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Parque de cerejeiras esconde história de Olimpíada cancelada pela guerra

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Felipe van Deursen

18/07/2021 04h00

35º37'N, 139º37'L
Parque Kinuta
Setagaya, Tóquio, Japão

Fato curioso, e um tanto inútil, que talvez você não tenha se dado conta: esta é a primeira vez de nossas vidas em que as Olimpíadas não acontecem em um ano bissexto. Como estamos cansados de saber, os Jogos de 2020 foram adiados por causa da pandemia. Desde a primeira edição das Olimpíadas modernas, em 1896, elas sempre aconteceram em anos em que o glorioso mês de fevereiro tem o calendário espichado. A exceção foi 1900, que não foi um ano bissexto.

Coincidentemente, não é a primeira vez que Tóquio enfrenta problemas alheios ao esporte e à organização do evento para sediá-lo na data prevista. Aconteceu antes, em 1940, e um oásis verde na capital é testemunho da primeira aventura olímpica japonesa.

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(Crédito: Instagram @daily_madoka)

Levar os Jogos ao Extremo Oriente era um desejo de seu idealizador, o barão Pierre de Coubertin. Até então, somente cidades da Europa e dos Estados Unidos haviam sediado as Olimpíadas.

Em 1932, após a realização da 10ª Olimpíada de Verão, em Los Angeles, Tóquio se candidatou para ser a primeira sede asiática da história dos Jogos dali a oito anos. O ano de 1940 seria importante para o Japão, pois marcaria, segundo a tradição, o aniversário de 2.600 anos da ascensão do lendário Jimmu, o primeiro imperador, ao trono do país.

Tóquio chegava um tanto atrasada à disputa. Outras nove cidades, entre elas o Rio de Janeiro, já se preparavam para tentar ser a sede da 12ª edição. A favorita era Roma, cujo "colossal estádio de mármore", segundo a descrição dos concorrentes japoneses, era o cartão de visitas de Benito Mussolini, líder fascista que comandava a Itália desde 1922 e que ansiava por sediar os Jogos.

Em 1935, em um evento do Comitê Olímpico Internacional em Oslo, os delegados japoneses, munidos do argumento do imperador Jimmu, conseguiram convencer Mussolini a apoiar a campanha Tóquio-1940. Na época, os governos de Japão, Itália e Alemanha se aproximavam e começavam a exibir ao mundo suas perigosas aspirações políticas: em 1936, Itália e Alemanha assinaram o protocolo que criou o Eixo. Meses depois, alemães e japoneses fizeram um pacto anticomunista.

As Olimpíadas de 1936 já estavam programadas para Berlim. Com o apoio de Mussolini, Tóquio poderia levar em 1940 e, em retribuição, apoiaria Roma para 1944. Assim, as três potências esfregariam na cara dos inimigos todas as glórias de seus regimes fascistas.

Hitler conseguiu exibir ao mundo seu crescente poder nos Jogos de Berlim, mas precisou engolir Jesse Owens, negro e americano, quatro vezes no topo do pódio. Em agosto daquele ano, Tóquio foi confirmada a sede da Olimpíada seguinte.

Mas aí os planos imperialistas do Japão acabaram atropelando o projeto olímpico. A sutil e poderosa propaganda esportiva foi soterrada pela guerra.

O HORROR

Assim escreveu o príncipe Tokugawa Iesato, presidente do Comitê Olímpico dos Jogos de 1940: "Logo depois que a organização olímpica foi efetivada e seus planos estavam bem avançados, a nação se viu confrontada com o imprevisto incidente sino-japonês. Com o passar dos meses, o incidente ampliou suas esferas e toda a nação se levantou para participar de um conflito de longa duração, mobilizando espírito e recursos. Nenhuma outra decisão, a não ser a antecipação da missão de realizar as Olimpíadas de Tóquio, é concebível nas circunstâncias."

