o cristianismo corresponde a uma porção pequena, mas não irrelevante, de 6% da população – nos estados de Nagaland, Mizoram e Meghalaya, a religião é predominante.

Velas, incensos e flores, além de estandartes do santo, marcam o início da parada. São 13 dias de orações, da manhã à noite, em tâmil, língua oficial do estado. Como muitos romeiros vêm do estado vizinho de Kerala, também se reza em malaiala.

No último dia, uma procissão com a imagem de Santo Antônio desfila pelas ruas da cidade. Não é muito diferente das procissões hindus em outros lugares do país, em que os devotos carregam os deuses em carruagens específicas, a ratha.

Outro costume é a distribuição de comida. Diz a história que, muito tempo atrás, um homem pobre cozinhou e ofereceu aos outros, que recusaram. Ele, arrasado, coitado, cavou um buraco em frente à igreja, enterrou a comida com algumas folhas e foi embora.

Seis meses depois, quando os fiéis foram instalar o mastro para o festival, encontraram os alimentos ainda frescos. Desde então, a troca de comida virou tradição.

Este ano, a pandemia vai postergar quaisquer planos de aglomerações públicas. Com lockdown estendido, Tamil Nadu e Kerala são atualmente os estados com o maior número de casos de covid-19 na Índia – a doença vem desacelerando no país desde o pico de 414 mil casos diários em maio, mas a situação ainda é crítica. Já são mais de 350 mil mortos no país, menos apenas que EUA e o Brasilzão-que-segue-todos-os-protocolos-de-segurança.

A TV indiana já deu destaque ao festival.

GIGANTE CRISTÃO?

Com 1,36 bilhão de habitantes, qualquer minoria na Índia pode representar uma multidão em lugares menos atolados de gente. Os cristãos são menos de 3% da população, e ainda assim são cerca de 28 milhões de pessoas. Ou seja, a Índia tem tantos cristãos quanto Espanha, Peru ou Venezuela.

O cristianismo não só tem muitos adeptos na Índia como chegou bem cedo ao subcontinente. Segundo a tradição, foi o próprio São Tomé, ele mesmo, o apóstolo, o incrédulo, que introduziu a nova fé. Faltam evidências quanto a isso, mas os historiadores sabem que, já no século 6, a religião se desenvolveu em Kerala, seguindo os ritos do cristianismo oriental, que se espalhou pela Ásia nos primeiros séculos da nossa era.

Mil anos mais tarde, chegaram os navegadores portugueses e espanhóis. Vasco da Gama abriu a primeira rota ligando a Europa à Índia, um novo mundo se descortinava – e ele descobriu que naquela terra distante já havia cristãos.

Mas eram cristãos bem diferentes, que seguiam o rito siríaco, liturgia da Igreja difundido no Oriente. Pouco depois, Pedro Álvares Cabral desembarcou com um grupo de franciscanos, e o rito latino da Igreja Católica dos europeus chacoalhou a antiga ordem. Muitos barathar, como eram conhecidos os habitantes de Uvari, se converteram e adotaram o sobrenome Fernando.

No período colonial, com o domínio britânico, o anglicanismo e denominações protestantes chegaram na voz dos missionários, que vinham de lugares como Alemanha e Estados Unidos. Hoje, os protestantes superam católicos e ortodoxos no país.

Como acontece em tantos países, da Coreia do Norte que considera cristãos inimigos de Estado ao Brasilzão que persegue pais e mães de santo, minorias religiosas, por mais antigas que sejam naquela terra, sofrem constantes ataques. Na Índia, um dos episódios mais emblemáticos aconteceu em 2008, quando radicais hindus vandalizaram e destruíram várias igrejas na região de Mangalore.

Hoje não. É o que esperam, fiéis em todo o mundo.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.