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Hotel "maldito" na Coreia do Norte é o prédio abandonado mais alto do mundo

Felipe van Deursen

07/09/2019 04h00

Hotel Ryugyong (Crédito: Getty Images)

39º02'N, 125º43'L
Hotel Ryugyong
Pyongyang, Coreia do Norte

Em 1987, o mundo socialista proporcionou um de seus últimos suspiros de grandiosidade quando a Coreia do Norte iniciou as obras de um gigantesco hotel em sua capital, Pyongyang. O prédio teria mais de 300 m de altura, 3 mil quartos e cinco restaurantes com vista panorâmica. Seria um marco.

O Hotel Ryugyong foi concebido sob medida para ofuscar os capitalistas da Coreia do Sul. Um ano antes, uma firma sul-coreana havia construído o então hotel mais alto do mundo, o Westin Stanford, em Cingapura. Mas, como erguer prédios cada vez mais altos é uma disputa fálica muito mais antiga e duradoura que a Guerra Fria, esse título passou por alguns edifícios desde então. Em 2007, um hotel de Dubai tornou-se o mais alto do mundo, só para ser ultrapassado em 2012 por outro, também de Dubai, que por sua vez foi superado em 2017 pelo Gevora, torre de 356 m que, perdão pela falta de criatividade, também fica no emirado. Veremos por quanto tempo.

Além disso, a rival Coreia do Sul tinha outra carta na mão. Ela estava nos trending topics daquela saudosa época sem trending topics, pois o país sediaria as Olimpíadas de 1988, em Seul. Então, os vizinhos do norte precisavam rapidamente de uma reação.

O objetivo era usar estrear o arranha-céu para sediar o Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes de 1989, um grande evento internacional de esquerda, que teria a participação de 177 países. Mas aí os problemas começaram.

O governo já havia torrado uma dinheirama na construção de um estádio, na pavimentação de rodovias e na expansão do aeroporto. Houve atraso na entrega de materiais da megaobra e uma série de desafios estruturais que a atrasaram. O festival rolou enquanto o esqueleto do hotel ainda estava subindo.

Naquele mesmo ano, derrubaram aquele muro em Berlim e o hotel subindo. Em 1991, a União Soviética colapsou  e o hotel subindo a duras penas. Quando ele atingiu a altura definida, 330 m, o cofre secou. Sem os aportes de Moscou e de Pequim, a frágil economia da Coreia do Norte entrou em declínio. Após ter torrado mais de 2% do PIB no prédio, o governo abandonou as obras.

Pyongyang, uma cidade com poucos prédios altos, ganhou um esqueleto de 105 andares. A cereja desse apocalíptico bolo de concreto foi um guindaste largado lá em cima.

E assim se seguiram os próximos 16 anos. Kim Il Sung, que governava o país desde a sua criação, em 1948, morreu em 1994 e foi sucedido pelo filho, Kim Jong Il, fã de cinema, lagostas e conhaque Hennessy. Vieram a grande fome que matou centenas de milhares de pessoas, o "eixo do mal" de George W. Bush e os primeiros testes nucleares. Nesse tempo, o prédio ganhou o apelido de "hotel da desgraça". A hipótese de que ele jamais seria concluído ganhou força de testamento.

Em 2008, contudo, as obras foram retomadas por uma companhia egípcia que estava construindo a rede 3G na Coreia do Norte. O guindaste enferrujado deu adeus à paisagem e, em 2011, a estrutura estava toda coberta de vidro e metal.

Kim Jong Il morreu naquele ano e cedeu o posto de supremo líder a seu filho Kim Jong Un, torcedor do Manchester United e fã do Donkey Kong (segundo seu amigo Dennis Rodman). Parecia que o caricato ditador finalmente veria concluído o empreendimento da época de seu avô.

No fim de 2012, o grupo de hotéis de luxo alemão Kempinski anunciou que inauguraria parcialmente o hotel em meados de 2013. Só para meses depois pular fora do barco, alegando não ser possível entrar no mercado.

Desde então, houve sinais tênues de retomada nas obras. No ano passado, uma fachada ganhou um imenso painel de LED. Este ano, a entrada principal recebeu o letreiro com o nome do hotel.

Ryugyong Hotel (Crédito: Getty Images)

O formato piramidal do prédio não é uma questão meramente estética, segundo especialistas. Calvin Chua, um arquiteto pesquisador do urbanismo de Pyongyang, explicou à CNN americana que isso se deve à estrutura de concreto armado do hotel. Arranha-céus dessa magnitude costumam ter a estrutura feita primordialmente em aço (é só lembrar das colunas retorcidas e fumegantes de 11 de setembro de 2001).

Uma torre de mais de 300 m de concreto armado precisa ter andares superiores mais leves e uma base mais robusta, segundo Chua. Daí o jeitão de pirâmide.

Ou de montanha. O Ryugyong é, há 27 anos, uma montanha artificial na paisagem. O argumento técnico corrobora a mensagem, já que montanhas são algo especial no simbolismo coreano. O Monte Baekdu (2.744 m), o mais alto da península, tem papel importante na mitologia local. Ele foi o berço de Dangun, lendário fundador do primeiro reino da Coreia, e de Kim Jong Il, de acordo com sua biografia oficial. O segundo líder supremo teria vindo à luz na montanha, enquanto seu pai liderava a guerrilha contra os japoneses.

Na verdade, é mais seguro dizer que Kim Jong Il nasceu na Sibéria, quando Kim Il Sung estava exilado na União Soviética. A versão da montanha faz parte da mitologia moderna da Coreia do Norte, que é transmitida junto com slogans políticos no painel de LED.

O hotel talvez nunca fique pronto. Mas desde 1987 ele já cumpre a missão de ser um colossal instrumento de propaganda do governo.

PS.: o Ryugyong ainda é o prédio desocupado mais alto do mundo. Mas, caso ele abra as portas algum dia, não será o prédio mais alto nem da Península Coreana. Em 2017, foi ultrapassado pelo Lotte World Tower, de Seul, que tem 555 m de altura. A diferença entre o Lotte e o Ryugyong é de 225 m  basicamente um Infinity Coast, edifício mais alto do Brasil, no bisonhamente verticalizado Balneário Camboriú.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.