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Terra à vista!

Condomínio de minicastelos abandonados é a face bizarra da crise na Turquia

Felipe van Deursen

14/02/2019 15h42

Isso não é uma maquete (Foto: Reprodução/Instagram)

40º44'N, 31º20'L
Burj al Babas
Mudurnu, Bolu, Turquia

Em maio de 2013, milhares de pessoas foram às ruas protestar contra o regime cada vez mais autoritário de Recep Tayyip Erdoğan na Turquia. O estopim da revolta foi a destruição de um parque histórico na região central de Istambul, que daria lugar a um quartel e um shopping. Os planos mudaram, o shopping não veio, mas a praça Taksim, epicentro das manifestações, virou um canteiro de obras com asfalto demais e árvore de menos.

Desde então, foi ladeira abaixo. A Turquia, um dos países mais promissores da década passada, tanto política quanto economicamente, mergulhou em crises nos anos 2010. Erdogan assumiu cada vez mais a face ditatorial e a lira turca emergiu nos cadernos de finanças no ano passado enquanto sua cotação submergia e ameaçava as moedas de outros países.

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A crise econômica ficou latente na construção civil. Erdoğan estimulou empreiteiras para serem o grande motor da economia turca, gerando empregos e projetos em todo o país. Mas a desvalorização da lira deixou empresas sufocadas para pagar dívidas contraídas em moedas estrangeiras. Resultado: construtoras faliram, pessoas perderam o emprego, clientes não viram suas casas prontas. O colapso espalhou, feito cogumelos após a tormenta, uma mancha de cidades-fantasmas e condomínios abandonados pelo país.

O exemplo mais emblemático é Burj al Babas. Um complexo que elevou a níveis surrealistas o deserto infértil de criatividade arquitetônica dos condomínios fechados. Concebido para ser um residencial de luxo (óbvio) no caminho entre a cidade principal (Istambul) e a capital (Ancara), ele começou a criar forma em 2014, mirando os endinheirados do Golfo Pérsico que pretendiam ter uma propriedade na Anatólia, a península por onde a Turquia se espalha e que as enciclopédias emboloradas chamavam de "Ásia Menor". Casas de banho turco e campos de golfe seriam a cereja não de um, mas de 732 bolos de noiva idênticos: residências fantasiadas de castelos de contos de fadas.

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As imagens de drones são impactantes, daquele tipo que gera chamadas caça-cliques de sites apelões ("Você não vai acreditar neste condomínio de castelos abandonados!!"). São fileiras e fileiras a perder de vista de casas idênticas.

Os mais cínicos podem achar que é uma nova obra de Ai Weiwei, uma crítica à disneyficação dos sonhos de consumo e que faça pensar que não, não é possível, deve ter um grafite do Banksy escondido em algum muro ali no meio explicando que isso é uma bisonha fábrica de casas de boneca para adultos.

Os mais práticos, porém, viam ali uma oportunidade de negócio ou de estilo de vida. Cada casa saía por preços que iam de US$ 300 mil a US$ 550 mil e vinha cheia das mordomias e seguranças típicas de condomínio de alto padrão. Se você tem a grana e está a fim, por que não investir em uma miniatura de castelo? O negócio parecia estar dando certo. Quase metade dos compradores eram do Kuweit, o pequeno e rico país petroleiro localizado a 3h de voo.

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"Tenha o seu próprio jardim de Versalhes"

Mas, no ano passado, a crise da lira turca pegou feio o empreendimento e a construtora faliu. No começo de fevereiro, os credores se reuniram e permitiram que a empresa retomasse as obras. Os investidores estão reticentes, não sabem se acreditam que verão o fim das obras.

Especialistas no setor, por sua vez, estão temerosos, afirmam que condomínios assim, sem estudos e levantamentos prévios, sem o menor respeito ao contexto geográfico e histórico da região, estão se espalhando por toda a Turquia (se na sua cidade você não vê mais o nascimento de bairros, apenas de residenciais murados sem nenhum envolvimento com o urbanismo local, você sabe do que eles estão falando). Pensando nisso, há uma nova regulamentação governamental que impõe que novos empreendimentos se adequem às heranças culturais do lugar. Mas, em casos como esse, o estrago, na visão deles, já está feito.

Os moradores do município onde fica Burj al Babas também não gostaram do anúncio da retomada das obras. Sobram críticas à total falta de identificação da arquitetura pretensiosamente afrancesada do residencial com as raízes bizantinas e otomanas locais.

ORIGEM BEM LONGE DA MESMICE

Mudurnu é uma bela cidade histórica cercada de florestas e montanhas. Há vestígios de frígios e lídios (povos que habitaram a Anatólia), persas, romanos e seljúcidas (império turco-persa medieval), além dos já citados bizantinos e otomanos, em sua história. Das origens milenares, ainda restam ruínas do castelo bizantino no alto da cidade.

Sim, já havia um castelo ali! Há mais de mil anos! E de verdade!

Mas a maior parte da herança arquitetônica visível é, evidentemente, do Império Turco-Otomano, a potência que assombrou a Europa por alguns séculos e sobreviveu até a Primeira Guerra Mundial. Há um preservado casario dos 1800, uma torre do relógio de 1890, uma casa de banho de grande importância para as artes decorativas otomanas e até uma mesquita construída por ordem de Suleiman, o Magnífico, um dos mais importantes soberanos da história da humanidade. Outro ponto alto de Mudurnu é a mesquita Yildrim Bayezid, exemplo da arquitetura otomana primitiva, erguida no século 14, poucos anos antes da casa de banho.

Casario e torre do relógio (foto iStock/Getty Images)

 

(foto: iStock)

 

Hammam Yildrim Bayezid: casa de banho de mais de 600 anos (foto: iStock)

Nada contra quem quer morar em um castelo europeu de mentira na Ásia. Até tenho amigos que querem. Mas eu prefiro esperar para ver se o preço cai para 1 euro.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais curiosos e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.