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Como Olinda inspirou e ajudou na descoberta do primeiro "cometa brasileiro"

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Felipe van Deursen

27/06/2021 04h00

(Crédito: Getty Images)

8º00'S, 34º50'O
Antigo Palácio dos Bispos
Alto da Sé, Olinda, Pernambuco

Este ano, Lucicreide foi pra Marte. O filme do pernambucano Rodrigo Cézar, estrelado pela pernambucana Fabiana Carla, é o primeiro longa brasileiro a ter cenas gravadas na Nasa. Além disso, Lucicreide vai pra Marte encerrou um hiato de 23 anos no cinema mundial: desde 1998, com o Armageddon do Bruce Willis e do Aerosmith, um filme não era feito na agência espacial, segundo a revista Galileu.

Mas não foi a primeira vez que Marte e Pernambuco estiveram tão juntinhos. Aconteceu no século 19, e sem precisar fazer conexão na base da Nasa.

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Liais é uma cratera de 132 quilômetros de diâmetro no Quadrângulo de Mare Australe, em Marte. O nome é uma homenagem a um astrônomo e botânico francês chamado Emmanuel Liais. Ele nasceu e morreu em Cherbourg (hoje Cherbourg-Octeville), na Normandia, mas passou um terço de sua vida no Brasil, e boa parte disso em Pernambuco, porque não era bobo.

Tinha muitos interesses. Suas publicações científicas tratavam desde a hidrografia do Rio das Velhas, em Minas Gerais, até o poder de reflexão da superfície de Marte. A pesquisa sobre o Planeta Vermelho rendeu-lhe a honraria póstuma na cratera, e muito do que ele observou e estudou dos céus se deu em território pernambucano. "Foi de Olinda – do velho Palácio dos Bispos – que Emmanuel Liais descobriu em 1860 o cometa que tomou o seu nome", lembrou, em 1944, o recifense Gilberto Freyre em Olinda: 2º Guia Prático, Histórico e Sentimental de Cidade Brasileira, no capítulo dedicado a "Darwin e Outros Estrangeiros Ilustres que Visitaram Olinda".

(Crédito: Reprodução/Instagram@culturaempernambuco)

"Velho palácio" mesmo. É uma das construções mais antigas da cidade, onde funcionava a Casa da Câmara, fundada por Duarte Coelho, primeiro governante da capitania de Pernambuco e fundador de Olinda, em 1537. Em 1676, com a elevação de Olinda a cidade, o edifício virou o Palácio Episcopal citado por Freyre.

Com o tempo, foram diversas mudanças de fachada, estrutura e ocupação. O palácio serviu de residência para religiosos, colégio e, mais tarde, quartel para a Segunda Guerra. Em 1977, ganhou a função atual, a de sediar o Museu de Arte Sacra de Pernambuco.

O FRANCÊS EM OLINDA

(Crédito: Getty Images)

Liais chegou ao Brasil a fim de observar o eclipse solar de 7 de setembro de 1858. A coincidência da data não passou batido. O governo aproveitou o aniversário de 36 anos da Independência para organizar uma expedição e estimular a ciência no país – dom Pedro II era, reconhecidamente, um entusiasta da astronomia e de outros campos científicos.

O francês liderou o time que viajou a Paranaguá (PR) para estudar o céu durante o eclipse. Segundo a Revista do Observatorio, publicação do Observatório do Rio de Janeiro, a missão foi um sucesso(mantive a grafia original) "O contorno da lua projectado sobre o sol apresentou em Paranaguá, como no observatorio do Rio de Janeiro e no Palacio de S. Christovam uma regularidade notavel. Não se via com amplificações inferiores a 100 vezes algum ponto saliente. Com a amplificação de 302 vezes Mr. Liais, perto da ponta do crescente apparentemente inferior, descobriu montanhas muito baixas e alongadas; o resto do contorno, mesmo com esta amplificação, parecia assaz regular".

Dois anos depois, Liais estava no Palácio dos Bispos. Instalado no Alto da Sé, o astrônomo parecia empolgado com a missão. A seguir, trechos de seu livro L'Espace Céleste et la Nature Tropicale ("O espaço celeste e a natureza tropical"), de 1865:

"A cidade de Olinda, antiga capital da província de Pernambuco, está construída na encosta sul de um morro localizado seis quilômetros ao norte da cidade de Recife, atual capital. No planalto superior desta colina erguem-se a catedral e o antigo palácio do bispo, em que vivemos durante a nossa estadia nesta cidade. Foi em frente a este palácio, e a uma distância suficiente para que a vista do céu não fosse obstruída pelas construções, que organizamos o nosso observatório (…) A situação deste lugar, situado no hemisfério sul, e a 8 ° 1 ' do equador, era mais favorável para várias observações impossíveis na zona temperada."

