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A vida e o medo da covid em uma das ilhas mais densamente povoadas do mundo

Felipe van Deursen

02/08/2020 04h00

Santa Cruz del Islote (Crédito: Instagram/Santiago Castol)

 

9º47'N, 75º51'O
Santa Cruz del Islote
Arquipélago de San Bernardo, Bolívar, Colômbia

No século 19, pescadores do Caribe colombiano construíram uma ilhota artificial com pedras, conchas e entulho para usá-la como descanso e abrigo para os trabalhadores que iam e vinham de Cartagena das Índias, Tolú ou Coveñas. Com o tempo, descobrindo que ali era um bom ponto de pesca, alguns começaram a se estabelecer. Construíram casas com conchas, cascas de coco, troncos, areia e até lixo.

Trouxeram as famílias, mais gente chegou, novas gerações surgiram. Hoje, cerca de 500 pessoas habitam a ilhota de 12 mil m2, área que não chega a completar dois campos de futebol nos padrões da Fifa. Uma densidade populacional de 40 mil seres humanos por quilômetro quadrado. A Rocinha, no Rio de Janeiro, tem uma taxa de 39 mil.

Muita muvuca, mas não o suficiente para considerá-la a ilha mais densamente povoada do mundo, como alguns sites caça-cliques e perfis mendigando likes já postaram. Ilet a Brouee, no Haiti, por exemplo, tem uma população semelhante se espremendo em um espaço três vezes menor.

Existe uma dezena de outras ilhotas e ilhas mais transbordantes de gente no mundo, aliás. Mas nenhuma é assim, circular, de desenho animado, e com esse contraste tão marcante do azul plácido caribenho com o cinza árido dos telhados ondulados de fibrocimento, amianto ou zinco.

Então veio a fama e com ela alguns visitantes curiosos. O turismo deu um gás na economia local. Não tem água corrente, mas tem hostel, e os turistas podem ter um vislumbre da vida no local e nadar com tubarões e arraias.

Santa Cruz tem uma escola e população majoritariamente jovem. Quem decide ficar na ilha acaba trabalhando com pesca ou turismo.

Em 2020, chegou aquela sombra "covídica" e a preocupação, comum a tantos outros lugares com desafios e problemas de habitação semelhantes. Como lidar com uma pandemia de uma doença ainda sem vacina, em que o isolamento social é uma das medidas efetivas?

Um guia turístico resumiu o clima à agência de notícias AFP: "Nós estamos isolados, longe do vírus, mas, sim, sentimos medo de que uma pessoa contaminada chegue à ilha, infecte todo mundo e todos morram", disse Adrián Caraballo, 22 anos, no começo de julho. 

Até o momento, não há casos registrados de covid-19 na ilhota, embora lá vigore, involuntariamente, uma versão deturpada e pandêmica de "don't ask, don't tell". Ninguém testou, ninguém tem. Assim se espera.

A rede de TV colombiana Caracol ainda lembra que Santa Cruz não tem energia elétrica, não tem médico, não tem respiradores, não tem cemitério, tem muitos adultos diabéticos e hipertensos e apenas uma enfermeira. Água potável e mantimentos chegam de barco, o que inevitavelmente aumenta os riscos de contágio. 

Para piorar, o grande facilitador turístico da ilhota virou um fator de risco: ela fica a apenas duas horas de barco de Cartagena. O departamento de Bolívar, cuja capital é "A Heroica", é um dos mais afetados pela doença.

As autoridades da ilha instituíram um protocolo de quarentena para qualquer um que volte do continente. Os moradores estão se valendo de criatividade e jeitinho, já que o distanciamento social é inviável.

Hotéis, restaurantes e bares de ilhas vizinhas estão fechados. O turismo foi atingido em cheio, como em todo lugar. As crianças correm e os adultos jogam dominó, esperando tudo isso passar. Para aplacar a crise, a pesca tradicional, para consumo próprio, voltou a ser praticada, como no tempo dos pioneiros.

Naquela época, o lugar, ainda sem nome, ganhou uma cruz de cimento. Virou Santa Cruz del Islote.

 

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.