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Castelo em Gana transforma horrores da escravidão em dinheiro de turistas

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Felipe van Deursen

22/08/2021 04h00

(Crédito: iStock)

5º04'N, 1º20'O
Castelo de São Jorge da Mina
Elmina, Região Central, Gana

Considerado por publicações internacionais um dos novos-destinos-turísticos-que-você-pre-ci-sa-conhecer, Gana é um país tropical, pacífico e com atrações diversas para a turma da praia, a do ecoturismo, a da cultura e também a dos eventos, impulsionados pelo crescimento econômico acima dos 6% no triênio 2017-9. É um país que só não é mais conhecido por causa de nossa eterna e preguiçosa ignorância quando o assunto é África.

Um dos principais atrativos de Gana é o Castelo de São Jorge da Mina, ou Elmina. Marco da arquitetura colonial europeia e polo irradiador da grande tragédia global que ergueu o mundo em que vivemos, a obra vinha batendo recordes consecutivos de visitantes até a chegada da pandemia, segundo o site Ghana Business News.

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Boa parte desses turistas é americana. São descendentes das pessoas levadas à força ao longo dos três séculos e meio de tráfico atlântico. Desejam ver a porta de não retorno desses antepassados escravizados, conhecer de perto parte de sua história.

O castelo serviu como um dos principais portos da chamada Costa país (embora a chegada de escravos às Treze Colônias fosse anterior a 1619). Por isso, a maioria dos quase 1 milhão de turistas estrangeiros que foram a Gana naquele ano era dos EUA. O presidente ganês, Nana Akuffo-Ado, convidou publicamente os descendentes de escravizados a visitar o país no que ele chamou de "ano do retorno". Até um festival foi criado para a ocasião, o Full Circle.

CASTELO MAL ASSOMBRADO

(Crédito: iStock)

A história de Elmina começa com Fernão Gomes. Cristão-novo – como eram chamados os judeus forçados a se converter ao cristianismo, durante a onda antissemita que tomou a Península Ibérica nos séculos 15 e 16 –, ele arrematou, em 1469, o primeiro contrato de escravos leiloado pela Coroa de Portugal.

À medida que descia a costa da África Ocidental, a frota de Gomes descobria mercados lucrativos, que acabavam batizando essas regiões para os europeus, mais ou menos como as ruas especializadas do comércio paulistano, só que em outra escala. Assim, em vez de uma Rua das Noivas da vida, eles iam descortinando a Costa dos Grãos (atual Libéria), a Costa do Marfim (também chamada Costa do Dente) e por aí vai.

Em 1472, localizaram garimpos a 150 km do litoral. Os acãs (ou akans), grupo étnico que dominava a região e que inclui povos como os fantes, mantinham a exploração de ouro e sua comercialização com uma vasta clientela, que incluía árabes e berberes. Os portugueses entraram no jogo e logo passaram a chamar a área de Costa da Mina (ou do Ouro), apesar de o metal ser extraído de rios, não de minas.

Dez anos mais tarde, em 1482, os garimpos acãs davam tanto lucro para Lisboa que a Coroa decidiu assumir o controle e afastar concorrentes europeus. Para tanto, enviou uma expedição a fim de conseguir a permissão dos governantes locais para erguer uma fortaleza no litoral. "Uma frota de caravelas foi organizada em Portugal para transportar pedreiros, carpinteiros e materiais de construção para o local. Eles completaram a construção em três semanas, chamando-a de São Jorge da Mina. A fortaleza foi aclamada como 'o primeiro edifício de pedra na região dos etíopes da Guiné desde a criação do mundo'", escreveu o historiador Martin Meredith em O Destino da África (Zahar).

(Crédito: iStock)

O castelo foi erguido entre dois reinos fantes, Fetu e Eguafo. Para não tirar dúvidas da importância do empreendimento, ao final de sua construção, "o papa Sisto IV concedeu indulgência plenária a todos os cristãos que ali falecessem a serviço da Coroa portuguesa", escreveu Laurentino Gomes no volume 1 de Escravidão (Globo Livros). Ou seja, caso o fiel trabalhador português morresse ali, sua alma passaria reto pelo purgatório e repousaria no paraíso.

Em 1487, Elmina enviava cerca de 225 kg de ouro por ano a Lisboa (uns bons R$ 67 milhões em valores atuais). Em 1500, segundo Meredith, o volume chegou a 700 kg, "uma parcela significativa da oferta mundial".

