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Contra a covid-19, folclore japonês e até Santa Corona ganham popularidade

Felipe van Deursen

12/04/2020 04h00

32º'49'N, 130º35'L
Kumamoto
Kyushu, Japão

Diz a lenda que no quarto mês do ano Kōka-3, mais conhecido como 1846, um homem da província de Higo, no sul do Japão, viu um ponto brilhante no mar noturno. Ele foi até a praia e desenhou o que estava diante de seus olhos.

Era uma criatura de cabelos compridos e uma boca que lembrava mais um bico. Tinha três pernas e o corpo coberto de escamas do pescoço para baixo. Ela se identificou como uma amabie. Vivia no mar aberto, mas dirigiu-se a Higo, a atual Kumamoto, para lançar uma profecia.

Segundo a amabie, boas colheitas se seguiriam pelos próximos seis anos e, caso uma doença surgisse e se espalhasse, era só mostrar uma ilustração dela aos enfermos que eles se curariam.

A história e o retrato acabaram em um kawaraban, espécie de jornal impresso em telha usado para disseminar notícias, fofocas e afins. Dos arredores do belo castelo de Kumamoto, uma das primeiras construções do tipo e que seria destruído 30 anos depois (e felizmente reconstruído em 1960), a amabie se espalhou para o resto da ilha de Kyushu. Depois para Honshu e o resto do arquipélago.

Castelo de Kumamoto (Crédito: Getty Images)


A amabie é um yōkai, classe de criaturas sobrenaturais do folclore japonês. Esses monstros, demônios e espíritos eram bastante populares no Japão da segunda metade do século 19, quando o país se abriu para o mundo e a Restauração Meiji aboliu o feudalismo.

Era uma nova realidade. Novas relações comerciais, novas invenções chegando, novas doenças para infectar a população. Uma abertura forçada de fora, que acabou levando muitos a buscarem respostas e conforto olhando para dentro.

Estudiosos acreditam que a amabie seja uma versão local (de Kyushu) da amabiko, criatura similar que também vem do mar para prever boas colheitas e epidemias. Ou seja, a amabie seria só mais um yōkai, de tantos outros, a se misturar nessa (permitida) aglomeração mitológica.

Até que chegou 2020, ano da explosão da pior pandemia do século 21 (esperemos que mantenha o título).

Ilustrações da amabie vêm circulando nas redes sociais (procure por #amabie ou #アマビエ) desde que a covid-19 chegou ao Japão, em 20 de janeiro. Na primeira semana de março, as escolas fecharam e a figura folclórica iniciou sua escalada. O Google Trends, serviço que analisa as buscas por determinado termo ao longo do tempo, indica que a amabie deve seguir essa fase de popularidade. Não só no Japão, como em outras partes do mundo, ela vem sendo invocada na luta contra o Sars-CoV-2.

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MAIS UMA NA LUTA

Na Europa, uma outra figura parece estar ganhando uma nova roupagem enquanto experimenta uma onda crescente de popularidade. O motivo é bem mais explícito do que uma amabie com máscara cirúrgica no rosto. Está no próprio nome: Santa Corona.

Acredita-se que ela viveu no século 2, na Síria, então uma província romana. Uma época e lugar em que o cristianismo era uma seita perseguida. Ao ver um soldado romano ser torturado por ter sua fé descoberta pelas autoridades, Corona teria declarado publicamente que também era cristã. Ambos foram executados.

Santa Corona (c. 1350), Galeria Nacional da Dinamarca (wikicommons)

Segundo a tradição, séculos depois os restos dos mártires, já canonizados como São Vítor e Santa Corona, foram trasladados para uma igreja erguida por cruzados em Feltre, no norte da Itália. Parte dessas relíquias também estaria na Alemanha, em Aachen (Renânia do Norte-Vestfália), aonde teriam sido levadas pelo imperador romano-germânico Oto 3º. Como acontece com muitos mártires do princípio do cristianismo, há pouca ou nenhuma evidência histórica de suas vidas.

Além disso, na Idade Média, esses restos mortais diversas vezes experimentavam o milagre da multiplicação das relíquias. Era comum um santo ter vários fêmures, por exemplo, espalhados pelo continente. Por isso a Igreja, com o tempo, aboliu a prática.

Em 2019, a bela Catedral de Aachen, uma das mais antigas da Europa, anunciou que no verão europeu de 2020 iria exibir o altar dourado de Santa Corona ao público, cada vez mais interessado nela. Mas a quarentena veio e os planos foram adiados.

Catedral de Aachen (Crédito: Getty Images)

Tudo não passou de uma grande coincidência. Primeiro porque há um ano não existia o pavor do coronavírus. Segundo, e mais importante, Santa Corona jamais foi associada a doenças e epidemias, diferentemente da amabie japonesa. Corona é uma santa mais ligada a proteção a dinheiro e até a caças a tesouros.

Mas parece que, na Áustria, a santa tem outras funções protetoras. Na igreja de Santa Corona na cidade de Kirchberg am Wechsel (Baixa Áustria), a mártir ajuda os fiéis contra tempestades, colheitas mal-sucedidas e… Epidemias.

Igreja de Santa Corona (wikicommons)

Não é incomum que um santo seja protetor disso aqui e daquilo acolá. Acontece com santos pouco conhecidos, como Corona, e até com grandes celebridades da Igreja. Santo Expedito, outro mártir cristão, patrono das causas urgentes, tem um culto particular em Reunião, departamento ultramarino francês no Oceano Índico. Na ilha, a beleza do sincretismo religioso misturou o santo com ritos de Madagascar e da Índia.

Lá, nas estradas, há pequenos altares pintados de vermelho e repletos de flores e imagens em agradecimento a tudo quanto é graça, fruto de reza para causa urgente ou causa "a longo prazo". Todos dedicados a Santo Expedito. Uma das versões para a origem do costume diz que uma cidadã local ficou presa muito tempo em Marselha por causa da pandemia de 1918, a gripe espanhola. Ela teria rezado ao santo e prometido a ele uma igreja caso conseguisse deixar a França e voltar para casa.

Santo Edmundo, um rei inglês martirizado no século 9, tem uma relação especial com Toulouse, onde suas relíquias foram depositadas. Mais de 700 anos após sua morte, a cidade francesa foi atacada pela peste. Ao superá-la, ela ergueu, em agradecimento a Edmundo, um novo altar. O culto a Edmundo em Toulouse ganhou vida nova, dessa vez com proteção estendida a epidemias.

Se pandemias e epidemias do passado levaram outros santos a novas paisagens e a novas formas de culto, o caminho está aberto para Santa Corona. E, talvez, em parceria com um espírito marinho japonês.

 

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.