Liais em seguida descreve como era esse pedaço da costa, de Olinda até o "cap Saint-Augustin", há 150 anos:

"Do ponto onde erguemos nosso observatório, a vista se estendia por uma distância considerável. Instalada em uma pequena elevação na borda do planalto, nossa estação dava para todos os prédios da cidade de Olinda, que podíamos ver no lado sul abaixo de nós. Ao pé do morro passa um grande e largo rio, o Beberibe, cujas águas, de um lindo azul, serpenteiam até a cidade de Recife, em meio aos verdes maciços de manguezais que nascem nas margens. A oeste do Beberibe estende-se uma vasta planície, coberta de vegetação. Algumas estradas a cruzam e aqui e ali contêm lindas habitações rodeadas por jardins. A leste fica o mar. Sua orla de areias brancas, quase paralela ao curso do Beberibe, é claramente delineada até o porto do Recife e sua bela muralha natural. À direita do porto, que é recheado de navios, podemos distinguir vagamente o aglomerado de casas e edifícios da vila do mesmo nome; depois, mais à frente, a praia continua a desenvolver a sua linha de areia e espuma até a ponta da Candeia, da qual podemos distinguir o espesso bosque de coqueiros. Finalmente, atrás deste ponto, e parcialmente oculto por ele, a linha da costa terminará no cabo de Santo Agostinho, um belo promontório, que se projeta para o mar, e termina o quadro no horizonte com uma linha de montanhas azuis."

O centro histórico de Olinda é patrimônio cultural da humanidade, segundo a Unesco. (foto: Felipe van Deursen)

A rotina era agradável. Olinda inspirou observações poéticas em nosso amigo cientista:

"Essa esplêndida vista tornava nossa estação um lugar muito agradável. Todos os dias, por volta das onze horas, a brisa do mar, que subia, amenizava o calor. Graças a essa brisa, a superfície do oceano ganhava vida, navios entravam e saíam do porto do Recife, e muitas jangadas espalhavam suas velas brancas e cruzavam em todas as direções na superfície das águas, levemente onduladas e azul-escuras."

Mas ele pode ter sentido que se empolgou e que precisava esclarecer o leitor:

"Peço ao leitor que não acredite que acabo de descrever a bela pintura que, em Olinda, se desdobra diante de nossos olhos, apenas para dar um caráter poético ao nosso observatório. (…) A seriedade da ciência nada perde, aliás, na medida em que a imaginação intervém nos estudos. (…) há uma espécie de poesia que não vai passar nunca, é a do pensamento, livre no seu desenvolvimento e na sua expressão, a dessa sensação irresistível e interior que nos faz experimentar a majestade e a beleza da natureza. Quanto mais a mente é cultivada, mais essa poesia especial tende a invadi-la, pois a ciência incessantemente nos faz penetrar novos e maravilhosos segredos. (…) Por isso disse que não é para poetizar o nosso observatório, que falei da pintura que ali se desenrolava sob o olhar. Eu só queria indicar que nossa estação estava admiravelmente situada para adicionar às observações do céu uma quantidade de observações terrestres muito interessantes: algumas nas refrações e sua influência na depressão do horizonte, outras na coloração do céu."

O antigo Palácio dos Bispos teve diversas mudanças na fachada nos quase 500 anos de Olinda. (foto: Felipe van Deursen)

Deu certo. Do observatório, Liais descobriu o C/1860 D1, ou cometa Olinda. O primeiro cometa devidamente registrado no Brasil. Já o primeiro cometa "brasileiro" descoberto por brasileiros ocorreu somente em 2014. E, esta semana, um astrofísico brasileiro entrou no rol de descobridores de cometas.

O astrônomo francês caiu nas graças do imperador e participou de outras missões no Brasil, explorando a geografia, a geologia e a botânica do interior do império. Em 1881, após desentendimentos com cientistas brasileiros, ele retornou à França. Em Cherbourg, criou um jardim botânico, aberto até hoje para o público. Morreu em 1900.

O atual observatório, construído próximo ao local de trabalho de Liais. (foto: Felipe van Deursen)

Já o observatório seguiu em uso e serviu para o estudo do trânsito de Vênus (quando a Terra, Vênus e o Sol estão alinhados). Em 1890, o Alto da Sé ganhou um novo observatório, próximo àquele de Liais. Localizado quase em frente ao Museu de Arte Sacra, o Observatório do Alto da Sé virou estação meteorológica e passou décadas desativado.

Em 2004, foi reaberto e hoje, é um reconhecido espaço de divulgação científica no Brasil – e com uma baita vista. Bem sabia Emmanuel Liais.

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.