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Verão do pó: o dia em que meia tonelada de cocaína mudou uma pequena ilha

Felipe van Deursen

14/09/2019 04h00

    Ilhéu de Vila Franca do Campo (Crédito: Getty Images)

37º48'N, 25º35'O
Rabo de Peixe
Ilha São Miguel, Açores, Portugal

Em 1987, a tripulação do Solana Star, navio que transportava maconha com destino aos Estados Unidos, descobriu que a Polícia Federal do Brasil, alertada pelo DEA, o órgão de combate às drogas dos EUA, estava em seu encalço. Para despistar os policiais, os tripulantes despejaram 22 toneladas da droga no mar. 

Essa maconha chegou à costa brasileira, especialmente entre o litoral norte paulista e a zona sul carioca. Devido ao recipiente em que ela estava armazenada, como se fosse um inocente leite em pó, a erva batizou toda uma época. Aquele foi o "verão da lata".

Em 2001, algo semelhante ocorreu em Portugal, mas em uma escala muito mais brutal, danosa e desprovida de referências do carioquismo oitentista de Fernanda Abreu. O "verão do pó" nos Açores tem efeitos até hoje.

Ponta Delgada, a maior cidade dos Açores, fica na ilha de São Miguel (Crédito: Getty Images)

Em 6 de junho daquele ano, um iate branco, de 40 pés, parecia à deriva perto dos penhascos de São Miguel, a maior ilha açoriana. Um barco daquele tamanho não era comum na freguesia de Pilar da Bretanha, com águas rasas, maré forte e pedras afiadas.

O homem do iate era um navegador experiente que tinha cruzado duas vezes o Atlântico nos meses anteriores, entre as Ilhas Canárias e a Venezuela. Seu destino era a Espanha, mas tanta viagem castigou o barco, que estava com o leme avariado. Então, ele decidiu parar em São Miguel.

Ele navegava rente à costa porque precisava esconder a mercadoria antes de desembarcar no porto. São Miguel tem um punhado de cavernas, e uma delas acabou servindo. O homem transportava dezenas de tijolos de cocaína plastificados e amarrados com elástico. Usando redes de pesca e correntes, afundou o conteúdo com uma âncora. Em seguida, navegou, mais tranquilo, até vila Rabo de Peixe.

Feteiras em São Miguel, Açores (Crédito: Getty Images)

Ao mesmo tempo, um nevoeiro tomou São Miguel, o mar ficou agitado e as ondas acabaram soltando as redes com a cocaína. Os pacotes vieram à tona.

A cocaína saiu da Venezuela com destino às Baleares, as festeiras ilhas espanholas do Mediterrâneo. Mas acabou nos Açores, as pacatas ilhas portuguesas do Atlântico. Quando a maré a carregou até diversos pontos de São Miguel, não tinha como dar certo. Pior: as análises mostraram que a pureza era de mais 80%, muito superior ao pó normalmente encontrado nas ruas. Pior ainda: não era pouca cocaína, mas pelo menos 500 kg.

A localização dos Açores fez do arquipélago uma escala nas rotas de comércio entre Europa, África e Ásia desde os tempos do Império Português, que iniciou a colonização dessas bucólicas ilhas vulcânicas no século 15. Desde então, seus habitantes vivem da agricultura, pesca e pecuária. São Miguel é a principal ilha e tem só 140 mil habitantes.

Dá para imaginar o que meia tonelada de cocaína pode causar em uma comunidade desse tamanho, ainda por cima sem um convívio próximo com ela ao longo do tempo. Heroína e haxixe eram drogas mais comuns do que cocaína até então.

No dia seguinte, 7 de junho, um pescador de Pilar da Bretanha achou os primeiros pacotes e acionou a polícia. Em semanas, quase 500 kg foram apreendidos. Mas nem todo mundo fez isso. A chegada repentina de tanto pó criou pequenos traficantes locais, que a transportavam em batedeiras de leite, latas de tinta e meias.

Segundo os relatos, dois pescadores surrupiaram uma quantidade tão grande de pó que se tornaram legendários. Um deles tinha tanta cocaína no carro para vender que os bancos já estavam brancos, segundo uma reportagem do jornal Guardian. Esse mesmo Tony Montana açoriano teria dado 300 g a um amigo só para pôr seu telefone para carregar. 

Usuários não tinham dificuldade em encontrar copos de cerveja com 150 g de pó vendidos a € 20, uma pechincha. A abundância era tamanha que não era difícil confundir a droga com outros pós brancos. Havia rumores de cocaína no peixe frito do almoço e no cafezinho da tarde. As estimativas indicam que cerca de 200 kg de cocaína se perderam em São Miguel.

Toda essa droga era vendida especialmente nas vielas e ruas de casinhas em tons pastéis de Rabo de Peixe, uma vila de 9 mil habitantes, com igrejas dos século 16 a 18 e um calendário repleto de festas religiosas tradicionais. Não é o cenário mais óbvio para de repente se tornar um "cocainódromo".

Em questão de semanas, um número alarmante de pessoas chegou ao hospital com sintomas de enfarte. Os casos de overdose se acumularam. Coincidentemente, 2001 foi o ano em que Portugal descriminalizou a posse e o consumo pessoal de drogas, medida que se mostrou bem-sucedida e virou referência mundial.

Nos anos seguintes ao "verão do pó", muitos usuários passaram a consumir outras drogas. Alguns ficaram viciados em heroína, que chegava do continente. Mas houve também efeitos menos esperados na sociedade. Aqueles que enriqueceram com o tráfico usaram o dinheiro às vezes em negócios legais. Existem cafés na ilha que foram abertos com dinheiro da cocaína.

E o que houve com o traficante que começou isso tudo? Antonino Quinci era um siciliano que trabalhava para o crime organizado espanhol. Foi preso, fugiu, acabou recapturado e condenado.

O insólito episódio não serviu para afugentar outros traficantes. Pelo contrário. Assim como no passado colonial, os Açores se firmaram como uma parada para as longas viagens transatlânticas do tráfico. O arquipélago é usado na rota das drogas que saem do Caribe e acabam nas ruas da Península Ibérica. No ano passado, um catamarã com bandeira francesa foi pego em Faial, outra ilha açoriana, com 840 kg de cocaína. Nova temporada de "verão do pó" a caminho?

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.