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No Japão, "festa do pênis" era sobre fertilidade. Hoje é sobre diversidade

Felipe van Deursen

06/04/2019 05h00

(foto: iStock)

35º32'N, 139º43'L
Templo Kanayama
Kawasaki, Kantō, Japão

Toda primavera japonesa, a cidade de Kawasaki fica repleta de pênis de todos os tamanhos desfilando pelas ruas. O evento ficou famoso nos últimos anos graças à explosiva combinação "internet + pintos". Mas o "festival dos pênis", como inevitavelmente é conhecido mundo afora, é muito mais do que uma dessas "festas bizarras que você não pode deixar de conhecer".

O Kanamara Matsuri (eis o nome do evento) acontece no primeiro domingo de abril no pequeno santuário Kanayama, que fica dentro de outro templo, Wakamiya Hachimangu, em Kawasaki, cidade da Grande Tóquio. As origens dele remetem à própria origem do país.

Na mitologia japonesa, Izanagi ("Aquele que Acenou") e Izanami ("Aquela que Acenou") são o casal que criou as oito grandes ilhas do Japão antigo. Izanami deu à luz o arquipélago e, depois, o espírito do fogo, Kagutsuchi ("A Mais Velha Chama Tremeluzente"). Bem, imaginamos que colocar no mundo um deus em chamas deva ser dolorido até mesmo para as entidades pioneiras criadoras de universos. Foi o que aconteceu.

Segundo uma das versões, Izanami ficou gravemente ferida da cintura para baixo (em outras ela morreu, tornando-se antagonista de Izanagi no submundo). Então, Kanayama-hiko e Kanayama-hime, deuses criados a partir do vômito de Izanami, trataram as suas feridas. Não só o vômito, como as fezes e a urina de Izanami originaram divindades relacionadas ao fogo. Kanayama-hiko e Kanayama-hime eram, assim, os protetores dos ferreiros.

Mas, com o tempo, graças a essa conexão com os ferimentos pélvicos de Izanami, também passaram a se conectar a doenças venéreas, fertilidade, partos saudáveis e matrimônios alegres. Como o templo de Kawasaki venera essas divindades, as pessoas passaram a alimentar a tradição de celebrar a fertilidade e a confeccionar os pênis para a ocasião.

Pênis de diversos materiais e tamanhos marcam presença no festival. Foto: Flickr

 

Guloseimas fálicas fazem parte da festa. Foto: Flickr

Outra lenda para a origem fala de uma mulher que vivia com um demônio dentro da vagina. Ao se casar, o demônio devorava o pênis do marido. Ela se casava de novo, lá ia o diabo emascular o pobre homem. Até que a moça decidiu encerrar as atividades do cemitério de pintos e, espertamente, encomendou a um ferreiro um dildo de ferro. Pimba. O demônio abocanhou o pênis metálico, quebrou todos os dentes e a mulher pôde, enfim, ter uma vida normal.

Kawasaki é uma cidade portuária que ficava às margens da Tōkaidō, a histórica estrada que ligava Edo, a antiga Tóquio, ao oeste do país. Por ficar perto da capital, era uma parada popular, cheia de "casas de chá" bastante frequentadas por cavalheiros solitários…. Isso mesmo, bordéis. Teriam sido, então, as prostitutas da cidade que popularizaram o culto, pedindo proteção e saúde.

(foto: iStock)

TURISMO E DIVERSIDADE

Hoje, o festival atrai curiosos do mundo todo, relevando as origens religiosas a segundo plano. Mas, além das guloseimas fálicas (vendidas a preços eretamente inflacionados, segundo blogueiros de viagem do Japão) e dos bêbados onipresentes, o evento é um marco da diversidade em um país tradicional. Na procissão, destaca-se Elizabeth, um grande pênis rosa doado por um clube drag queen de Tóquio, carregado apenas por transgêneros.

O Kanamara Matsuri é popular entre a comunidade LGBT do país e se tornou uma data importante para o turismo local. Por trás da suposta bizarrice, tem trabalho sério: as doações recolhidas pelo templo são destinadas a pesquisas de combate à aids.

Muito mais do que apenas um bloco de pintos gigantes.

Em 2019, o festival ocorre no domingo, 7 de abril. Mais informações aqui

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.