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Facas, repressão e muita maconha: a vida louca de Paul McCartney na Nigéria

Felipe van Deursen

2027-03-20T19:12:39

27/03/2019 12h39

(foto: iStock)

6º37'N, 3º21'L
New Afrika Shrine
Ikeja, Lagos, Nigéria

A Nigéria vivia anos turbulentos naquele começo da década de 1970. A identidade nacional estava mais forte e a economia crescia, beneficiada pela alta dos preços do petróleo, de acordo com analistas internacionais. Mas a inflação, os gastos militares, dívida interna e falta de investimentos em infraestrutura dificultavam um bocado a vida.

O país era uma ditadura militar chefiada pelo general Yakubu Gowon, que estava no poder desde 1966, quando um contragolpe de Estado derrubou e massacrou a etnia ibo, que havia dado um golpe no mesmo ano. Depois, um rico governante ibo do leste criou um novo país, Biafra, estourando um conflito sangrento. A Guerra de Biafra durou três anos e deixou 1 milhão de mortos. Gowon saiu vencedor, e a Nigéria pagaria o preço de manter o território unificado com uma série de choques políticos na década. O general seria deposto em 1975, só para seu substituto ser assassinado no ano seguinte.

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Em janeiro de 1973, um Boeing 707 da Royal Jordanian tentou pousar em condições adversas no aeroporto de Kano, matando 176 pessoas. Foi o pior desastre aéreo da história nigeriana.

Cinco meses depois, outro avião, felizmente, graças a São Roque, pousou sem entreveros no aeroporto Murtala Muhammed (que leva o nome do general assassinado), em Lagos. Ele trazia o engenheiro de som Geoff Emerick e o guitarrista Denny Laine, além de Paul e Linda McCartney.

(foto: iStock)

Naquela época, Paul já era um ex-Beatle com dois discos lançados com sua nova banda, o Wings. Ele pediu à sua gravadora, a EMI, um novo local, fora do Reino Unido, para a missão de gravar o terceiro álbum. Ela tinha estúdios na China e no Brasil. Paul chegou a pensar que o Rio de Janeiro seria muito bom (afinal, Rio). Mas ele deu um passo mais ousado e decidiu por Lagos.

Lagos era então a capital do país e ainda nem tinha 1 milhão de habitantes, bem longe da megalópole que viria a ser. A cidade sediou naquele ano os Jogos Pan-Africanos, que deveriam ter sido realizados em 1971, mas acabaram atrasados. A guerra já tinha terminado, mas os efeitos duraram muito.

Além da turbulência política de uma ditadura militar que havia poucos anos estava em guerra civil, tinha também a crise particular da banda. Às vésperas da viagem, o Wings ficou sem o principal guitarrista e o baterista, que pularam fora do projeto. Não seria uma viagem tranquila. Paul precisaria assumir as baquetas e Linda ainda estava aprendendo a tocar, segundo ele próprio diz no documentário Paul McCartney and Wings: Band on the Run. O estúdio da EMI em Apapa, na região portuária de Lagos, estava inacabado e em condições precárias: só havia um gravador e os microfones ficavam largados em uma estante.

Todos os dias, os integrantes da banda pegavam uma hora de trânsito de suas casas alugadas em Ikeja, perto do aeroporto, até Apapa. Mas isso só depois de passarem a manhã em um clube de campo. O casal levou os três filhos pequenos, precisavam de um tempo em família. As gravações começavam à tarde e iam até altas da madrugada.

(foto: iStock)

Certa noite, Paul e Linda voltaram a pé para a casa quando foram abordados por um carro. Ele achou que fossem oferecer uma carona, mas cinco homens desceram, um deles armado com uma faca. Levaram uma mala com letras e fitas demos. De nada adiantou Linda gritar "parem, ele é um músico!". Muito do trabalho teria que ser todo refeito.

O corpo de Paul sentiria o estresse daqueles dias pouco depois. No estúdio, ele ficou sem ar, branco como um fantasma. Era um espasmo brônquico.

E ainda teve o encontro com Fela Kuti. Fela dizia que Paul estava na Nigéria apenas para roubar a música dos negros. Então Paul sentiu que precisava dar uma satisfação a ele. Afinal, não se tratava de um blogueirinho qualquer, mas de alguém que já vinha colocando o país no mapa da música mundial e que figuraria, assim como Paul, entre os maiores artistas de todos os tempos.

(foto: iStock)

O ex-Beatle convidou Fela para conferir as gravações e ver que não tinha nada de afrobeat ou outro estilo africano nas músicas (bem, talvez não diretamente, apesar de os Beatles terem sido influenciados pelos pioneiros afroamericanos Chuck Berry e Little Richard, é bom lembrar).

Nas palavras de Paul, Fela chegou, viu que ele não estava roubando a música africana, ficaram amigos e foram para a casa de shows de Fela, o Afrika Shrine. Paul ficou embasbacado com a performance ao vivo da banda, a ponto de se lembrar de uma música específica mais de 45 anos depois.

Lá, todos fumaram maconha. Mas não um fininho mequetrefe qualquer. Paul a princípio relutou, mas aceitou. Ficou alucinado. Foi o baseado mais forte de sua vida.

Paul McCartney e Fela Kuti (foto: Reprodução/Instagram.com/findingfela

Apesar (ou por causa dela) de toda essa loucura, o Wings gravou o álbum em seis semanas. A banda voltou para o Reino Unido, em setembro, para os ajustes finais. Em dezembro, o resultado já estava nas lojas. Era Band on the Run, um dos grandes discos da história do rock, considerado por muitos a melhor obra de um Beatle pós-Beatles. Para Paul, Lagos teve um papel central na produção. Eles jamais teriam feito um álbum assim na zona de conforto de Abbey Road.

Já o Afrika Shrine não durou muito. Seu dono, além de ser um artista sublime e um polígamo inveterado envolto em espessas nuvens canábicas, era um ativista político que despejava seus petardos de jazz, funk, música iorubá e highlife de Gana contra um governo casca-grossa, repressor e corrupto.

Em 1977, Olusegun Obasanjo, o último chefe de Estado do primeiro regime militar da Nigéria (haveria ainda outros três), enviou mil soldados para por abaixo o reduto antigovernista que era o Afrika Shrine, A casa, por onde passaram, além de Paul McCartney, James Brown e Gilberto Gil, foi reduzida a escombros. Os homens arrancaram Fela de lá pelos testículos e mataram sua mãe, de 78 anos, ao atirá-la da janela.

Mas a história não terminou. O New Afrika Shrine, tocado pelos filhos Femi e Yeni, tenta manter o legado musical e político da casa anterior. O local também chegou a ser fechado pelo governo e atraiu artistas de outras gerações, como Damon Albarn e Flea.

Em 2018, o presidente francês Emmanuel Macron visitou a casa para anunciar um festival de cultura africana na França, em 2020. Ele estivera ali em 2002, quando era estagiário na embaixada francesa, para um show de Femi Kuti.

Sir Paul McCartney já tocou em Cariacica, Florianópolis, Goiânia e em 11 estádios — antes e depois da era das hiperfaturadas arenas da Copa do Mundo (só em São Paulo ele se apresentou no Morumbi, no Pacaembu e no Allianz Parque). Mas nada dele voltar ao Afrika Shrine.

New Afrika Shrine: a casa de shows que mantém o legado de Fela Kuti. (foto: Wikimedia Commons)

* Obrigado ao Tiago, que me recomendou a história.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.