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A cruz e a suástica: o que nazistas faziam na Amazônia antes da 2ª Guerra

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Felipe van Deursen

29/08/2021 04h00

Foto: reprodução Instagram @icmbio/Rubens Matsushita

0º38'S, 52º30'O
Cachoeira de Santo Antônio
Rio Jari, Laranjal do Jari, Amapá

Em 1935, o governo de Getúlio Vargas fazia o jogo malandro de flertar com os Estados Unidos e a Alemanha nazista, então rivais. O nazismo não era proibido no Brasil e tinha seus simpatizantes espalhados em regiões de colonização alemã. Nesse contexto de buscar aprofundar relações diplomáticas, comerciais, militares e até científicas, uma expedição nazista chegou à Amazônia naquele ano.

A missão era chefiada por Otto Schulz-Kampfhenkel, que alardeava na imprensa dos dois países seus feitos. O explorador e zoólogo percorreria o vale do rio Jari, entre os atuais Amapá e Pará, e teria à disposição até um avião. Ao lado dele iriam o piloto Gerd Kahle, o engenheiro Gerhard Krause e Joseph Greiner, alemão que, acredita-se, vivia no Brasil havia anos e conhecia bem a região. Um time de 21 ajudantes locais orientaria os estrangeiros.

Da esquerda para a direita: Gerd Kahle, Schulz-Kampfhenkel e o engenheiro Krause, na partida para o Pará. Foto: Ullstein bild via Getty Images

Entre setembro de 1935 e março de 1937, Schulz-Kampfhenkel percorreu o Jari até a fronteira com a Guiana Francesa. A equipe coletou cerca de 500 amostras de mamíferos, 1.000 de outros animais, 1.200 objetos dos povos aparaí, wayana e wajãpi, fez 2.500 fotos e gastou 2.700 metros de filme. Boa parte acabou em museus de Berlim.

O explorador ficou famoso após lançar, em 1938, o filme Rätsel der Urwaldhölle ("Mistérios da Floresta Infernal"), além de uma exposição e um livro baseados na experiência brasileira. Naquele mesmo ano, o governo Vargas, já convertido na ditadura do Estado Novo, rompeu com a Alemanha, extinguiu o Partido Nazista no Brasil e até vetou o ensino de alemão nas escolas. O que significou que, em termos diplomáticos, o trabalho de Schulz-Kampfhenkel não ajudou a Alemanha a aumentar sua influência no Brasil.

A suástica na Amazônia, em 1935 (reprodução "Mistérios da Floresta Infernal")

Em termos científicos, a expedição também fracassou. Segundo Holger Stoecker, da Universidade Humboldt de Berlim, em entrevista à Deutsche Welle, "Schulz-Kampfhenkel não tinha um interesse científico real, sua motivação não era tão voltada à descoberta. Aparentemente essas expedições eram passos para promover sua carreira e fazer contatos na política, em instituições científicas". A missão serviu para coletar bastante material, mas não resultou em nenhuma descoberta. Schulz-Kampfhenkel não analisou as amostras nem escreveu artigos científicos.

Em vez disso, ele se promoveu. Dizia que a missão no Jari era única no mundo, sendo que, durante o Terceiro Reich, pesquisadores da Alemanha trabalharam também em São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Espírito Santo, segundo a DW. Logo, não era pioneira nem entre alemães, muito menos em escala global. É aquele marketing do exagero extremo, em que você solta uma grande cascata e espera morderem a isca, tipo uma lanchonete alardear que faz o "best burger in the world" mesmo que não seja nem o melhor hambúrguer de Curitiba.

Ele era bom nisso. Schulz-Kampfhenkel aproveitou a fama e acabou virando um consultor do Terceiro Reich para assuntos ligados à Amazônia.

GUIANA BRASILEIRA?

Expedição alemã dependeu do apoio do povo aparaí. Foto: Ullstein bild via Getty Images

Em 1940, Heinrich Himmler, líder da SS e um sujeito que acreditava que a ~raça ariana~ descendia de grãos vivos que vieram do espaço sideral, solicitou a Schulz-Kampfhenkel que analisasse um plano de anexação das Guianas proposto pelo aventureiro austríaco Heinrich Peskoller.

Kampfhenkel teria se apropriado da ideia, dizendo: "Sabe que eu também estava pensando nisso quando estava lá?". Só que não há nenhuma evidência de que ele tenha, de fato, levantado a hipótese de anexação durante a viagem no Amapá.

Que Guianas eram essas? A Francesa, que faz fronteira com o Amapá, o Suriname, então Guiana Holandesa, e a Guiana Inglesa, hoje Guiana. O Amapá serviria de porta de entrada para a conquista e a criação da Guiana Alemã, mas não há sinais de que ele também estaria na mira. As três Guianas eram alvos mais atraentes porque, além de serem colônias distantes de suas metrópoles, estão posicionadas estrategicamente, mais próximas ao Caribe, e têm riquezas minerais – a Guiana Inglesa era fonte de ouro e diamante e, hoje, tem petróleo suficiente para torná-la uma das nações mais ricas per capita do mundo.

O plano jamais foi para frente, por uma questão muito simples. Com a invasão da França e dos Países Baixos, naquele mesmo ano, suas colônias já faziam parte do Terceiro Reich automaticamente. A queda do Reino Unido e suas possessões no mundo todo era uma questão de tempo, na cabeça perturbada dos nazistas.

Cruz com suástica nazista no local onde foi enterrado Joseph Greiner. Foto: Ullstein Bild via Getty Images

No fim das contas, a expedição deixou uma única e curiosa herança. À beira do Jari, próxima à cachoeira de Santo Antônio, uma grande cruz, marcada com a suástica nazista, indica que ali foi enterrado Joseph Greiner, o teuto-brasileiro que acompanhava Schulz-Kampfhenkel e que morreu em 1936, possivelmente de malária. O que indica o sofrimento pelo que passou a missão.

Malária, difteria, calor, chuvas e avião pifado logo no começo da jornada deixaram tudo mais difícil. O Jari é de difícil navegação, então eles precisaram percorrer grandes distâncias a pé e contar, o tempo todo, com o serviço e a ajuda dos aparaí. Concluíram a missão, que pode ter sido um fiasco científico e diplomático, mas ela continua rendendo uns bons causos 85 anos depois.

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Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.