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Venezuelanos tentam combater a fome com uma mania nacional: a manga

Felipe van Deursen

09/08/2019 09h42

Mangas na cidade de El Tigre, na Venezuela (Crédito: Reuters)

9º39' N, 68º34'O
Monumento à Manga
San Carlos de Austria, Cojedes, Venezuela

 

"(…) Enquanto isso cedeu à tentação de apanhar uma das muitas mangas da cuia. Embriagou-se um momento com o cheiro, deu-lhe uma mordida ávida, mastigou a polpa com um deleite infantil, saboreou-a por todos os lados e a engoliu pouco a pouco com um longo suspiro da memória. Depois sentou-se na rede com a cuia de mangas entre as pernas e comeu-as todas uma após outra, sem tomar tempo senão para respirar. José Palacios o surpreendeu na penúltima.
— Vamos morrer! — disse.
O general o arremedou de bom humor:
— Não mais do que já estamos."

 

O trecho acima é de O General em Seu Labirinto (1989), romance de Gabriel García Márquez sobre os últimos dias de Simón Bolívar. Só que ele não foi publicado dessa forma. O escritor colombiano, ao revisar e checar os fatos históricos que conduzem a obra, trocou as "mangas" por "goiabas". O motivo alegado é que as mangas ainda não haviam sido introduzidas nas Américas (e, consequentemente, na Venezuela natal de Bolívar) no período em que ele viveu (1783-1830), como Gabo explicou nos agradecimentos.

Umas das hipóteses para o desembarque da manga, uma fruta asiática, na Venezuela diz que os portugueses levaram mudas da África para o Brasil, que serviu de ponte para a árvore chegar ao vizinho do norte. Outra fala que os espanhóis compraram sementes em Trinidad e as plantaram na colônia.

De qualquer modo, já existiam mangas no continente na época de Bolívar. À Bahia elas chegaram bem antes disso, por volta de 1700. Há indícios de que a fruta desembarcou na Venezuela no fim dos 1800, quando o Libertador era jovem, e que, durante sua vida adulta, ela já era bastante popular no país.

Este post não é sobre um pequeno e possível deslize de Gabo, mas sobre a importância da manga para nossos vizinhos. O esmero do autor e a discussão histórica em torno da fruta dão uma dimensão do significado dela na cultura local. Provavelmente o venezuelano Bolívar não era um come-mangos, como o são muitos de seus conterrâneos hoje, fãs de mangas, mas teria ele pelo menos comido algumas dessas frutas em sua tão agitada e curta vida? Trabalhos que demandam uma pesquisa sobre a vida na Venezuela na época da independência levantam questões como essa.

Não se trata de detalhismo fútil. Mangas fazem parte da identidade nacional. 

Vendedora de mangas em rodovia venezuelana (foto: Wikimedia Commons)

As árvores dão fruto três vezes ao ano e cada temporada dura um mês. A fruta aparece em saladas, sucos, sobremesas, milkshakes e uma série de outras receitas. "Arroz con mango" é uma expressão usada para se referir a algo que está um caos. A cidade de San Carlos de Austria, famosa pela produção e variedade de mangas, tem um grande monumento em homenagem a ela.

Monumento al Mango, em San Carlos de Austria (foto: Wikimedia Commons)

MANGAS CONTRA A FOME

Nos últimos tempos, a manga tem exercido papel importante também na crise venezuelana. Ela é chamada por muitos de a "silenciadora", porque cala o ronco dos estômagos dos famintos que a comem. A falta de acesso a alimentos é um dos problemas mais sérios do país. Segundo um estudo de 2017, dois de cada três habitantes perderam aproximadamente 11 kg em um ano.

Para aplacar isso, pessoas comem mangas do quintal e da rua. ONGs acrescentam mangas nos pratos de comida que distribuem para dar um reforço. Quem antes jogava centenas de mangas fora todo ano agora as come sem pensar duas vezes. O que era um acompanhamento comum em refeições virou prato principal, e único, de muita gente. Até aquelas já mais passadas e azedas, que antes eram descartadas, acabam na barriga.

Na equatorial Venezuela, tem quem diga que há somente duas estações, com manga e sem manga. No verão, elas despencam como chuva das árvores, segundo um relato publicado no site Bloomberg. Batem na calçada e caem em carros estacionados, disparando alarmes. As que não caem sozinhas não duram muito nos galhos, pois trabalhadores com pedaços de pau e crianças com pedras dão seu jeito.

Mangas são saudáveis, ricas em vitaminas A e C. São calóricas e cheias de fibras, por isso ajudam a saciar a fome. Mas não podem ser a base de nenhuma dieta. Venezuelanos estão fazendo o que podem, aproveitando a exuberância da sua natureza para dar um jeito. É uma medida desesperada. Quem tem fome não espera.

Essa relação manga x fome também chamou atenção no Brasil este ano, mas por motivos mais pitorescos e excêntricos, como tem sido em 2019. Em abril, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que brasileiros "não passam fome porque há mangas nas nossas cidades". A declaração pegou mal. Primeiro porque ignora um grande problema histórico do Brasil. Segundo porque não faz sentido do ponto de vista nutritivo. Para suprir a quantidade diária de proteínas recomendada, por exemplo, um homem de 70 kg precisaria comer 47 mangas por dia. Isso dá mais ou menos 15 por refeição ou uma a cada 20 minutos, caso o cidadão queira manter oito horas de sono diárias. Não rola.

Pode não servir para combater para valer a fome, mas é uma munição comicamente efetiva. Em 2015, uma simpatizante do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, atirou uma manga na sua cabeça. A fruta vinha com um pedido por escrito: a mulher queria uma casa. Populista que só, ele a atendeu. Os críticos do regime pediram então que as pessoas passassem a jogar abacaxis nele, para ver o que aconteceria.

Manga não combina com arroz, segundo a expressão, nem com política, como vimos. Melhor derrubar "fake news" paleozoicas e misturar manga com leite. Sem medo.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.