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Terra à vista!

Com revolução dos bichos na pandemia, praias da Tailândia reabrem

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Felipe van Deursen

01/08/2021 04h00

Phuket Mai Khao, Tailândia (Crédito: iStock)

8º08'N, 98º17'L
Praia de Mai Khao
Thalang, Phuket, Tailândia

No início da pandemia, o ineditismo da quarentena provocou um certo deslumbramento nervoso com as mudanças que o confinamento e a redução brutal de viagens provocava no planeta. Ar mais limpo, cidades menos barulhentas, a natureza rapidamente tomando o controle.

Logo chegaram as notícias. Cisnes e golfinhos nos até então fétidos canais de Veneza! Elefantes bêbados em uma vila chinesa! Os animais estavam dominando as cidades.

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Só que muitas eram notícias falsas. Ah, se todos os mínions criadores de fake news fossem inofensivos assim.
Certo, houve cenas virais de bichos avistados em lugares aonde que eles não iam havia tempos. Caso das onças-pintadas próximas à sede do Parque Nacional do Iguaçu.

Passado um tempo, os cientistas têm analisado os efeitos reais das quarentenas e lockdowns na natureza, e o resultado é misto. Um time liderado por Amanda Bates, da Universidade Memorial, no Canadá, analisou dados e reportagens de 67 países. Como a gente viu ano passado, eles encontraram muitos relatos de melhora de qualidade do ar, da água e da terra. Menos lixo nas praias, menos animais atropelados, menos ruídos de embarcações (o que é uma uma desgraça, por exemplo, para baleias do Alasca, que no verão são bombardeadas pelo barulho incessante dos navios de cruzeiro).

Por outro lado, durante a pandemia, tem faltado fiscalização. Caça e pesca ilegais cresceram, inclusive no Parque do Iguaçu. A queda do ecoturismo significou menos receita para diversas ações de conservação e alguns ecossistemas se mostraram dependentes dos humanos para ter equilíbrio. Caso do ganso-das-neves. Americanos e canadenses caçam a ave, de maneira legal, para proteger suas plantações. Este ano, segundo uma reportagem da revista The Atlantic, o ganso enfrentou menos espingardas, se empanturrou de folhas e migrou para o Ártico gordo e saudável. Lá devorou a tundra, degradando o habitat de outras espécies. Tais efeitos no ecossistema podem durar anos.

(Crédito: iStock)

A Tailândia é um país que tem experiência pré-pandêmica com presença massiva e ausência total de humanos em certas regiões. A história da baía de Maya, nas Ilhas Phi Phi, é conhecida. Reduzida ao status de você-precisa-fazer-uma-selfie-lá alardeado por blogs de viagem desde que serviu de cenário para Leonardo Di Caprio ficar chapado em A Praia, filme de 2000 do inglês Danny Boyle, o lugar atraiu hordas de turistas ano a ano. O Instagram só piorou as coisas, e o paraíso se viu atolado em lixo, lanchas e likes.

Em 2018, as autoridades do país fecharam a praia. Em apenas dois anos, Maya se tornou o lugar com a maior população de tubarão-de-pontas-negras-do-recife da Tailândia. Já são mais de 100 tubarões dessa espécie, segundo o departamento de parques nacionais do país.

(Crédito: iStock)

Em outras ilhas apinhadas de turistas, a pandemia os substituiu por outros animais. Vacinas podem não transformar humanos em jacarés, mas em algumas ilhas a pandemia substituiu multidões de humanos por outros répteis, as tartarugas. Nas ilhas de Phuket e Koh Samui, a tartaruga-de-pente, ameaçada de extinção, e a tartaruga-de-couro, a maior do mundo e também ameaçada, puderam botar ovos nas praias sem perigo, onde até o ano passado milhões de turistas dominavam a areia.

Petch Manopawity, um diretor da filial tailandesa da ONG Wildlife Conservation Society, disse ao New York Times que a covid mostrou que a sustentabilidade precisa ser abraçada de vez pelo pelo turismo, não só em nichos, mas em toda a indústria. "Ecoturismo" viraria um termo velho, uma vez que todo turismo deveria ser "ecoturismo".

À medida que Phuket reabre para o turismo, empresas de mergulho querem aproveitar que o mar está para peixe, tubarão, tartaruga e tudo mais e investir em experiências mais ricas. Segundo o site Travel Daily News Asia-Pacific, pontos de mergulho como Hin Deang e Hin Muang estão muito melhores agora do que antes.

A ciência está mostrando que uma intervenção humana menor nem sempre é imediatamente melhor para a natureza. Mas a pandemia deixou claro que muita coisa precisa ser revista. Phuket floresce sem tantas intervenções externas, replicando, de certa forma, sua própria história. Ponto importante das grandes rotas comerciais entre Índia e China em tempos passados, a ilha atraiu navegadores portugueses, franceses, holandeses e ingleses. Sem jamais ter sido colonizada.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.