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A verdadeira ilha de lixo do Pacífico

Felipe van Deursen

23/11/2019 04h00

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24º22'S, 128º19'O
Ilha Henderson
Ilhas Pitcairn, Território Britânico Ultramarino

 

Quando a Grande Ilha de Lixo do Pacífico começou a ganhar mais destaque na imprensa, na década passada, muita gente se horrorizou. Pudera, uma montanha de plástico que, em 2008, era maior que Minas Gerais é de dar vergonha em qualquer ser humano decente.

Mas, à medida que expedições fotográficas e documentários jogavam mais luz nessa desgraça, evidenciando em foto e vídeo o tamanho da encrenca, batia uma, digamos, frustração iconográfica. Não se via ilha alguma, porque ilha não havia.

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O nome "Grande Ilha de Lixo" é muito forte, mas cria imediatamente uma imagem errada de um Robinson Crusoé acompanhado de um Wall-E catando cocos em meio a entulho e chorume. Ou então o náufrago de Tom Hanks sem precisar transformar uma bola de vôlei em amigo, porque lá não haveria tal tipo de solidão, pois ele estaria em uma ilha hiperpovoada de criaturas paridas do lixo. Uma multidão de Wilsons.

Para evitar essa concepção equivocada, o nome mais usado hoje é Grande Porção de Lixo do Pacífico ou Grande Sopa de Lixo do Pacífico. Afinal, o que existe não é uma grande corrente de garrafas PET boiando, mas uma gigantesca área repleta de pedacinhos flutuantes. Não é visível por satélites (diferentemente dos incêndios na Amazônia, como alguns negacionistas tentaram explicar no YouTube e passaram vergonha) e às vezes nem por barcos. Estima-se que 94% desse lixo seja composto por microplástico (pedaços menores que 5 mm).

Isso porque o plástico, na natureza, com o tempo, tende a se fragmentar. É aí que mora o perigo, porque o microplástico se transforma em nanoplástico (menos de 0,001 mm) e acaba ingerido por plânctons. Como essas criaturas são a base da cadeia alimentar oceânica, o plástico acaba no estômago de inúmeras criaturas. Inclusive nós.

UM PARAÍSO AFUNDADO EM PLÁSTICO

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Em meio a esse processo de plastificação do Pacífico, uma pequena ilha pode se tornar o novo símbolo dessa luta por um descarte mais consciente. Henderson virou, nos últimos anos, um deplorável lixão.

Ela faz parte do arquipélago Pitcairn, do qual já falei aqui no blog, sobre os marujos britânicos amotinados que criaram o "país" menos populoso do mundo. Henderson fica a um dia de navegação de qualquer cidade, longe o suficiente para sequer ser lembrada enquanto afunda no chorume.

Mas há um agravante. A Ilha Henderson não é uma rocha inóspita e sem vida, mas um dos últimos remanescentes de atol elevado (que fica acima do nível do mar) do planeta. Em 1988, a Unesco lhe conferiu o título de patrimônio natural da humanidade.

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Tem somente 37 km². Essa pequena área, de pouco mais de dois parques do Ibirapuera, em São Paulo, é o lar de quatro aves endêmicas. Segundo uma análise de 2017, Henderson também é a casa de 18 toneladas de plástico. Três mil e quinhentos novos itens chegam à praia todos os dias, no que o estudo chamou de "a maior densidade de detritos plásticos registrada em qualquer lugar". 

Isso em uma ilha que fica em um santuário de proteção para mais de 1.200 espécies de aves, mamíferos marinhos e peixes. Henderson também está localizada na terceira maior área marinha protegida do planeta. São 830 mil km² em que a exploração do solo marinho e a pesca comercial são proibidas.

Ainda assim, 60% desse lixo é associado à indústria pesqueira. Restos de boias, cordas e redes se acumulam na areia.

Henderson é um ímã de lixo porque fica no meio do Giro do Pacífico Sul, sistema de correntes oceânicas entre a América do Sul e a Oceania. Essas correntes concentram o plástico flutuante nos oceanos – a Grande Porção de Lixo do Pacífico é fruto do Giro do Pacífico Norte.

Boa parte dos detritos que acabam em Henderson sai da América do Sul. Mas um grupo de limpeza que foi à ilha em junho deste ano achou garrafas de bebidas do Japão e de Porto Rico, uma bota holandesa e um capacete americano. Cestas de roupas, assentos de privada, lâminas de barbear, escovas de dentes, cadarços se acumulam nesse cenário lamentável.

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Todo esse plástico muitas vezes é achado no estômago de aves marinhas e baleias mortas. O lixo também pode prender, deformar e sufocar golfinhos, tartarugas e tubarões.

Os habitantes de Pitcairn são poucos e estão longe. Cinquenta pessoas, que moram a 200 km de Henderson, não podem ser as únicas responsáveis por limpar um santuário que recebe lixo do mundo inteiro.

De acordo com a Royal Statistical Society, do Reino Unido, 8 milhões de toneladas de plástico vão parar nos oceanos todo ano. Em 2050, o planeta produzirá quatro vezes mais plástico do que hoje. Enquanto se fala tanto em "cancelar" canudos, uma atitude bonitinha porém muito mais simbólica do que realmente eficaz, santuários como Henderson correm o risco de sumir antes que as pessoas saibam que ele existe.

Sobre o autor

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan. Gosta de batata, de estudar e de viajar.

Sobre o blog

Os lugares mais incríveis e surpreendentes do mundo e a história (nem sempre tão bela nem tão ensolarada) que cada um deles guarda. Um blog para quem gosta de saber onde está pisando.