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Terra à vista!

Campeonato bizarro mistura tricô com heavy metal na Finlândia

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Felipe van Deursen

04/07/2021 04h00

(Crédito: iStock)

62º35'N, 29º45'L
Campeonato Mundial de Tricô Metaleiro
Joensuu, Carélia do Norte, Finlândia

Em 2018, no longo, escuro e gélido inverno de Joensuu, um jornalista televisivo fazia uma matéria sobre tricoteiras. Seria só mais uma dessas reportagens bonitinhas que falam de tradições regionais, bons samaritanos locais, histórias felizes de animais e outros quetais que às vezes encerram os telejornais.

Mas aí o repórter, sagaz, pergunta a uma das entrevistadas: "É possível tricotar de olhos fechados com as mãos atrás do pescoço, como Yingwie Malmsteen toca guitarra?"

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A referência ao guitarrista sueco, mestre do metal neoclássico, já me faria aumentar o volume da TV se fosse no Brasil. Imagine Márcio Canuto, aos seus usuais berros, perguntando a tecelãs de Paraty se elas gostavam de Angra – a banda, no caso.

Certo, a pergunta do jornalista finlandês não foi tão surreal assim. No norte da Europa, diversos estilos de metal são bem mais populares que aqui.

Ainda assim, foi inusitado. Mas a tricoteira não pestanejou. "Bem, é claro que é possível", ela respondeu.

A ideia quicou, quicou e quicou até que uma turma da cidade resolveu inventar um concurso de tricô metaleiro. Isso aí. Tricotar batendo cabeça.

Em 2019, o campeonato teve aglomeração. Este ano, é online (foto: Joona Kotilainen)

Dessa forma, uniram três tradições finlandesas: o tricô, o heavy metal e os campeonatos bizarros. De quebra, podem ter criado um subproduto da guitarra aérea, técnica que também tem sua capital mundial no país. Sugestão de próximo passo: tricoteiros e metaleiros dentro do maior presente que os finlandeses deram à humanidade, a sauna.

Dizem que a Finlândia tem 50 bandas de metal para cada 100 mil habitantes. Joensuu, cidade estudantil fundada pelo czar Nicolau I no século 19, em uma época em que a Finlândia pertencia ao Império Russo, foi, por um tempo, lar de Floor Jansen, vocalista do Nightwish, um dos nomes de maior relevância do heavy metal nacional. O número de praticantes e entusiastas do tricô também não fica muito atrás.

A princípio, seria um torneio nacional. Mas por que limitar fronteiras quando a ideia é abraçar duas artes que unem nações e gerações? O tricoteiro Seu Jorge e Joko Widodo, presidente da Indonésia e fã de Napalm Death, apoiariam a causa. Então a primeira edição já foi logo mundial.

Em 2019, 26 competidores de 13 países viajaram a Joensuu para participar do campeonato. O primeiro campeão mundial foi Giga Body Metal, do Japão. Dinamarqueses, americanos, letões, suecos, finlandeses, russos, israelenses e britânicos completaram a lista de finalistas.

Giga Body Metal, primeira campeã mundial de heavy metal tricoteiro (ou tricô metaleiro?). Foto: Joona Kotilaines/divulgação)

No ano seguinte, a segunda edição foi cancelada, por motivos óbvios. Mas este ano ela volta, em formato 100% digital, acompanhando as tendências impostas pelo Sars-CoV 2.

"Agora, mais que nunca, o mundo precisa de entretenimento, alegria, risadas, loucura e experiências surpreendentes", diz Mari Karjalainen, porta-voz do comitê organizador, em comunicado à imprensa. Ao se adaptar aos novos tempos, o comitê pretende fazer limonada do limão da pandemia. Ele argumenta que um evento 100% online significa que mais pessoas poderão participar sem ter que arcar a viagem para a Finlândia.

As inscrições terminaram em 15 de junho. Tricoteiros e tricoteiras deveriam escolher uma de três músicas oferecidas, gravar sua performance com as agulhas e subir o vídeo.

Os 12 melhores vão competir ao vivo pelo título mundial no próximo dia 9, às 18h no horário local. Ou meia-noite de sexta para sábado no Brasil. Fica a dica de programação. Melhor que muita live que só tem artista fazendo propaganda, diz aí.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.