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Terra à vista!

Um monumento em memória de quem foi escravizado, e não de quem escravizou

Felipe van Deursen

14/06/2020 04h00

    (Crédito: Getty Images)

6º19'N, 2º05'L
Porta do Não Retorno
Ouidah, Atlantique, Benin

 

Francisco Félix de Sousa foi um ex-escravo e mercador que, por volta da virada do século 18 para o 19, deixou o Brasil para se estabelecer no lugar que escancarava sua especialização: a Costa dos Escravos, como era chamada a região litorânea dos atuais Benin, Togo e Nigéria. Na cidade de Ouidah, ou Ajudá, em português, ele prosperou nas funções de intermediário e armazenador de pessoas escravizadas.

Com a proibição do tráfico para os Estados Unidos e as colônias britânicas, o mercado atlântico passou a olhar ainda mais para o Brasil, e os preços cobrados para cada ser humano aumentaram. O baiano Francisco Félix, que já vinha se dedicando ao comércio com a terra natal, deu uma cartada ousada. Investiu em navios, apostou nos negócios com escravagistas do Brasil e ficou incrivelmente rico. Tão rico que se desentendeu com rei local, Adandozan.

Condenado, Francisco Félix fez um pacto de sangue com um meio-irmão de Adandozan, que tramou um golpe. O plano deu certo. Esse irmão tornou-se o rei Guezô e não se esqueceu do seu parceiro. Francisco Félix, que era conhecido pelo apelido "Chacha", ganhou terras e a função de intermediário comercial do rei em assuntos ligados à exportação de escravos.

Francisco Félix agora era tão influente que "Chacha" virou um título, passado até hoje a seus descendentes. Figura controversa, morreu aos 94 anos, tinha 12 mil escravos, chegou a ser um dos três homens mais ricos do mundo à época. No fim da vida, começou a substituir o comércio escravagista por outro, o do azeite de dendê, ou óleo de palma, um mercado ainda incipiente (e que, no século 21, passaria a ser visto com outros olhos, por se tratar de uma grave ameaça às florestas tropicais).

Chacha inspirou filme e livros. Em 2006, sua casa, restaurada, foi inaugurada pelo então presidente Lula, em uma viagem oficial celebrada pelos muitos descendentes de brasileiros em Benin, os agudás.

Atrás da antiga casa fica a praça Chacha, onde as pessoas capturadas em diversas regiões do interior eram leiloadas. É lá que, atualmente, começa a Rota dos Escravos, uma recriação artística em memória desses seres humanos.

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

(Crédito: Getty Images)

A Rota dos Escravos segue uma estrada de chão do centro de Ajudá até a praia, onde ficava, acredita-se, o píer dos navios negreiros. Ao longo do caminho, há uma centena de estátuas que evocam vodus associados a forças da natureza e a símbolos de reis, além dos próprios escravos.

Dois artistas beninenses conceberam as estátuas, Cyprien Tokoudagba e Dominique Kouas. Tokoudagba pintava, ainda jovem, temas vodus em templos. Na década de 1980, seu trabalho começou a chamar a atenção estrangeira. Consagrou-se na França e teve trabalhos expostos em mostras internacionais. Aliás, o Museu Afro Brasil, em São Paulo, possui algumas peças do artista, morto em 2012.

A rota atravessa bairros e sítios históricos, além de templos vodus. Como, nos séculos 18 e 19, havia outros caminhos para a praia e boa parte do trajeto era feito em canoas, cruzando lagoas, e não a pé, é evidente que o caminho é uma construção fictícia, não histórica, lembra a historiadora Ana Lucia Araújo em um artigo publicado em 2009 na Varia Historia, publicação da UFMG.

No fim dos quatro quilômetros de percurso fica a Porta do Não Retorno, um imponente portão inaugurado em 1995 e concebido por outro artista beninense, Fortuné Bandeira. O arco é acompanhado por quatro colunas, decoradas com baixos-relevos que representam escravos nus, de joelhos. Na parte superior, fileiras de cativos, igualmente nus, caminham em direção a um navio que fica no ponto de fuga da obra. Há também outros baixos-relevos, além de estátuas, representando eguns, os espíritos dos mortos, realizadas por Yves Appolinaire Pédè.

Dominique Kouas concebeu ainda quatro esculturas de ferro que marcam uma ruptura com a imagem do escravo apenas como vítima, como propriedade, que se vê no resto da Porta do Não Retorno. Nelas, as pessoas levantam os braços e arrebentam as correntes, gritando por liberdade.

Duas visões ora conflitantes ora complementares que se misturam nessa obra feita em homenagem a tanta gente. Bem diferente, para não dizer antagônica, das estátuas que celebram homens que fizeram fortuna com a escravidão e o colonialismo e que têm sido, mais uma vez, alvos de protestos na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, os bandeirantes estão na mira. No Chile, como falei recentemente aqui no blog, poucas estátuas e monumentos foram poupados durante as manifestações de 2019.