O "incidente" a que Tokugawa se refere é a Guerra Sino-Japonesa. Em 1937, a China estava mergulhada na zona da guerra civil entre nacionalistas e comunistas quando os japoneses, aproveitando um pretexto qualquer, invadiram o país, dividiram o território conquistado em Estados fantoches e cometeram atrocidades no chamado Estupro de Nanquim, um dos episódios mais grotescos de um século marcado por genocídios e assassinatos em massa.

Civis foram espancados, fuzilados, afogados, queimados. Dezenas de milhares de mulheres foram estupradas e mutiladas. Havia pilhas de cabeças nas ruas. Até os nazistas pediram aos japoneses para que segurassem um pouco a onda.

Em 1938, o Japão anunciou o adiamento dos Jogos. Em 1939, chegou a invadir a Sibéria, mas a União Soviética contra-atacou, e o império voltou sua fúria expansionista para outros lugares da Ásia. Enquanto isso, na Europa, seus aliados alemães tomavam a Polônia, o que marcou o início oficial da Segunda Guerra. Helsinque chegou a ser anunciada como nova sede olímpica, mas, com a invasão soviética à Finlândia, no fim de de 1939, ficou claro que qualquer grande evento na Europa seria inviável no ano seguinte (a não ser que ele envolvesse carnificina e destruição).

Em 1940, antes do ataque a Pearl Harbor e da entrada na guerra, o Japão ainda confiava que seus conflitos regionais logo seriam resolvidos. O comitê organizador dos Jogos publicou um documento em que deixava isso claro.

"Desejando ver, no futuro próximo, a bandeira de cinco anéis flutuando alto no céu claro do Japão (…), os esportistas deste país oferecem alegremente tudo que é possível ao seu alcance", escreveu Matsuzo Nagai, secretário-geral do comitê. "A crise é uma coisa do momento, enquanto o povo do Japão é invariavelmente inspirado pelo ideal de compreensão internacional, amor mútuo e respeito entre as pessoas."

Mas os atletas japoneses não tinham como demonstrar isso tudo enquanto os militares japoneses cometiam, na China, alguns dos maiores crimes contra a humanidade de que se tem notícia. A "crise", segundo Matsuzo, duraria mais alguns traumáticos – e atômicos – anos.

Dessa forma, a 12ª Olimpíada de Verão, bem como a 5ª Olimpíada de Inverno, que seria em Sapporo, no mesmo ano, jamais aconteceu. A 13ª Olimpíada de Verão, em 1944, em Londres (que derrotou Roma na votação) e as Olimpíadas de Inverno, no mesmo ano, em Cortina d'Ampezzo, na Itália, acabaram igualmente canceladas. A programação dos Jogos voltou com a 14ª (a numeração não se alterou) Olimpíada, em Londres, em 1948. Tóquio sediaria a edição de 1964.

A vila olímpica desses Jogos que não aconteceram seria montada no Parque Kinuta, uma área verde inaugurada em 1935, nos preparativos para o aniversário de Jimmu – e das Olimpíadas. Uma história, hoje, quase esquecida.

(Crédito: Instagram @yoko_tokyo_tourguide)

Com 35 hectares, ele é hoje um parque popular entre famílias com crianças. Tem instalações esportivas, um santuário de aves, ponte suspensa e um museu de arte, o Setagaya.

A maior atração é o espetáculo das cerejeiras. Diferentemente de outros lugares da capital, o Kinuta não fica abarrotado de gente para fotografar as flores. Primeiro, porque ele é relativamente grande. Segundo, porque tem mais variedades de cerejeiras, o que aumenta a janela de floração, segundo o site Tokyo Cheapo. Para quem já precisou se acotovelar para conseguir um registro no Parque do Carmo, em São Paulo, sabe que essa é uma baita de uma vantagem.

A 32ª Olimpíada, Tóquio 2020, acontece em um momento delicado da história global, em meio a uma pandemia que ainda não acabou, que impôs estádios e arenas sem público nos Jogos. Ainda assim, a magnitude dos horrores da Segunda Guerra ficou para trás – esta sim, a maior das vantagens.

 

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.