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Jerash: a joia romana do Oriente enfrenta novas crises em sua dura história

Felipe van Deursen

06/09/2020 04h00

Jerash, na Jordânia, é um dos mais belos tesouros romanos do Oriente Médio. Foto: Getty Images

32º16'N, 35º53'L
Ruínas romanas de Jerash
Jerash, Jordânia

Jerash passou séculos esquecida. Um dos mais belos tesouros romanos do Oriente Médio, foi redescoberta em 1806 e hoje só não é a antiga cidade mais famosa da Jordânia porque existe Petra.

Agora, Jerash (ou Gérasa) enfrenta uma nova crise em sua milenar história. A tradicional produção de olivas na região sofreu um baque seguido de outro. Em maio, queimadas devastaram plantações nas proximidades do sítio histórico, carbonizando algumas oliveiras que tinham centenas de anos.

O desastre ocorreu em plena pandemia. Em março, o governo decretou estado de emergência, fechou fronteiras, trancou o espaço aéreo, abaixou as portas do comércio e mandou todo mundo ficar em casa.

Enquanto os cidadãos se preocupavam com a alimentação básica, os produtores de azeite de Jerash viram a produção encalhar. De 2,4 mil toneladas feitas em 2019 e 2020, apenas 100 foram vendidas até junho, segundo o Olive Oil Times.

"POMPEIA DO ORIENTE"

Textos gregos antigos indicam que a cidade foi fundada por Alexandre, o Grande, quando ele deixou o Egito rumo à Mesopotâmia, em 331 a.C. Mas é mais provável que ela seja dois séculos mais nova e que tenha sido obra de Antíoco IV, um rei selêucida (uma das dinastias herdeiras de Alexandre), no século 2 a.C.

Os selêucidas, seguindo os passos do grande conquistador, caracterizavam-se por mesclar a cultura grega com a dos povos do Oriente Médio, naquilo que conhecemos como helenismo. A provável mistura dos gregos com as populações que estavam lá havia alguns milhares de anos floresceu em uma cidade formidável.

Ruínas de teatro em Jerash, que fica próxima a Amam, a capital da Jordânia. Foto Getty Images

Templos dedicados a toda a turma do Olimpo multiplicavam-se com o dinheiro que vinha de um comércio dinâmico, que envolvia os locais arameus, os colonos gregos e mercadores vindos da Pérsia e até da Índia. Além deles, havia as caravanas de nabateus, cuja capital, Petra, ficava cerca de 200 km ao sul.

Jerash entrou em um período de caos com o declínio dos selêucidas e o avanço dos partas, império persa que dominaria boa parte do Oriente Médio. O Reino da Judeia aproveitou o vácuo de poder e controlou a cidade entre 102 a.C. e 63 a.C. Naquele ano, os romanos chegaram.

Pompeu anexou a vizinha Síria, mas estabeleceu a Jerash e a outros centros urbanos helenísticos um tratamento especial. A Decápole ("dez cidades") era o conjunto de cidades que tinham uma administração semi-independente. Elas se desenvolveram como polos greco-romanos incrustados em províncias habitadas por povos semitas. A maioria dessas cidades fica no território da moderna Jordânia, incluindo Filadélfia, que hoje é capital do país, Amã. Porém, a mais famosa delas se tornaria capital da vizinha Síria: Damasco.

A expansão romana seguiu firme nos séculos seguintes. Em 106 d.C., o imperador Trajano anexou o Reino Nabateu, trazendo Petra e sua influência para mais perto de Jerash. A nova província estabelecida, Arábia Petreia, incorporou o território dos nabateus e ganhou novas estradas, entre elas a Via Nova Trajana, que trazia as riquezas de outras regiões a Jerash.

Templo de Ártemis, em Jerash: história preservada. Foto Getty Images

Ainda no século 2, a cidade ganhou melhorias – cujas ruínas encantam os visitantes hoje em dia. Elas incluíam um templo dedicado a Ártemis, uma praça, um teatro e um arco em homenagem à visita de Adriano, imperador que sucedeu a Trajano.

O auge de Roma começava a ficar para trás, os sassânidas (outro império persa) tumultuaram as estruturas romanas no Oriente, mas o tino comercial de Jerash a salvou da decadência no século 3. Uma nova era de prosperidade chegou, no século 4, agora sob o Império Bizantino. Jerash ganhou igrejas, mas também casas de banho e piscinas, em um tempo em que o emergente cristianismo convivia com os antigos costumes pagãos.

Entre 616 e 630, os sassânidas conquistaram e pilharam a cidade, que, fragilizada, não ofereceu resistência quando a onda muçulmana veio, seis anos mais tarde. Jerash se apequenou. Durante o Califado Omíada, segundo dos quatro impérios formados após a morte de Maomé, a elite de Jerash se mudou para Damasco, promovida a capital do império.

Jerash ainda experimentou certo dinamismo, com a construção de mesquitas e o convívio harmonioso entre cristãos e muçulmanos. Mas não era mais a mesma opulência de antes. O fino da arte, da arquitetura e do dinheiro árabe estava em outras bandas.

O Califado Abássida, que destronou a dinastia omíada, em 750, mudou a capital para Bagdá, ainda mais distante de Jerash. Longe do poder e com estradas esvaziadas, a cidade murchou de vez. Foi o prego no caixão, um ano após um devastador terremoto atingir a região.

Mas, no fim, isso pode ter sido bom. Pelo menos para viajantes contemporâneos e para o turismo da Jordânia, um dos motores da economia nacional. Com a mudança dos polos econômicos para mais longe e os terremotos (houve outros no começo da Idade Média), Jerash tornou-se inabitável e acabou abandonada e soterrada, esperando para ser encontrada novamente.

VIDA NOVA, CRISES NOVAS, OPORTUNIDADES NOVAS

Há 100 anos escavações arqueológicas seguem redescobrindo Jerash. Apesar dos abalos sísmicos e da ação do tempo, a cidade impressiona pelo nível de preservação – já foi até chamada de "Pompeia do Oriente Médio". A cidade voltou a ser ocupada aos poucos sob o domínio dos sultões mamelucos do Egito e, em seguida, dos otomanos, há cerca de 500 anos. Registros dessa nova fase também têm sido desenterrados por arqueólogos.

As ruínas impressionam pelo nível de preservação, que rendeu a Jerash o apelido de "Pompeia do Oriente". Foto Getty Images

Hoje, a moderna cidade cresceu junto às ruínas e tem cerca de 50 mil habitantes. Há relativamente poucos turistas na Jordânia, ainda mais se considerarmos que o país é seguro, amistoso e tem cinco patrimônios da Unesco em um território um pouco menor que Pernambuco – há outros 14 na lista de tentativa, Jerash entre eles.

Em junho, quando o pior da pandemia já parecia ter ficado para trás no país, as restrições começaram a suavizar. Mas os efeitos ainda vão durar.

Todo mês de julho, o tradicional Festival de Jerash dá vida nova às velhas arenas romanas com espetáculos de teatro, música e poesia. Não em 2020. A covid-19 calou a antiga cidade neste verão.

Algumas bandas da cena independente da Jordânia, que floresceu com a Primavera Árabe, têm aproveitado a crise global e participado de festivais online de música, como forma de contornar a ausência de shows e divulgar seu trabalho para outros países. Solução parecida surgiu no horizonte dos produtores de azeite, que estão tendo que dar mais atenção à exportação a fim cobrir parte dos custos.

O coronavírus deixou a Jordânia mais longe de todos. Petra virou uma cidade fantasma. A música alternativa jordaniana e as olivas de Jerash poderão se espalhar e encurtar essa distância.

 

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.