Sim, Francisco Félix de Sousa também ficou podre de rico graças à escravidão. E sim, sua memória também é motivo de debate em Ajudá, inclusive no que diz respeito à renomeação da praça Chacha.

O caminho tem outros pontos importantes, como a Árvore do Esquecimento, replantada em 1992. Homens escravizados deveriam dar nove voltas em torno dela. Mulheres, sete. Feito isso, eles abandonariam seu passado, suas origens.

Esse processo de esquecimento era traumático e real, pois cada passo, desde que liberdade virou saudade, era uma camada a mais de despersonalização. Entre sua aldeia e uma fazenda do outro lado do Atlântico, uma pessoa escravizada podia ser objeto de cinco transações, após uma viagem que durava cerca de um ano em navios que tinham, muitas vezes, singelos nomes, que camuflavam sua sordidez: Caridade, Boa Intenção, Amável Donzela, Feliz Destino etc.

O temor era tamanho que um missionário, citado no clássico O Trato dos Viventes, de Luiz Felipe de Alencastro, assim descreveu:

"Estão persuadidos de que, chegando àquelas terras, seriam mortos pelos compradores, os quais, conforme pensam, tirariam de seus ossos a pólvora e dos miolos e das carnes o azeite que chega à Etiópia (…) portanto, só pelo terror de serem mandados para a América, agitam-se freneticamente e, se possível, fogem para as matas. Outros, no momento de embarcar, desafiam as pauladas e matam-se a si mesmos, atirando-se à água."

 

Outro local de trauma da rota é o Memorial de Zoungbodji. Era o lugar em que, segundo a tradição, as pessoas eram marcadas com ferro em brasa e onde aqueles que não sobreviviam no cativeiro de Zomaï, também lembrado com um monumento, eram enterradas em vala comum.

A Rota do Escravo é um projeto criado na década de 1990, pouco após a redemocratização de Benin. O objetivo principal era celebrar a memória das vítimas do tráfico negreiro, comércio que estava no centro de tudo do próprio reino que deu origem ao país.

Crédito: Getty Images)

 

DAOMÉ

No século 18, uma série de campanhas militares de sucesso sobre rivais consolidou a expansão dos reinos Daomé e Hogbonu. Boa parte dos prisioneiros dessas investidas acabava vendida a mercadores de escravos na costa, fazendo a fortuna de gente como Chacha e Adandozan.

Por ter uma economia pouco diversificada, os reinos sentiram as consequências do fim do tráfico atlântico e da escravidão na maior parte do mundo ao longo do século 19. Tal qual um país que vive de petróleo em tempos de barril barato, o Daomé ficou fragilizado.

O fato de que a escravidão era uma atividade econômica, com leis de mercado e causas e consequências políticas semelhantes a outras atividades, só evidencia o quão cruel e nefasta ela era. Portos, navios, capitães e empresários que estavam no ramo de vender gente partiram para outros negócios, como o óleo de palma. Mudaram de ramo e seguiram o jogo.

No fim do século, a França se apossou dos dois reinos, unificando-os sob o protetorado do Daomé. Em 1960, o país conquistou a independência, sofreu quatro golpes de Estado, até virar uma ditadura socialista em 1972. Três anos depois, abandonou o antigo nome, completamente ligado à escravidão, e passou a se chamar Benin. Na teoria, isso apagaria o passado e daria aos oprimidos uma voz. Mas a liberdade de expressão foi reprimida e o vodu permaneceu legado ao âmbito doméstico.

Em 1989, na esteira da queda do Muro de Berlim, protestos tomaram o país e o ditador Mathieu Kérékou foi forçado a promover a abertura política e econômica. Na década seguinte, no começo do processo de redemocratização, a república passou a divulgar ao mundo sua herança cultural. Nesse contexto, surgiu a Rota dos Escravos.

Ajudá estava em franca decadência desde o fim do porto de escravos. Além da rota, a cidade ganhou museu (mais um previsto para abrir em 2020), festivais e monumentos, que deram vida nova e criaram um mercado de turismo, apoiado pela Unesco. Tudo em volta do debate do papel do país no passado escravagista.

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O vodu praticado pela maioria da população de Benin tem semelhanças com o candomblé. Feijoada e acarajé fazem parte da culinária. A óbvia conexão entre Benin e Brasil é muitas vezes esquecida e negligenciada. A Porta do Sem Retorno honra a memória das cerca de 1 milhão de pessoas que deixaram aquela praia para nunca mais voltar. Contra a vontade, elas saíram por aquela porta – e acabaram construindo uma ponte.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.