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Uma ilha onde as mulheres estão no comando de tudo

Felipe van Deursen

19/10/2019 04h00

(Crédito: Reprodução/Instagram)

58º07'N, 23º59'L
Kihnu
Pärnumaa, Estônia

Imagine viver em uma pequena ilha com interior arenoso, uma costa rochosa, muito úmida e com invernos em que o normal é o termômetro ficar próximo de zero. Para comer e se sustentar, a pesca se torna ainda mais necessária do que normalmente é em qualquer comunidade litorânea.

Essa é a realidade há gerações em duas pequenas ilhas do Mar Báltico, Kihnu e Manija. A pesca e a caça de focas mantém, desde o século 19, os homens de Kihnu longe de casa por meses. As mulheres permaneciam para trabalhar a terra e manter os afazeres domésticos.

Igreja Kihnu (Getty Images)

E ainda tinham um tempinho para desenvolver uma cultura local ricamente expressada, especialmente, nas roupas e na música. Em teares tradicionais e com lã local, elas tecem e tricotam blusas, saias, luvas e meia cheias de listras, cores e bordados sofisticados que fazem referência a lendas próprias.

Nas atividades coletivas de artesanato e celebrações religiosas, as mulheres sempre cantam. Nesse farto repertório musical, existe uma tradição oral pré-cristã, as canções rúnicas.

As mulheres de Kihnu e Manija ainda mantêm diversos jogos, danças e cerimônias. Tamanha riqueza cultural rendeu a nomeação de patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco, em 2008.

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A população de Kihnu gira em torno de 600 pessoas. A metade feminina toca o dia a dia durante as longas temporadas de pesca, assumindo todas as funções sociais, muito além das tradicionalmente ligadas a mulheres. O padre não precisa estar presente para a igreja manter as portas abertas para a comunidade, por exemplo.

Kihnu é um pedacinho de terra de 16 km2 com praias arejadas, lindos bosques e fazendas coloridas. Preservada em todos os sentidos, mas com um leve ar ameaçador ao seu modo de viver.

A população da ilha, tão pequena que não lota nem um teatro médio, está diminuindo. Na falta de emprego, muitos estão procurando trabalho no continente. Além disso, mudanças econômicas e tecnológicas na indústria da pesca não exigem mais que os homens passem tanto tempo no mar. Então muitos já estão ficando mais tempo em casa, causando certo desequilíbrio em uma cultura que se desenvolveu colocando as crianças no topo e os homens na base.

(Crédito: Getty Images)

A boa notícia é que dificilmente o turismo exerça algum desgaste ao estilo de vida de Kihnu. Não há estrutura para receber manadas de turistas. A ilha tem só um punhado de ruas pavimentadas, e as que são nem sempre têm o mínimo de sinalização. O comércio é mirrado, sem grandes redes, sem caixas eletrônicos, sem restaurantes que fiquem aberto o ano todo. Segundo o New York Times, os ilhéus, ou melhor, as ilhoas tratam os visitantes mais como convidados do que como turistas.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.