Era tanto ouro que os portugueses começaram a participar de outro comércio na África Ocidental, um em que eles já vinham experimentando nas décadas anteriores e em que viriam a ser especialistas: o tráfico de seres humanos. O clima equatorial não era adequado aos produtos que os portugueses estavam acostumados a vender. Tecidos tinham pouco valor, cavalos eram vítimas fáceis do tripanossomo transmitido pela mosca tsé-tsé e armas, muito requisitadas, eram proibidas de ser vendidas, pois o papa não queria que elas acabassem nas mãos de inimigos islâmicos.

Eles passaram então a "intermediar o comércio de escravos, adquirindo-os nos 'rios de escravos' do litoral do Benin e vendendo-os a comerciantes akans em Elmina, para uso dos carregadores no transporte das importações até o interior e como trabalhadores agrícolas. Em 1500, os portugueses enviavam, em média, cerca de quinhentos escravos ao ano para Elmina, em troca de ouro", explica Meredith.

Portugal entrou de sola no ancestral negócio da escravidão e o transformou em uma indústria global. Elmina testemunhou isso, já que, com o tempo, foi cada vez menos um entreposto comercial de ouro e outros produtos e mais um porto no tráfico atlântico de humanos escravizados.

CHEGA A CONCORRÊNCIA

(Crédito: iStock)

Em 1637, no contexto da Guerra Luso-Holandesa, em que as duas potências se engalfinharam em tretas que iam de Macau ao Recife, os batavos tomaram o forte ganês. Cinco anos mais tarde, a Costa do Ouro Portuguesa virou Costa do Ouro Holandesa.

Saíram os católicos, chegaram os calvinistas, e a situação não mudou. Elmina continuou sendo um importante porto de escravos, agora servindo o Império Holandês.

O tráfico definhou no século 19, cedendo à pressão do Reino Unido, novo soberano dos mares e que ao longo das décadas assumiu o controle desses territórios até efetivá-los, em 1874, como colônia britânica.

Em 1957, a Costa do Ouro e Togolândia se reuniram em um novo território, Gana, como a primeira colônia da África Ocidental a conquistar a independência. O passado escravagista e as invasões de portugueses, holandeses, britânicos (e também de suecos, dinamarqueses e alemães) deixaram uma profunda marca no país, que transformou Elmina em um museu nacional.

Em 1979, a Unesco inscreveu o castelo e outras construções históricas da região em sua lista de patrimônios culturais. São Jorge da Mina é o mais emblemático, mas há uma série de obras do tipo no litoral ganês. Mais especificamente, segundo a descrição, "três castelos, 15 fortes, quatro fortes parcialmente em ruínas, quatro ruínas com estruturas visíveis e dois lugares com traços de antigas fortificações".

(Crédito: iStock)

Segue o texto da Unesco: "Os castelos e fortes constituíram por mais de quatro séculos uma espécie de 'rua comercial' da África Ocidental para a qual comerciantes das nações marítimas mais importantes da Europa vinham trocar suas mercadorias pelas de comerciantes africanos, alguns vindos de muito longe no interior".

A descrição enaltece, com tristeza, a função original do castelo e aquilo em que ele se transformou, "um monumento não apenas aos males do comércio de escravos, mas também a quase quatro séculos de comércio afro-europeu pré-colonial com base na igualdade, e não na base colonial da desigualdade". Elmina e os outros fortes "são um símbolo significativo e emotivo dos encontros europeu-africanos e do ponto de partida da diáspora africana".

(Crédito: iStock)

Além de turistas querendo conhecer suas origens (ou apenas ver de perto um dos capítulos mais horrendos da história da humanidade), o castelo serve de ponto de encontro de militantes para relembrar o terror do tráfico atlântico, que por 350 anos espalhou 12 milhões de africanos pelas Américas, deixando um rastro de sangue no caminho: entre 10 e 12 milhões de mortos no continente africano, 1 a 2 milhões de mortos na travessia oceânica e 3 a 4 milhões de mortos no primeiro ano nas lavouras e cidades do Novo Mundo, segundo o levantamento de Matthew White, especialista em grandes atrocidades.

Jamais esquecer o que houve é essencial para a história e para a construção do futuro. E é também uma bela ajuda econômica. Em Gana, O Festival Full Circle, que muda a narrativa sobre a África, jogando luz mais às riquezas e à diversidade do que aos clichês de guerra, pobreza e caos, estimulou, como vimos, americanos a descobrirem o país. O estímulo à economia foi estimado em US$ 1,9 bilhão. Ainda é pouco.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.